Economia

Argentina não paga as contas

Governo Macri posterga pagamentos para parte de seus credores e ameaça um novo calote no FMI

Crédito: Juan Mabromata / AFP

Sem dinheiro: negociações com o FMI podem determinar o futuro de Macri nas eleições de outubro (Crédito: Juan Mabromata / AFP)

A Argentina conseguiu uma façanha ao longo dos últimos anos: criar uma nova expressão nos livros de economia. O termo serial defaulter (caloteiro em série, em português claro) passou a ser empregado especificamente para se falar do país vizinho, que já promoveu pelo menos oito grandes moratórias em seus credores ao longo de sua história. Nessa semana, o governo do presidente Mauricio Macri se encarregou de escrever mais um capítulo nessas obras.

Na noite da quarta-feira 28, o recém-empossado Ministro da Economia, Hernán Lacunza, anunciou uma tungada nos credores institucionais, como bancos e seguradoras, que detêm cerca de 10% da dívida do país. Não houve redução no total dos débitos nem das taxas de juros, mas sim uma prorrogação nas datas em que o governo argentino fará os pagamentos — uma espécie de mini-moratória em suaves parcelas. Segundo o presidente do Banco Central do país vizinho, Guido Sandleris, a ideia é reduzir as pressões sobre as reservas, permitindo que elas sejam usadas na tentativa de evitar a desvalorização da moeda local. “As decisões priorizam o uso das reservas internacionais para preservar a estabilidade monetária e financeira, ainda que isso implique em postergar os pagamentos aos grandes investidores da dívida pública”, afirmou.

No mesmo evento, Lacunza aproveitou para falar grosso com o principal credor do país, o Fundo Monetário Internacional (FMI). O ministro pediu à instituição que aceite rever os prazos de pagamento do empréstimo de US$ 56 bilhões feito no ano passado. O acordo previa que a Argentina começasse a pagar as parcelas em 2021. Haverá uma reunião com representantes do FMI nas próximas semanas para discutir a revisão. O termo default não foi mencionado, mas nem era necessário: dado tanto o histórico do país quanto as atuais dificuldades da economia argentina, a ameaça é óbvia. O FMI se limitou a dizer que está “analisando e avaliando” a proposta do governo.

A nova iniciativa de Macri faz parte de um pacote econômico de medidas nada liberais tomadas pelo governo após a derrota sofrida pela chapa governista nas prévias das eleições presidenciais, no início do mês. A aliança do atual presidente ficou com apenas 32% dos votos, contra os 47% atingidos pela chapa formada pelo peronista Alberto Fernández junto com a ex-presidente Cristina Kirchner.

O resultado jogou para a dupla kirchnerista o favoritismo do pleito definitivo, marcado para o final de outubro, e levou pânico aos mercados financeiros. O principal índice da bolsa de Buenos Aires, o Merval, caiu 50% em poucos dias. No mesmo período, os indicadores que medem o risco-país triplicaram.

INTERVENCIONISMO Na tentativa de retomar o protagonismo e ganhar fôlego na disputa eleitoral, Macri pisou fundo na rota do intervencionismo estatal como tentativa de diluir os efeitos da crise econômica. Anunciou um congelamento de 90 dias no preço dos combustíveis — suspenso pouco depois por “queixa das empresas petrolíferas”, segundo sua secretaria de Energia —, aumento de 25% no salário mínimo local e em bolsas voltadas para estudantes e para a população mais pobre. Na esteira, veio ainda uma redução de impostos para pequenas e médias empresas e para os trabalhadores com menor renda.

O populismo econômico parece pouco para enfrentar o problema mais urgente da Argentina hoje, que é cambial. Enquanto a moeda local derrete — são necessários 55 pesos para comprar um dólar — as reservas do país estão no patamar US$ 60 bilhões, insuficientes para fazer frente à rápida fuga de investimentos. A desvalorização se reflete no disparada da inflação — beirando os 60% no acumulado dos últimos 12 meses — e na perda do poder de compra da população.

O pacotão também acabou resultando em troca no comando da economia. Nicolás Dujovne, o antigo titular, se opôs às medidas e foi trocado por Lacunza, ex-secretário econômico da Província de Buenos Aires. Dujovne, um liberal tradicional, havia liderado as negociações que levaram o FMI ao empréstimo bilionário do ano passado. Lacunza, ao assumir, havia afirmado que um dos seus objetivos era cumprir os prazos acertados com a autoridade monetária — e se viu em meio a mais uma ameaça de calote, um episódio que, tal qual um tango triste, já faz parte da rotina do país vizinho.