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Arte S.A.

Para Bianca Cutait, a brasileira que virou galerista e “art advidsor” em Miami, é imperativo profissionalizar o setor — que já movimenta mais de US$ 60 bilhões por ano no mundo

Crédito: Gabriel Reis

Do outro lado: Bianca diz que percebeu os erros das galerias que a representavam quando era fotógrafa: “Arte não é hobby” (Crédito: Gabriel Reis)

Os olhos da galerista brasileira Bianca Cutait brilham quando ela fala do mercado de arte chinês. Movimentando US$ 13,2 bilhões por ano, ele corresponde a 14% do total mundial, estimado em US$ 63,7 bilhões pelo mais recente relatório The Art Market. Não por acaso, são chineses dois dos artistas cujas obras estão entre as mais caras do mundo hoje: o pintor Zhang Daqian e o escultor Qi Baishi. Seus trabalhos já atingiram preços equivalentes aos do espanhol Pablo Picasso e dos impressionistas, que até pouco tempo eram recordistas no mercado de arte.

A preferência dos chineses pela arte local, somada ao constante crescimento econômico do país, com sua concentração inédita de endinheirados, ajuda a explicar essa efervescência. Para especialistas como Bianca, que é art advisor e galerista da Arte Fundamental, em Miami, há outro motivo: a profissionalização. Na China, é preciso diploma universitário para ter espaço no mercado de arte. “Esse é um requisito contemporâneo”, diz Roberto Bertani, coordenador de Artes Visuais da Universidade Belas Artes. “Hoje é muito difícil um artista se destacar sem ter a qualificação. As exceções são raras.”

Rubem Robierb: aos 42 anos, o artista nascido no Maranhão e cujo trabalho tem forte influência da pop art está entre os mais brasileiros valorizados do mercado (Crédito:Gio Morales)

Nessa nova leva de artistas com diploma se destacam ainda os chineses Aí Weiwei, Liu Bolin, Wang Haiyang e Xu Zhen. “Não é porque você tem o dom de pintar que é pintor”, diz Bianca Cutait. “Arte é muito estudo e dedicação, não é hobbie.” Justamente por levar a arte tão a sério que Bianca se consolidou como uma das profissionais mais respeitadas do mercado. “Eu já fui artista e já estive desse lado do ofício”, diz ela, que começou como fotógrafa. “Naquela época, percebi os erros das galerias que me representavam e comecei a anotar tudo o que estava dando errado. A transição para o outro lado foi algo natural.” Além do escritório Arte Fundamental em São Paulo, que se especializou em atender fundos de investimento que compram arte para diversificar o portfólio, desde 2017 Bianca mantém uma galeria de mesmo nome em Miami. Entre os 12 artistas que ela representa estão revelações como Rubem Robierb e veteranos como Claudio Tozzi, atualmente em cartaz nos EUA com a mostra “Hinc as Horam”.

RECORDE Segundo a galerista, os leilões de arte latina têm apresentado alta liquidez, alavancando muitos criadores, em especial, brasileiros e mexicanos. O quadro “Dois nus no bosque”, de Frida Kahlo (1907-1954), atingiu US$ 8 milhões (R$ 26,6 milhões) em um leilão na Christie’s em maio de 2016. Já a tela “Los Rivales” (Os Rivais), de Diego Rivera, foi arrematada por US$ 9,7 milhões na mesma Christie’s em maio do ano passado. Recentemente a obra “A Lua” (1928), de Tarsila do Amaral, ganhou os holofotes ao ser adquirida pelo MoMA, de Nova York, por US$ 20 milhões (R$ 75 milhões), a maior quantia já paga por uma obra de arte latino-americana. “Essa compra vai colocar a arte brasileira em evidência nos próximos anos”, diz Roberto Bertani. “As feiras que acontecem aqui, como a SP-Arte, por exemplo, têm sido de extrema importância para divulgar esse trabalho para o mercado internacional.”

Entre dois mundos: à esquerda, obra de Zhang Daqian, um dos mais cobiçados artistas chineses. À direita, o astronauta pop do brasileiro Claudio Tozzi (Crédito:Divulgação)

Apesar da alta nessa onda latina, Bianca procura não se restringir. Recentemente, ela expôs trabalhos do fotógrafo americano Steve McCurry, na mostra “Power of Empathy”. Ele ficou famoso pela imagem da “Menina Afegã”, capa da revista National Geographic em 1985. Mas a Arte Fundamental inovou ao exibir, pela primeira vez, tapeçarias com as imagens captadas por Steve. As peças demoraram, em média, 900 horas para serem confeccionadas. “Ainda existe preconceito para investir em arte”, diz Bianca. “As pessoas acham que é algo inatingível, mas não é.” Ela, aliás, comprou sua primeira obra aos 19 anos com o salário de estagiária. “Mas tanto para fazer arte quanto para investir é preciso buscar a profissionalização.”