Investidores

As grandes pequenas da Bolsa

O ano de 2017 foi um período muito bom para o mercado acionário. Após amargar dois anos de quedas sucessivas, as ações anteciparam os prognósticos de crescimento da economia para 2018 e recuperaram parte das perdas que vinham sofrendo. O Índice Bovespa, principal indicador dos humores dos investidores, subiu 26,86% no ano passado. Um desempenho excelente, mas que foi ofuscado pelo campeão de valorização. O índice das small caps, que reúne ações de menor valor de mercado, subiu quase o dobro, com 49,3%.

Como explicar essa alta? Segundo os analistas, as empresas menores são as mais prejudicadas em momentos de crise, mas tendem a se recuperar mais rápido e com maior intensidade quando o cenário melhora, como o que está ocorrendo agora. Para saber quais papéis prometem brilhar nos pregões neste ano, DINHEIRO conversou com analistas de 12 corretoras, pedindo recomendações para ações promissoras de empresas com valor de mercado inferior a R$ 11 bilhões.

Duratex, na construção civil: para os analistas, corte de custos e reajustes de preços devem melhorar as margens de lucro da companhia (Crédito:Divulgação)

As companhias indicadas pelos analistas (observe abaixo o quadro com as mais votadas) são de setores diversos, e apresentaram desempenhos variados em 2017. No entanto, há um ponto comum entre elas. Todas, em maior ou menor grau, são empresas cíclicas. Ou seja, seu faturamento cresce mais que a média nos momentos de expansão da economia. Um bom exemplo é o setor de autopeças. A principal recomendação dos analistas para 2018 é um papel tradicional nas bolsas: a gaúcha Iochpe-Maxion, cujo principal negócio é a fabricação de rodas de automóveis. “As empresas ligadas ao setor de autopeças vinham de anos ruins e em 2017 apresentaram recuperação”, diz Vitor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos. “Esse movimento ainda não acabou.” Em linha com a característica das ações de small caps de valorizar mais que a média do mercado, os papéis da companhia subiram 101,7% no ano passado, e a tendência continua positiva. Mesmo assim, as ações ainda estão baratas. Na quarta-feira 24, sua relação entre cotação e valor patrimonial era de 138%, abaixo dos 176% médios do mercado.

Para os analistas, a Iochpe-Maxion ainda deve se beneficiar da recuperação do setor automotivo, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Por aqui, a expectativa oficial do setor aponta para crescimento de 13,2% na venda de veículos. “Dessa maneira, a capacidade ociosa da empresa poderia diminuir, e beneficiar os resultados sem a necessidade de grandes investimentos”, diz Luis Gustavo Pereira, da Guide Investimentos. Para colocar as máquinas para funcionar, a Iochpe-Maxion passou a dar mais ênfase, nos últimos dois anos, à fabricação de rodas de alumínio. “Hoje usamos 90% de nossa capacidade instalada para a produção de rodas e 70% na fabricação de componentes, como chassis”, diz Marcos Oliveira, presidente da Iochpe-Maxion. As ações da companhia fecharam a R$ 23 na quarta-feira 24. O Citi indica um preço-alvo R$ 26 em 12 meses, o que representa uma valorização potencial de 13,04%.

BR Malls, nos shopping centers: venda de participações permitiu quitar dívidas e gerar caixa para aproveitar oportunidades de investimento (Crédito:Divulgação)

Outro fator positivo para a empresa é a diminuição da alavancagem. Em 2012, a dívida líquida era equivalente a seis vezes a geração de caixa medida pelo Ebitda. Essa relação caiu para 2,89 vezes no terceiro trimestre de 2017. A empresa fez dívidas para financiar aquisições que tornaram-na uma das maiores produtoras de rodas do mundo. O maior negócio foi a compra da concorrente americana Hayes Lemmerz, por US$ 725 milhões, em 2011. A postura agressiva fez com que o percentual de vendas no mercado internacional aumentasse gradativamente, até representar 75% da receita no terceiro trimestre do ano passado. A maior parte, 37% do total, vem da Europa. “Consideramos a empresa como uma aposta alavancada no mercado automotivo global”, diz Ricardo Vilhar Peretti, estrategista do Santander.

A atuação internacional é um fator em comum entre outra das preferidas dos analistas, a Valid. A companhia opera principalmente no segmento de identificação, validando identidades e carteiras de habilitação em 13 estados brasileiros, e está presente em 15 países além do Brasil. Seu segundo segmento de atuação é a fabricação de chips para celular. “Somos a quinta maior produtora de cards para celular do mundo”, diz Rafael Neves, gerente de relações institucionais da Valid. Metade da receita hoje vem do mercado externo. Para este ano, a empresa segue o desafio iniciado em 2016 de cortar custos, o que é considerado positivo pelos analistas. A melhora refletiu a redução na quantidade de fábricas. No Brasil, o número de plantas encolheu de cinco para três, e nos Estados Unidos, a redução foi de quatro para duas. “Planejamos alcançar a redução de R$ 80 milhões nos custos até o primeiro semestre de 2019”, diz Neves.

No ano passado, as ações da Valid não brilharam na bolsa. A receita do terceiro trimestre caiu 3,2% em comparação com o mesmo período do ano passado, recuando para R$ 421 milhões. Com isso, as ações se desvalorizaram 15,6% em 2017. “Esperamos uma recuperação dos preços, à medida que os fundamentos do negócio estão melhorando”, diz Regis Chinchila da Terra Investimentos. Cotados a R$ 18,40, os papéis caíram 0,3% neste ano. Chinchila calcula um preço-alvo de R$ 24,00 em 12 meses, indicando uma alta potencial de 30,4%. A equipe de análise do Itaú considera a Valid como “uma das teses de investimento mais intrigantes entre as small caps”. Segundo os analistas do banco, o ano de 2017 foi difícil em termos de resultados, mas as perspectivas para 2018 são melhores.

Outra das indicadas é a administradora de shopping centers BR Malls. Dentre as votadas, é a de maior valor de mercado, com R$ 10,88 bilhões. Suas ações caíram 1,8% neste ano, depois de terem subido 23,1% em 2017. Um dos destaques da empresa é que ela dedicou-se a reformar seu portfólio no ano passado, tendo vendido suas participações integrais em seis shoppings. Com isso, ela colocou R$ 824,3 milhões no caixa. “A operação possibilita usar os recursos provenientes da venda para investimentos alinhados com a sua estratégia”, informou a empresa em um comunicado.

Marcos Oliveira, presidente da Iochpe-Maxion: “Hoje usamos 90% da capacidade instalada para a produção de rodas.” (Crédito:Divulgação)

Os analistas apontam como vantagem a redução do endividamento da companhia, que pagou títulos perpétuos de US$ 378 milhões no ano passado. “Isso deixou a empresa em uma posição mais confortável para eventuais oportunidades de investimentos”, diz Pereira, da Guide. A melhora na atividade econômica também deve impulsionar seus resultados. No terceiro trimestre de 2017, o lucro líquido ajustado subiu 46% na comparação anual, para R$ 110 milhões

A Duratex, empresa do grupo Itausa que produz painéis de madeira, foi apontada por dois analistas como uma boa opção de investimento. A favor, a companhia tem o impacto positivo no corte de custos e o aumento de preços praticado no último semestre do ano passado, e a recuperação, ainda que tímida, dos negócios na construção civil. “Em meio a um ambiente econômico mais favorável, esperamos crescimento no volume das vendas, diluição dos custos fixos e avanço de margens”, diz Pedro Galdi, da Magliano.