Negócios

Ambiciosos planos na bagagem

Mesmo longe da capacidade total de produção e vendas no País, as marcas Jaguar e Land Rover mantêm planos locais e querem brigar pela ponta no mercado de carros elétricos

Crédito: Claudio Gatti

Pé no acelerador: Frédéric Drouin, CEO da Jaguar Land Rover para América Latina, aposta no potencial do Brasil para o mercado de luxo (Crédito: Claudio Gatti)

Em fevereiro do ano passado, o franco-suíço Frédéric Drouin, 53 anos, levava uma vida tranquila como presidente da Peugeot na Suíça quando foi convidado para presidir a Jaguar Land Rover, marcas inglesas que pertencem à indiana Tata Motors, na América Latina. O executivo não hesitou em aceitar o convite para morar no Brasil. “As pessoas me perguntavam se eu estava louco de deixar a Suíça, mas sou apaixonado pelo Brasil”, diz Drouin, que está em sua terceira passagem pelo País – a última foi como presidente da Peugeot, entre 2012 e 2014. O desafio de Drouin agora é acompanhar o ciclo de mudança da Jaguar Land Rover, que trilha um caminho próspero após a inauguração da primeira fábrica no Brasil. Localizada em Itatiaia (RJ), a unidade recebeu R$ 750 milhões em investimentos com a projeção de produzir 24 mil unidades por ano. Em 2017, contudo, apenas 4.750 carros foram montados no local. “Nós podemos fabricar e produzir mais, mas isso vai depender da evolução do mercado nacional nos próximos anos”, afirma.

Mesmo produzindo cerca de um quinto de sua capacidade, a operação local deu fôlego à empresa, que registrou um avanço de 3,4% no número de unidades emplacadas em 2017 – diante de um mercado com queda de 0,1% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa). “Enfrentamos fenômenos cíclicos que têm um determinado tempo para acabar. Foi uma crise longa, mas começamos a retomar o crescimento em 2017”, diz Drouin. No primeiro semestre deste ano, a Jaguar Land Rover emplacou 4.357 veículos, alta de 22,2% ante o mesmo período do ano anterior.

Aposta local: a fábrica da Land Rover em Itatiaia (RJ) recebeu um aporte de R$ 750 milhões e é a única da montadora na América Latina

Se levar em consideração apenas os modelos da bandeira Land Rover, importados e produzidos no País, a evolução é ainda mais visível: 30,3% no período. “A Jaguar Land Rover vem desempenhando um bom papel desde o começo da operação de sua fábrica no Brasil”, afirma Milad Kalume Neto, consultor automotivo da Jato Dynamics. Os números da empresa, no entanto, estão abaixo do registrado pelo mercado premium, que acumulou alta de 34,1% no primeiro semestre deste ano. Para continuar crescendo, a Jaguar Land Rover deve lançar oito modelos em 2018. No fim de julho, a empresa disponibilizou 25 unidades, sob encomenda, do Evoque Autobiography para o Brasil, uma versão luxuosa com valor estimado em R$ 305 mil.

No entanto, a principal aposta da empresa para este ano é o Jaguar I-Pace, primeiro SUV 100% elétrico da companhia. O modelo foi produzido na Áustria e deve chegar ao Brasil até o fim de 2018. “Nós não somente vamos trazer carros elétricos, como o Jaguar I-Pace, mas também carros híbridos, inclusive para a Land Rover”, diz Drouin. O lançamento é considerado um marco para a empresa que, a partir de 2020, só lançará veículos híbridos ou 100% elétricos na Europa. Ainda não se sabe, porém, o papel que a fábrica de Itatiaia desempenhará nessa virada. Para competir com a Tesla, especializada na produção e venda de modelos elétricos, a Jaguar revelou, no último Tech Fest promovido pela empresa em setembro passado, um plano de futuro a ser desenvolvido entre 2018 e 2040. O I-Pace, primeiro carro não poluente da empresa, ditará essa mudança. Depois virão as versões E-Type Zero, carro elétrico baseado no modelo clássico E-Type, porém mais leve e mais rápido que o original, e o Future-Type, que será 100% autônomo e conectado a outros modelos – conceito que marca deseja para 2040.

A empresa ainda avalia como o programa Rota 2030, aprovado pelo governo no início de julho, que substituirá o Inovar-Auto, vai alterar a operação no País. A fábrica foi montada para atender as exigências de conteúdo local, por isso os carros produzidos no Brasil não são exportados. “A primeira coisa positiva desse programa é que, como o nome indica, é uma proposta de longo prazo”, afirma Drouin. Para manter incentivos fiscais, as montadoras agora precisarão seguir regras básicas em busca de melhoria de eficiência energética e segurança, sob pena de multas de até 20% da receita com vendas. Para receber cerca de R$ 1,5 bilhão de incentivos ao ano, as empresas que fizerem parte do Rota 2030 deverão investir ao menos R$ 5 bilhões em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Com isso, a proposta do governo é estabelecer um incremento de até 11% em eficiência energética, além de novos equipamentos em segurança e redução do IPI para veículos híbridos e elétricos. Trazer parte desse desenvolvimento para o Brasil é um dos caminhos que a Jaguar Land Rover deve seguir para manter a evolução das vendas no mercado nacional.