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American Airlines reforça sua aposta no Brasil

Prestes a entrar em vigor, o acordo de Céus Abertos entre o Brasil e os Estados Unidos coloca o mercado local no mapa estratégico da companhia aérea americana. O presidente mundial da empresa explica todos os detalhes

Não eram nada animadoras as perspectivas no horizonte da American Airlines no fim de 2011. Com US$ 29,6 bilhões em dívidas e prejuízos consecutivos na bagagem, a companhia pediu proteção contra falência em novembro daquele ano, na tentativa de encontrar uma via para reerguer sua operação. A saída veio em 2013, a partir da fusão com a US Airways. Desde então, a empresa saiu de um prejuízo de US$ 1,83 bilhão para um lucro líquido de US$ 1,91 bilhão, em 2017, e ocupa, atualmente, o posto de maior grupo global do setor de aviação, com uma receita operacional de US$ 42 bilhões e uma frota de 1,5 mil aeronaves, que transportou, apenas no ano passado, 209 milhões de passageiros. Agora, a empresa prepara-se para um novo ciclo de crescimento e o mercado brasileiro tem tudo para se tornar o próximo roteiro da expansão da gigante americana.

O contexto que coloca o Brasil definitivamente no mapa da American Airlines é a iminente entrada em vigor do acordo de Céus Abertos entre o País e os Estados Unidos. Já aprovado no Congresso, o texto aguarda a sanção do presidente Michel Temer. O documento acaba com o limite de voos entre os dois países, hoje fixado em 301 frequências semanais, e permite a criação de rotas entre os dois destinos, sem restrições. A ratificação do projeto é um pré-requisito para que a American Airlines tenha a aprovação do Departamento de Transporte dos Estados Unidos para o acordo comercial com a Latam.

Anunciada em 2016, a parceria envolve o compartilhamento da malha aérea das duas empresas, bem como a divisão de custos e de receitas. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) já deu o sinal verde para a operação. “Queremos expandir nossa presença no Brasil”, diz Robert Isom, presidente mundial da American Airlines, que aterrissou no Brasil no início de junho e concedeu uma entrevista exclusiva à DINHEIRO. “A parceria é essencial para ampliarmos nossa rede no País, algo que não conseguiríamos fazer sozinhos.”

Nova dimensão: projeto em 3D do hangar que a aérea está construindo em Guarulhos (SP) (Crédito:Divulgação)

American Airlines e Latam foram as principais defensoras do Céus Abertos. A dupla alega que acordos similares em outros países estimularam a competição, a ampliação da oferta de voos e o barateamento dos serviços. Uma estimativa da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) mostra que a iniciativa pode aumentar o fluxo de passageiros em rotas internacionais de e para o Brasil em até 47%. Boa parte do setor concorda, inicialmente, com esses argumentos. “É preciso ter mecanismos de regulação para equilibrar a competição entre as aéreas brasileiras e americanas. Mas não proibição. O fechamento do mercado acaba premiando a ineficiência”, diz Francisco Lyra, sócio da consultoria CFly Aviation. Para Gianfranco Beting, especialista em aviação, o Brasil ainda tem muito potencial de expansão, acima da média de outros países. Esse cenário, aliado ao contexto iminente de livre mercado, é o que justifica o foco da American Airlines. “Eles são tremendos competidores”, afirma Beting. “E sempre deixam claro que não entram em um mercado para serem o segundo colocado.”

A previsão é de que a operação conjunta com a Latam comece a ser implantada entre o fim deste ano e o começo de 2019. Hoje, as duas empresas possuem um acordo de code share, no qual uma companhia pode transportar passageiros cujos bilhetes tenham sido emitidos por outra aérea. O novo modelo a ser implementado não é um caso restrito ao Brasil. A American Airlines tem parcerias nesse formato na Europa, com a britânica British Airways, com a espanhola Iberia e com a finlandesa Finnair. “É um modelo que permite uma relação mais profunda, de cooperação, para compartilhar redes, trabalhar preços, adicionar frequências e impulsionar as receitas”, diz Isom, que não revela quais novos destinos podem ser, a princípio, adicionados na esteira desse processo.

Atualmente, a American Airlines opera 73 voos semanais para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Manaus. Essas rotas partem ou têm como destino Nova York, Miami, Los Angeles e Dallas. Já a Latam tem 53 frequências por semana, incluindo a recém-inaugurada rota São Paulo/Las Vegas. As opções de combinação das duas redes são amplas. A companhia americana conta com nove hubs nos Estados Unidos, que podem ser usados como acesso para qualquer local do país pela Latam. Esta, por sua vez, tem hubs em São Paulo, Brasília, Santiago, Lima e Bogotá como porta de entrada no Brasil e na América do Sul.

Enquanto aguarda a formalização da parceria, a American Airlines reforça sua base no Brasil. A empresa anunciou um investimento de US$ 100 milhões na construção de um hangar no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, em uma área de aproximadamente 36 mil m2. Primeira estrutura desse porte da companhia fora dos Estados Unidos, o local será usado para a manutenção de aeronaves e tem previsão de início de operação no segundo semestre deste ano. Pelo contrato com a GRU Airport, operadora do aeroporto, a empresa terá direito de explorar o espaço até 2056. “Eles estão olhando para frente, apostando no crescimento do mercado e na possibilidade de o Brasil ser uma base de manutenção na região”, diz Respício do Espírito Santo, professor de Transporte Aéreo da UFRJ. Entre outros aportes nos últimos anos, a empresa destinou US$ 9 milhões para inaugurar suas salas VIP nos aeroportos de Guarulhos e do Galeão (RJ).

A relação com o País se estende à parceria com a Embraer. A American Airlines opera mais de 300 aeronaves da fabricante. O último pedido, em maio, envolveu 15 aviões E1175, no valor de US$ 705 milhões. Desde 2013, a empresa já encomendou 89 unidades desse modelo. As compras integram a estratégia de renovação da frota da companhia, em busca de opções mais econômicas e que exigem menos custo de manutenção. A aérea investiu US$ 4,1 bilhões nessa frente em 2017. “Nos últimos três anos, compramos uma aeronave a cada quatro dias”, diz Isom. As ofertas segmentadas são outra prioridade. No ano passado, por exemplo, a American Airlines passou a oferecer os formatos Basic Economy, para competir com rivais ultra low-cost, e Premium Economy, que oferece recursos como assentos mais amplos e refeições diferenciadas.

Essas e outras ações buscam gerar receitas adicionais e minimizar os efeitos da elevação nos preços do petróleo. Com uma participação média de 20% nos gastos totais, o combustível é a segunda maior despesa da American Airlines. A alta de 50% observada no valor do produto no primeiro trimestre foi o principal fator por trás da queda de 45,2% no lucro líquido da empresa no período. “Felizmente, temos uma série de iniciativas em curso para lidar com essas variáveis”, diz Isom, confiante de que as turbulências da gigante americana ficaram no passado.


“Estamos posicionados para expandir nossa presença no País”

Robert Isom, presidente mundial da American Airlines

A American Airlines pediu falência no fim de 2011. Sete anos depois, a empresa vive um momento bem diferente. O que mudou de lá para cá?
Investimos boa parte dos nossos esforços, nos últimos anos, para ter certeza de que sabíamos quem éramos. Somos globais. O grande ativo que trazemos à mesa é, certamente, nossa ampla rede. Nós maximizamos nossas oportunidades de conexão para alcançar mais pessoas. E tivemos como foco identificar e desenvolver ofertas segmentadas para cada perfil de cliente. Hoje, a American Airlines é muito diferente. Passamos de uma companhia que nunca fazia dinheiro para uma empresa lucrativa, capaz de renovar sua frota com 500 aeronaves e de investir bilhões de dólares em novos produtos.

Como o Brasil se encaixa nesse cenário?
O País é extremamente importante para os nossos negócios. Há quatro, cinco anos, entendemos que era preciso fortalecer nossa estrutura no Brasil. Hoje, estamos fazendo um investimento de US$ 100 milhões, temos uma grande base de operações no País, com quase 600 funcionários e muito conhecimento do mercado local, o que nos diferencia de nossos concorrentes americanos.

Quais são as perspectivas com a iminente aprovação do acordo de Céus Abertos?
Ele vai nos permitir planejar, adicionar frequências e alocar recursos rapidamente para atender às demandas, especialmente porque abre caminho para a aprovação do nosso acordo comercial com a Latam. Estamos na expectativa. Se esse cenário se confirmar, assim como a mudança da economia brasileira para um viés positivo, estamos totalmente posicionados para expandir nossa presença no País.