Negócios

Apetite insaciável

Ao adquirir mais uma fatia da BRF, Marfrig amplia para 31,6% sua participação no controle acionário da gigante de aves e suínos. Fusão completa ainda gera dúvidas.

Crédito: Istock

A Marfrig surpreendeu o mercado de proteína animal em maio ao anunciar a compra do correspondente a 24,2% das ações da concorrente BRF, por meio de oferta hostil – sem negociação entre as empresas, por meio da aquisição de ações pulverizadas na bolsa. O movimento a transformou na maior acionista da companhia detentora das marcas Sadia e Perdigão e levantou especulações sobre uma possível fusão. O discurso ganhou mais força na quinta-feira (3) quando, por meio de fato relevante, a Marfrig divulgou o aumento, para 31,6%, da participação no controle acionário da rival. A iniciativa aproxima a produtora de carne bovina da cláusula de poison pill, limite estabelecido no estatuto para acionistas minoritários da maior companhia de frangos e suínos do Brasil, e amplia o suspense sobre o possível desfecho do negócio.

O poison pill determina que qualquer acionista que se tornar titular de 33,3% das ações da BRF terá de divulgar o fato e lançar, em até 30 dias contados a partir da aquisição mais recente, uma oferta pública de ações (OPA) para todos os demais acionistas. O preço da OPA embutiria prêmio de 40% sobre a média de preços das ações da BRF nos 120 dias anteriores e também nos 30 dias anteriores. No caso da empresa, as regras de poison pill foram afrouxadas em 2016 com a mudança de 20% para 33,3% do porcentual, o que ampliou a capacidade de aquisição de ações por um investidor.

FATIA MAIOR A Marfrig, de Marcos Molina, reafirma o desejo de apenas diversificar os investimentos no setor. Possíveis mudanças na diretoria da BRF devem aguardar até 2022. (Crédito:Silvia Costanti)

Apesar de expandir sua participação acionária na BRF, a empresa comandada pelo chairman Marcos Molina reiterou que, com a compra de ações, a Marfrig visa apenas diversificar os investimentos no setor de proteína. A posição reafirmada pela Marfrig, porém, não convence Sidney Lima, especialista por operações estruturadas em mercado de opções e commodities da Top Gain. “Ninguém investe tanto (o montante envolvido supera os US$ 830 milhões) em uma empresa e deixa que as outras pessoas façam a gestão de uma forma que você não vai ter o controle.”

Lima lembra que a Marfrig mantém o posicionamento de dizer que não pretende eleger membros para o Conselho. “Entretanto, já é a maior acionista”, disse. Os demais grandes shareholders estão abaixo dos 10% de participação. O especialista acredita, porém, que mudanças na diretoria ou no Conselho só deverão ser anunciadas ao fim do mandato da diretoria da BRF, em 2022.

Se por um lado a fusão entre as companhias é vista com bons olhos, diante da complementariedade dos portfólios, por outro a diferença de gestão deve ser o maior empecilho. “A Marfrig é mais jovem e ousada, enquanto a BRF, centenária, é mais tradicional”, afirmou. “Já a sinergia no quesito financeiro é boa.” Em 2020, a soma das receitas líquidas é de R$ 106,9 bilhões, com lucro líquido de R$ 4,7 bilhões. No mesmo período, a JBS, líder global em produção bovina, teve faturamento líquido de R$ 270,2 bilhões e lucro de R$ 4,6 bilhões. E será aqui o próximo round.