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As criptos avançam na África

Governos do continente estudam seguir passos de El Salvador e adotar o bitcoin em lugar das moedas nacionais.

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Em um movimento ousado, Samia Suluhu Hassan está pretendendo seguir os passos de Nayib Bukele. Se você não faz ideia do que isso quer dizer, não se preocupe. Nenhum desses personagens tem muita importância além das fronteiras dos países que presidem. Samia Hassan é a presidente da Tanzânia, e Bukele lidera o Poder Executivo de El Salvador. No início de junho, o parlamento salvadorenho, cuja economia foi dolarizada em 2001, aprovou a toque de caixa uma proposta de adotar o bitcoin como moeda nacional. Agora, a Tanzânia estuda fazer o mesmo, assim como Quênia, Sudão do Sul e Zimbábue, outras nações africanas.

Apesar da distância geográfica que separa a África da América Central, alguns dos problemas que El Salvador busca resolver adotando a moeda virtual em sua economia também afetam países africanos. Em muitos deles, a inflação é um problema crônico. Nos demais países, cujas economias já eram fracas, a pandemia foi um golpe duríssimo. Não por acaso, zimbabuenses e tanzanianos com acesso a telefones celulares e um pouco de informação transferiram suas poupanças para o bitcoin. “Nesse cenário, a transição para uma economia baseada em criptoativos seria menos traumática do que em países desenvolvidos, como o Japão”, disse o colunista americano especializado em tecnologia Shelly Palmer, colaborador do portal Seeking Alpha.

Esse movimento vai na contramão de economias mais estruturadas, como a da China. No início de junho, o governo de Pequim provocou solavancos violentos nesse mercado ao proibir operações com bitcoin. A intenção das autoridades é substituir a criptomoeda independente por uma totalmente “made in China” e, claro, muito mais controlável. Do outro lado do Pacífico, as autoridades americanas têm tentado regular esse mercado. Em maio, Janet Yellen, ex-presidente do Banco Central americano e atual secretária do Tesouro, defendeu mudanças na legislação para permitir maior controle pelo Federal Reserve. Ao mesmo tempo, a Receita Federal americana tornou obrigatório informar qualquer negócio com valor acima de US$ 10 mil.

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“Tudo está migrando para o digital e com o dinheiro não vai ser diferente” Marco Castellari, CEO da Brasil Bitcoin.

VOLATIVIDADE Não por acaso, essa sucessão de notícias vem provocando sobressaltos, e acompanhar a montanha russa do mercado de bitcoin acabou virando um teste para a saúde cardíaca dos investidores. A criptomoeda começou o ano alcançando um recorde histórico de US$ 65 mil, às vésperas da estreia da plataforma Coinbase, nos Estados Unidos. Desde então o sobe e desce se acentuou, acompanhando investidores entusiasmados e governos com receio do avanço das moedas digitais. Ao longo desta semana, o abismo se aprofundou e a moeda chegou a ficar abaixo do “nível psicológico” de US$ 30 mil, zerando praticamente a valorização que tinha obtida no ano. Mesmo sendo conhecido pela volatilidade, o ativo testou toda a resistência do mercado, fechando cotada na quarta-feira (23) a US$ 34 mil.

Além das eventuais decisões dos governos, as declarações contraditórias do empresário Elon Musk contribuem para a volatilidade. O fundador da Tesla tem mudado radicalmente de opinião. Em um momento ele garante aceitar as criptomoedas em troca de seus carros elétricos. Depois recusa o bitcoin por ser antiecológico e consumir muita energia em sua mineração, para voltar atrás em seguida. Mesmo assim, para o CEO da exchange Brasil Bitcoin, Marco Castellari, as oscilações são normais em um mercado supervalorizado. “O movimento de correção é natural”, disse ele. Segundo Castellari, o fato de bancos centrais e países estarem estudando adoção das moedas digitais demonstra que esse é um negócio sério. “Tudo está migrando para o digital e com o dinheiro não vai ser diferente”.

Segundo Castellari, no curto e médio prazo, tanto o preço como o volume devem se acalmar. “Estava muito inflado e não deve voltar ao mesmo patamar”, afirmou. A Brasil Bitcoin chegou a movimentar US$ 150 milhões por mês, o que é um grande volume e não deve voltar a esse nível tão cedo. Mas no longo prazo isso deve ser revertido, na opinião do executivo, voltando a despertar o interesse dos investidores. “Só é preciso manter a calma.”