Economia

Um país refém do passado

A piora da crise econômica ameaça a Argentina com o retorno de uma gestão intervencionista. E Maurício Macri vai para o tudo ou nada no combate à inflação

Crédito: Mario De Fina/NurPhoto

Indignados: repetindo os antigos panelaços, argentinos têm ido às ruas protestar. No Dia do Trabalhador, milhares foram à Plaza de Mayo (Crédito: Mario De Fina/NurPhoto)

Se em dezembro de 2015, ao ser empossado como presidente da Argentina, Maurício Macri pudesse ouvir a si mesmo hoje, provavelmente não se reconheceria. Eleito como o grande reformador liberal, com uma pauta de revisões para colocar a economia nos trilhos, ele agora utiliza artifícios semelhantes aos que tanto criticou na sua antecessora, a esquerdista Cristina Kirchner. Diante da inflação recorde, Macri anunciou o congelamento de preços até outubro, mês que marca a data das eleições.

Já há sinais de que a crise econômica moldará a disputa. Com os indicadores financeiros cada vez piores, a ex-presidente passou a liderar a corrida. Nem ela nem Macri, da coligação de partidos de direita Cambiemos, confirmaram as candidaturas, mas se as eleições acontecessem agora, ela teria 37,2% dos votos — e ele, 31,6%, segundo o instituto Synopsis Consultores.

A inflação argentina chegou aos 54,7% em março, no acumulado de 12 meses, o valor mais alto em 30 anos. Com a corrosão do poder de compra do consumidor, a imagem de Macri também começou a se desfazer. De acordo com pesquisa da consultoria Diagnóstico Político, 74% da população reprova o governo. O plano de Macri era realizar as reformas tributária e trabalhista, cortes de subsídios e a abertura comercial. Tentava reverter a penúria do Estado, que enfrentava o drama dos déficits gêmeos, tanto nas contas públicas como nas trocas com o exterior — um sinal de fragilidade econômica. As medida impopulares, porém, foram graduais. E, como 90% da dívida pública é fixada em dólares, a Argentina ficou exposta a variações do mercado internacional, como as de 2018. O valor da dívida chegou a US$ 250 bilhões, cinco vezes maior do que as reservas internacionais do país.

Saída à esquerda: a piora econômica abala a popularidade de Maurício Macri. Nas recentes pesquisas eleitorais, Cristina Kirchner já aparece à frente do atual presidente e Roberto Lavagna (à dir.) desponta como terceira via

A solução temporária foi procurar o Fundo Monetário Internacional (FMI), que emprestou US$ 57 bilhões, com a contrapartida de realizar reformas ainda mais duras, como juros altíssimos (agora em 73%) e cortes bem maiores nos gastos públicos. O resultado foi uma insatisfação popular que deságua nas intenções de voto. “Macri prometeu ser um grande reformador, mas acabou optando pelo caminho do gradualismo e falhou”, afirma Patricio Giusto, da consultoria Diagnóstico Político. “Agora, acaba fazendo populismo, aumentando os gastos sociais, a dívida e controlando o dólar e os preços.” Com a queda de Macri, ganhou força também o nome de Roberto Lavagna, ex-ministro das finanças dos governos Eduardo Duhalde e Néstor Kirchner — marido de Cristina. Ele hoje chega a 17,1% das intenções de voto, representando uma força considerável. Pode até não chegar a um segundo turno, mas seu eleitorado será decisivo em um momento de escolha entre os líderes.

Tentando evitar um desempenho desastroso em outubro, o governo atual já começou a procurar seus adversários para propor acordos que permitam uma melhor governabilidade diante da economia em frangalhos. A ideia é mostrar que os atores políticos estariam em um consenso sobre o futuro da Argentina, acalmando o mercado e investidores internacionais.

O tabelamento de preços e a aproximação com seus inimigos políticos, porém, não devem ser capazes de mudar a imagem do outrora reformista. “As medidas terão um impacto positivo mínimo para o público. Fora que a maioria dos preços foram discretamente aumentados imediatamente antes de serem congelados, o que significa pouquíssimo benefício para os consumidores”, afirma Mark Jones, especialista em América Latina pela universidade Rice, nos EUA. “O único aspecto positivo do congelamento de preços para Macri é que o ato demonstra aos eleitores que ele está ciente de que existe um problema.” No próprio governo, a coligação Cambiemos já estuda um nome alternativo ao do presidente. O mais forte seria o de Maria Eugênia Vidal, governadora da província de Buenos Aires, que abriga a capital homônima. Ela disse que só aceitará se o próprio Macri a convidar.

Tabelados: Maurício Macri decidiu congelar os preços da maior parte das mercadorias até outubro, data das eleições presidenciais. O total de indigentes atingiu 6,7% da população (Crédito:Stf (AFP) | Juan Mabromata (AFP))

NÍVEL DE POBREZA Os números da economia não param de piorar. O PIB deve ter a segunda retração seguida — a expectativa é de uma queda de 1,2% — e a moeda segue perdendo valor. O banco central vem fazendo intervenções para evitar uma desvalorização maior do que os 19% já acumulados. A inflação deve encerrar o ano acima de 40%. Basta olhar com mais profundidade os dados sociais para entender o impacto sobre a popularidade de Macri. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec) mostrou que até o fim de 2018, 32% da população do país vivia abaixo da linha da pobreza. Ou seja, um terço dos 43 milhões de argentinos sobrevive com menos de US$ 1,90 por dia. O número de indigentes, pessoas que não tem nem onde morar, chegou a 6,7%. São os maiores patamares desde o colapso da economia argentina em 2001.

A população tem reagido com protestos constantes, organizados por sindicatos e grupos tradicionais do país, como o das Mães da Plaza de Mayo, geralmente diante da Casa Rosada, sede do governo federal. Os grupos pedem o fim das medidas de austeridade trazidas por Macri, mas não são naturalmente aliados de Cristina Kirchner, já que muitos culpam a classe política como um todo pelos problemas.

Para piorar a imagem de Macri, o governo argentino vem adotando medidas adicionais para tentar reverter a situação fiscal. A mais recente foi o aumento de uma taxa burocrática cobrada nas importações. O incremento aumentará o contágio da crise vizinha sobre o Brasil. As exportações brasileiras de veículos no primeiro trimestre caíram 45% e tiveram um impacto sobre a produção local. Os argentinos respondem por cerca de 80% das compras externas das montadoras. A indústria levou ao Itamaraty uma reclamação a respeito da taxa adicional criada pelos vizinhos. A medida também foi alvo de críticas internas, por parte dos importadores e de produtores que compram insumos importados. Embora gere receitas para o governo, o resultado pode ser um incremento maior no avanço dos preços. Trata-se de um processo que parece fugir do controle do governo e pode levar a um resultado populista e desalentador nas urnas em outubro.