Entrevista

Caco Ciocler, ator e diretor

As empresas podem — e devem — fazer a diferença no atual cenário

foto: Dessa Pires / Make: Fernando Ocazione / Stylist: Karen Brustolin

As empresas podem — e devem — fazer a diferença no atual cenário

Diante da pandemia global, o ator e diretor Caco Ciocler montou o projeto Lista Fortes Brasil, que incentiva companhias a doar ao menos 1% do lucro líquido a ações de combate ao coronavírus e a programas sociais.

Klester Cavalcanti
Edição 24/04/2020 - nº 1168

O ator e diretor paulista Caco Ciocler, 48 anos, estava com três grandes trabalhos engatillhados, quando o coronavírus interrompeu tudo. Interpretaria Jesus, no espetáculo Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, interior de Pernambuco; iria lançar seu novo filme, Partida; e ainda estrearia uma peça, Língua Brasileira, em São Paulo. “Mas veio a pandemia e parou o mundo”, diz. Já no início do confinamento social, ele percebeu que as classes menos favorecidas seriam as maiores vítimas da crise econômica gerada pelo coronavírus. Passou a fazer vídeos, incentivando seus seguidores nas redes sociais a ajudar de diferentes formas.

A ideia ganhou força e deu origem à Lista Fortes Brasil, nome inspirado na relação da revista Forbes, que mostra as pessoas mais ricas do mundo. No caso da Fortes, são listadas empresas que fazem doações de 1% ou mais do seu lucro líquido anual ao combate ao coronavírus e seus danos sociais. Hoje, estão na lista o Banco Safra, a BRF, o Itaú Unibanco, as Lojas Americanas e a Votorantim. Até agora, a maior contribuição foi do Itaú Unibanco, que dou R$ 1,15 bilhão (4,3% do seu lucro líquido). Em percentual, a Lojas Americanas é a campeã, , com 7,7% do seu lucro líquido (R$ 45 milhões). Em troca, as empresas da Lista Fortes têm suas marcas divulgadas nas redes sociais de cerca de 50 personalidades, de diversas áreas de atuação, que fazem parte do projeto. Fafá de Belém, Gilberto Gil, Larissa Manoela, Leandro Karnal, Marília Gabriela, Lázaro Ramos, Paulo Betti e Rodrigo Santoro estão entre os que se uniram à causa. Somando todos os seguidores do grupo nas redes sociais, chega-se ao impressionante número de 50 milhões de indivíduos. “É uma audiência maior do que qualquer programa de TV tem hoje no Brasil”, afirmou Caco à DINHEIRO. Ele se mostra otimista diante do atual cenário de caos. “Essa pandemia está nos dando uma chance rara de evoluirmos, de nos tornarmos pessoas e sociedades melhores. Temos uma grande oportunidade de aprender, nem que seja na marra”.

DINHEIRO — Como você vê o atual momento pelo qual o mundo está passando?
CACO CIOCLER — Estamos no meio de um evento assombroso, que vai marcar para sempre a História. Acredito que ainda não temos noção da dimensão do que estamos vivendo. A solução ainda vai demorar a aparecer. Mesmo quando tivermos uma vacina, as pessoas terão muito medo de estar em locais de grandes aglomerações. Penso que os efeitos sociais do coronavírus vão repercutir por anos ou décadas. Nessa realidade, precisamos estar atentos às pessoas que mais precisam, que não podem se dar ao luxo de abrir mão do salário do mês. É para essas pessoas que nós, das classes mais abastadas, precisamos olhar neste momento. E a iniciativa privada é peça fundamental nessa engrenagem. As empresas podem – e devem – fazer a diferença no atual cenário. Não podemos ficar apenas esperando por ações dos governos, que também estão se esforçando para combater o problema.

Como surgiu a ideia da Lista Fortes Brasil?
Como tenho muitos amigos fora do Brasil, eu já sabia que a crise do coronavírus era muito grave, mesmo antes de o confinamento ser adotado por aqui. Comecei o meu isolamento antes de o País entrar em quarentena. Dei licença remunerada à Sandra, que trabalha na minha casa há mais de 10 anos, e fiquei acompanhando o que acontecia no País. Tem muita gente que precisa do dinheiro que ganha hoje para comprar a comida de amanhã. E há os profissionais liberais, que não conseguem oferecer seus serviços pela internet e também precisam ser ajudados. Fiz alguns vídeos, buscando ajudar esses trabalhadores, como cabeleireiros, garçons, motoboys. E o retorno era sempre muito bacana. Nessa época (final de março), vi vídeos de dois empresários do Brasil: o dono das lojas Havan (Luciano Hang) e o dono dos restaurantes Madero (Junior Durski). Basicamente, eles se colocavam contra o isolamento, argumentando que isso iria quebrar a economia do País, e chegavam até a reduzir a importância das mortes de algumas pessoas. Eu entendo perfeitamente a cabeça do empresário. Respeito muito o trabalho dos empresários que investem em negócios, correm riscos, geram empregos, pagam impostos. Acho muito justo que eles tenham lucro. Eles merecem. Trabalharam para isso. Mas a forma como esses dois empresários se colocaram, diante de um assunto de tamanha gravidade, me incomodou. Senti muita insensibilidade da parte deles.

E o que você fez a respeito?
Como eu não conhecia essas duas empresas, nunca consumi nada delas, fui pesquisar sobre as duas. Daí, descobri que Luciano Hang está na lista de bilionários da Forbes, com fortuna estimada em US$ 2,2 bilhões, e que o Madero teve cerca de R$ 280 milhões de lucro no ano passado. Somei o lucro líquido do Madero, da Havan e dos grandes bancos brasileiros e fiz um cálculo, que chegou ao seguinte resultado: somado, o lucro líquido dessas empresas seria o bastante para pagar um salário de R$ 1 mil (pouco mais do que um salário mínimo) para 30 milhões de pessoas, durante três meses, que é aproximadamente o período que se imagina que deve durar a quarentena. Ou seja, apenas essas companhias podereiam resolver grande parte do problema das classes mais pobres durante a pandemia.

“Todos os dias, somos contatados por diversas empresas interessadas em entrar no projeto. Hoje, já estão na Lista Fortes o Banco Safra, a BRF, o Itaú Unibanco, as Lojas Americanas e a Votorantim” (Crédito:Divulgação)

O que você tem sentido das empresas?
Estamos muito felizes e animados. Todos os dias somos contatados por diversas empresas interessadas em entrar no projeto. Hoje, já estão na Lista Fortes o Banco Safra, a BRF, o Itaú Unibanco, a Lojas Americanas e a Votorantim. E estamos analisando várias solicitações de outras companhias que querem entrar na lista.

Como vocês analisam essas solicitações e como as empresas fazem as doações? Há uma conta bancária que recebe os aportes?
Nós não recebemos nenhum dinheiro de ninguém. As empresas fazem as doações diretamente às entidades beneficiadas. Apenas divulgamos os nomes das companhias que aderem ao projeto. Além disso, pedimos que as empresas nos passem o CNPJ das instituições beneficiadas por elas. Entramos em contato com essas instituições e confirmamos se, de fato, receberam a verba divulgada pela companhia.

Qualquer empresa pode entrar na Lista Fortes Brasil?
Sim, independentemente do montante com o qual contribuir. Só precisa doar 1% ou mais do lucro líquido.

Não há nenhum tipo de restrição ou veto?
Na verdade, há sim. Existem duas situações diante das quais uma empresa não pode entrar na Lista Fortes, mesmo que faça uma doação superior a 1% ao combate ao coronavírus: estar na Lista Suja do Trabalho Escravo, formada por empresas flagradas explorando mão de obra cativa, e estar incluída na lista de áreas embargadas pelo Ibama, elaborada com nomes de companhias que promovem desmatamentos ilegais. Não queremos na nossa lista empresas que fazem esse tipo de coisa.

Como você chegou a esse valor de 1%?
Logo que criamos a Lista Fortes Brasil, comecei a ser contatado por várias empresas que já haviam feito doações a programas de combate ao coronavírus e queriam entrar na nossa lista. Mas, em nenhum caso, a verba doada chegava a 1% do lucro líquido. Daí, pensei em adotar esse valor de 1% como marca para o nosso projeto. Estamos falando de apenas 1% do lucro líquido, que é a grana que uma companhia ganha depois de tirar os gastos com todas as despesas, funcionários, fornecedores, perdas, impostos. Penso que doar 1% do lucro líquido, num momento caótico como o atual, é um esforço que as companhias podem fazer, em virtude de um bem maior e coletivo.

Lembra de alguma situação específica que lhe marcou de forma mais forte?
No bairro onde eu moro, em São Paulo, já ouvimos pessoas gritando na rua, pedindo comida. E vários moradores dos prédios jogaram comida para elas. Olha a que ponto chegamos! E engana-se quem pensa que a situação está pesada apenas para os mais pobres. A classe média também já está sofrendo muito. Eu tenho um apartamento que está alugado, e o meu inquilino já me avisou que não sabe quando vai poder pagar. Eu falei que ele pode continuar morando lá, sem problemas. Mas eu posso fazer isso. E quem não pode? E quem precisa trabalhar hoje para comer amanhã? São essas pessoas que precisam de ajuda urgentemente. E não podemos esperar apenas ações do governo. As empresas privadas têm uma ótima oportunidade de fazer algo realmente bacana.

Esse é o objetivo da Lista Fortes Brasil?
Assim como os empresários acham bacana serem incluídos na lista da Forbes, queremos que eles tenham ainda mais orgulho de estarem na Lista Fortes, formada por companhias que ajudarão o Brasil a passar pela maior crise global das últimas décadas. Tenho certeza de que as empresas que entrarem na Lista Fortes vão ganhar a admiração das pessoas e conquistar mais consumidores. Não podemos esquecer que as companhias também estão passando por dificuldades, perdendo faturamento, deixando de produzir.

“Somando todos os seguidores que nossa turma tem nas redes sociais, atingimos 50 milhões de pessoas. Vamos divulgar as marcas das empresas” (Crédito: Zo Guimaraes / Divulgação)

Há pessoas que deram contribuições especiais na elaboração do projeto?
Sim. Graças a uma dica da Letícia Sabatella, por exemplo, surgiu a ideia de não aceitarmos empresas que exploram
o trabalho escravo. Já o Roger Gobeth foi a primeira pessoa a dizer que precisávamos montar uma estrutura profissional para o projeto. A Fafá de Belém, por sua vez, trouxe parceiros de diversas áreas. Graças a ela, temos a colaboração de empresas de assessoria jurídica, comunicação digital e de marketing. São profissionais muito competentes que estão doando seu tempo e talento para termos uma estrutura forte. E também destaco a contribuição do Rodrigo Santoro. A princípio, nosso grupo só tinha atores. Ele trouxe a ideia de convidarmos pessoas de outras áreas, como música, literatura, esporte, educação, filosofia.

Como esse “exército do bem” atua?
Divulgando as marcas que aderirem ao projeto. Somando todos os seguidores que nossa turma tem nas redes sociais, conseguimos atingir mais de 50 milhões de pessoas. Todas as ações divulgadas na Lista Fortes serão compartilhadas por nossos colaboradores. Muitas dessas pessoas são pagas para divulgar marcas e produtos. No nosso caso, todo mundo faz de livre e espontânea vontade, sem ganhar nada. Ou seja, os artistas, atletas e intelectuais do nosso time estão doando 100% do cachê que poderiam receber dessas empresas para divulgar suas marcas e iniciativas. Não estamos apenas pedindo. Também estamos fazendo a nossa parte.

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