Tecnologia

Ao infinito… e além

China dá passo decisivo para ter sua própria estação espacial, já que não pode entrar na dos outros.

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Era uma vez um país que quis a Crimeia. Levou 160 anos e foi lá pegar. Era uma vez outro país. Este quis o espaço. Não deixaram. Agora ele está indo pegar. E deve levar apenas mais dois anos. Prazo para a entrada em operação da estação espacial chinesa. O projeto deu um de seus saltos mais decisivos este mês. Na primeira terça-feira de maio, o foguete Long March 5B (foto à esquerda) fez o voo inaugural a partir da cidade de Wenchang. O gigante branco de 18 andares decorado com a bandeira vermelha é capaz de transportar 22 toneladas em equipamentos, e será especialmente usado para carregar os módulos da futura estação espacial.

O marco foi comemorado inclusive, ou principalmente, pelo Comitê Central do Partido Comunista, que saudou o lançamento do 5B como “um bom começo para a estação espacial do país”, segundo a agência de notícias oficial Xinhua. O programa aeroespacial tripulado de Pequim nasceu em 1992 e foi previsto com três etapas. A primeira foi enviar um astronauta ao espaço e trazê-lo de volta em segurança – o taikonauta Yang Liwei cumpriu o papel em 2003. A etapa seguinte foi desenvolver técnicas e tecnologias para atividades extra veiculares e de ancoragem orbital. Entre 2011 e 2018 o país operou uma estação não tripulada: missão cumprida. Agora vem a fase derradeira. A estação espacial, que receberá tripulação permanente.

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Programada para operar a uma altitude de 340km a 450km, por pelo menos dez anos, a Tiangong, que significa Palácio Celestial, poderá acomodar três astronautas em circunstâncias normais e até seis durante a substituição da tripulação. “Cada um dos módulos terá mais de 20 toneladas, com a massa total em torno de 66 toneladas”, disse à Xinhua o designer-chefe do programa espacial tripulado da China, Zhou Jianping.

Se os laboratórios espaciais anteriores do país, o Tiangong-1 e Tiangong-2, são como apartamentos de um quarto, a nova estação espacial será equivalente a um imóvel de três dormitórios, sala de estar e sala de jantar. Oficialmente, as instalações científicas projetadas poderão atender centenas de projetos em áreas como astronomia, ciências da vida espacial, biotecnologia, microgravidade, física básica e materiais espaciais. Haverá pelo menos uma dúzia de racks, cada um funcionando como laboratório.

“Abrir as portas de sua estação espacial a pesquisas de quaquer nação do mundo foi um gesto de alto nível da China e dará ao país influência e poder” Namrata Goswani Analista de Assuntos de Defesa.

A própria seleção de astronautas passará por transformação. Antes, os taikonautas chineses eram escolhidos entre os pilotos da Força Aérea. Agora será preciso escalar engenheiros e cientistas, numa prova de que o uso da amplitude de uso da estação. Yang Liwei, o primeiro homem do país no espaço e vice-chefe de design do programa espacial tripulado, disse que “o próximo grupo virá de setores industriais, centros de pesquisa e universidades relevantes”.

Esse imóvel espacial chinês já se tornou mais um imbróglio geopolítico. Por dois motivos. Desde 2011, o congresso americano proibiu parcerias entre a China e projetos espaciais que envolvam os Estados Unidos. As justificativas são as de sempre: “razões de segurança nacional”. Isso significa que nenhum cosmonauta chinês pode visitar a ISS (Estação Espacial Internacional, foto acima). Formada por um consórcio de 15 países – Estados Unidos, Rússia, Canadá, Japão e 11 europeus – a ISS já recebeu 240 visitantes de 19 nações, incluindo um brasileiro. Está em operação desde 1998 e deve funcionar até 2024 – qualquer extensão de prazo dependerá de aportes bilionários, e improváveis. Construir endereços no espaço tem dessas. Um dia eles ‘somem’. E aí vem o segundo motivo desse nó geopolítico. Com a estação asiática funcionando, a partir de 2022, o mundo pode passar um período longo em que apenas os chineses terão uma casa para chamar de sua lá dos céus.

O país asiático, com relação a isso, deu um tapa na cara do planeta – com luva de pelo de urso panda. Em 2016, a Missão Permanente da China na ONU e o escritório para assuntos espaciais da organização (Unoosa) assinaram um memorando, aberto a qualquer país membro, para realizar pesquisas na estação espacial. Em 2018, isso se tornou uma convocação de projetos. No ano passado, nove deles, saídos de 23 instituições de 17 países, foram aceitos. Tem da Índia, do Peru, do México… Brasileiro, nenhum. Sobre a posição chinesa, a analista independente especialista em assuntos de defesa Namrata Goswani escreveu um artigo para o think tank The Diplomat. Ela disse que a estação será uma poderosa ferramenta diplomática dos chineses. E abrir suas portas a pesquisas de qualquer país do mundo foi “um gesto de alto nível que dá ao país influência e poder”. Poder celestial.