Entrevista

Camila Farani, presidente da G2 Capital

“As empresas e a sociedade não toleram mais discriminação”

Marcus Steinmeyer

“As empresas e a sociedade não toleram mais discriminação”

Única mulher a participar de todas as cinco temporadas da versão brasileira do maior reality de empreendedorismo do mundo, o Shark Tank, do canal Sony, ela decidiu lançar um hub de apoio a empresárias no País.

Hugo Cilo
Edição 20/11/2020 - nº 1198

Por meio da G2 Capital, empresa que criou e preside, a carioca Camila Farani tem ajudado a promover investimentos em startups e empresas com propósito econômico e social. Na semana passada, ela lançou uma plataforma digital voltada para mulheres interessadas em criar ou desenvolver negócios, buscar parceiros e investidores. A meta é alcançar 500 mil pessoas até 2022. O nome não poderia ser mais apropriado: Ela Vence. A inspiração vem de iniciativas de ícones do movimento de igualdade racial e de gênero no mercado de trabalho, como Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e Ana Fontes, do Instituto Rede Mulher Empreendedora. Com a nova plataforma, Camila Farani pretende estampar sua contribuição para reduzir desigualdades. Primeira mulher a presidir um dos mais importantes grupos de investimentos-anjo do Brasil — o Gávea Angels —, a cofundadora do grupo Mulheres Investidoras Anjo tem mais de 200 mil seguidores no LinkedIn e de 600 mil no Instagram. Nesta entrevista à DINHEIRO, ela falou sobre as transformações nas empresas e na sociedade em questões raciais e de gênero, além de traçar um horizonte promissor para as próximas eleições no Brasil e no mundo.

DINHEIRO – Quais são os maiores desafios para o empreendedorismo feminino no atual ambiente econômico?
CAMILA FARANI – Sem dúvida nenhuma, há um importante avanço estatístico. Atualmente, 50% dos novos empreendedores no Brasil são mulheres. O associativismo presente no DNA feminino dá muita força e muito protagonismo para as empresárias. Por outro lado, eu que sou formada em direito, mas atuo na área financeira e de tecnologia, vejo que falta presença de mulheres em setores que são, majoritariamente, masculinos. Mesmo assim, é algo que vejo de forma positiva. Isso acaba trazendo mais fonte de inspiração e força. As mulheres empreendem muito mais quando têm modelos dentro do ambiente de trabalho. E nós mulheres conquistamos, nos últimos anos, muitas referências e fontes de exemplos. Posso citar Ana Fontes, fundadora do Instituto Rede Mulher Empreendedora, e Luiza Trajano, do Magazine Luiza, entre tantas outras mulheres que hoje estão liderando, que acabam inspirando outras mulheres a empreender. Nunca se falou tanto em empreendedorismo feminino, assim como também nunca se criou tantos negócios liderados por mulheres.

O que falta para essa força feminina se refletir em mais equidade dentro das grandes empresas, que levantam a bandeira da igualdade de gênero, mas pouco a praticam?
Não adianta a gente ficar falando das empresas. O discurso tem que ser focado em como nós mulheres podemos superar isso, sabendo dessa realidade. Existem várias boas iniciativas de empresas que estimulam e criam políticas para ter mais mulheres em assentos do conselho ou em cargos de liderança. É um caminho natural. O que eu vejo, realmente, é a iniciativa de mulheres cada vez mais olhando para si e buscando evoluir profissionalmente e pessoalmente. Foi isso que eu fiz. Olhei para mim. Em alguns momentos da minha vida, senti frio na barriga por isso. Mas isso trazia mais vontade de superar.

“Está claro que as pessoas estão entendendo o poder que elas têm na luta contra a intolerância. Isso é resultado da ascensão da geração millenial” (Crédito:John Moore/Getty Images/AFP)

Você acredita que a situação tende a melhorar para as mulheres nos próximos anos?
É importante dizer que, qualquer movimento para reduzir as disparidades, não acontece de um dia para o outro. Não vai mudar de repente. Existe um processo, uma dinâmica de mudança. Quando comecei a empreender, há duas décadas, não tinha nenhuma referência de outras mulheres empreendendo. Era tudo muito pulverizado. Entrei na Associação Comercial do Rio de Janeiro, na Firjan e depois fiz parte do Conselho de Jovens da instituição. Fui conquistando meu espaço.

Existem setores mais machistas e preconceituosos que outros no mercado de trabalho?
Historicamente, há muitas mulheres focadas na área de humanas. Fora isso, existe uma cultura da aversão ao risco nas empresas. Sem saber como as mulheres atuam em determinas áreas, empresas evitam correr riscos. A combinação desses dois fatores gera um número menor de mulheres em determinadas atividades, que muitas vezes não são áreas que, primeiramente, elas escolheram.

Lançar uma plataforma exclusiva para mulheres empreendedoras tem o objetivo de reverter esse quadro?
Sim. Será uma das formas de contribuir. Em 19 de novembro lancei um hub, o Ela Vence, que congrega mulheres empreendedoras, mulheres intraempreendedoras e mulheres que querem empreender. Um one stop shop onde há ferramentas, conhecimento, conteúdo e conexão. Quem precisar de investimento, poderá encontrar. Temos o objetivo de impactar 500 mil mulheres ao longo dos próximos 12 a 18 meses. Pode parecer um número muito ambicioso, mas não é. Hoje já temos, em uma ação que se chama Mães da Favela, em parceria com a Central Única das Favelas, 25 mil mulheres. Em um dos meus treinamentos virtuais impactei 230 mil pessoas em 30 dias. Trata-se de um número factível.

Os desafios são ainda maiores para as mulheres negras. Como é possível reduzir essa disparidade racial?
A representatividade das mulheres e das mulheres negras vem crescendo bastante. As eleições mostraram isso. Sem dúvida nenhuma, ainda que isso exista, vejo um movimento, uma disposição e uma força muito maior das mulheres no mundo dos negócios. A situação está mudando, para melhor.

A pandemia piorou o ambiente para as mulheres negras no mercado de trabalho?
Ainda é cedo para avaliar o impacto nesse sentido. O que eu vi no processo eleitoral é que ele inclui bastante a importância da representatividade. Na própria agenda dos partidos pode-se observar a inclusão de candidatos mais diversos. Isso não foi algo unilateral. Sem dúvida nenhuma, algumas mulheres estão liderando esse movimento de mudança. A Luiza Trajano apoiou uma iniciativa para trazer mais mulheres para a política.

O resultado das eleições expressou essa mudança?
As eleições foram uma resposta da sociedade. Fiquei muito feliz e satisfeita, como mulher e como empreendedora, com o resultado das eleições. É muito gratificante ver mulheres sendo protagonistas de suas próprias histórias. O momento é oportuno para pensar em mudanças.

O aumento da diversidade nas eleições municipais prenuncia o que veremos nas eleições daqui a dois anos?
Sem dúvida. Esses resultados das urnas serão os resultados das próximas eleições. Ninguém mais aguenta discurso imperialista. A gente não quer mais construir muros. Quer construir pontes. A sociedade percebeu que é como rios, e as pessoas só crescem porque se unem. É o que vejo hoje. É o que tenho visto. Essa ruptura de mentalidade vem acontecendo na sociedade, e entrando dentro das empresas. Cada vez mais, as empresas estão tentando se adaptar a essa nova realidade. Nesse tema da inclusão, ou as empresas se adaptam ou elas se adaptam.

O Brasil está mais atrasado nas ações afirmativas envolvendo mulheres e negros?
Meu sentimento é que o Brasil, onde 50% da população é negra, há muitos avanços. O que posso dizer é que temos criado um ambiente que está incluindo. As iniciativas estão acontecendo na mesma velocidade e na mesma proporção de outras nações desenvolvidas. Dentro do mercado de investimento e venture capital nossos números são bem semelhantes aos dos Estados Unidos e da Europa. Há um percentual de 5% a 7% de mulheres investidoras. Recentemente, fiz um curso de liderança feminina na Babson College, em Miami, e achei que chegaria lá e encontraria outros tipos de dores. Fiquei extremamente surpresa porque eu vi lá nos Estados Unidos as mesmas dores que a gente tem nas questões das mulheres e de cor da pele. Há problemas ligados à educação financeira. Há complexo de impostora, por achar que não pertence àquele lugar. Acontece aqui, acontece lá.

“Esses resultados das urnas serão os resultados das próximas eleições. Ninguém aguenta discurso imperialista. Não queremos mais construir muros” (Crédito:Divulgação)

A vitória de Joe Biden e Kamala Harris, a primeira mulher negra da história na vice-presidência dos EUA, vai influenciar o mundo nesas questões?
Sempre busco uma posição de neutralidade em assuntos políticos. O que posso dizer é que, independentemente do presidente A ou presidente B, está claro que as pessoas estão entendendo o poder que elas têm na luta contra a intolerância. Isso é resultado da ascensão da geração millenial. Essa geração não tolera mais uma série de coisas. As empresas e a sociedade não toleram mais discriminação. Ainda bem que não toleram, e que isso está acontecendo. No Brasil, até 2025, quase 70% da população será de millenials, com mentalidade mais inclusiva, com discursos muito mais ligados a propósitos.

Algumas empresas têm metas para aumentar o número de mulheres no comando. Por outro lado, há um desmonte de políticas públicas de redução da desigualdade por parte do governo. O setor empresarial tem como promover essa transformação nas questões raciais e de gênero?
Como empreendedora e investidora, decidi que se tivesse que esperar o setor público para ser protagonista da minha história, teria ficado pelo meio do caminho. Então, independentemente do governo, quanto mais a iniciativa privada puder chamar a responsabilidade para si, como vem acontecendo, melhor será. Cada vez mais a gente chama a atenção para que essa seja uma pauta unificada. Quando existe uma colaboração entre público e privado, é muito melhor.

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