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Amazon mira a Netshoes

Com a aposta na venda de produtos de moda e esportes, empresa de Jeff Bezos quer abocanhar parte dos R$ 4,8 bilhões que o segmento fatura por ano no Brasil

Crédito: Mario Tama/Getty Images/AFP

De olho no Brasil: CEO da Amazon, Jeff Bezos, redobra esforços para a operação brasileira da empresa (Crédito: Mario Tama/Getty Images/AFP)

A Amazon praticamente jogou parada no mercado brasileiro. Mas, desde o ano passado, a companhia começou a ser mover. Além da venda de livros, ela investiu na área de eletroeletrônicos por meio de um marketplace, modelo no qual outras lojas ou marcas utilizam como vitrine para ofertas seus produtos. Na sequência, entrou em papelaria e utensílios domésticos. Na quarta-feira 22, a empresa comandada por Jeff Bezos fez uma nova aposta no Brasil, ao anunciar que vai atuar na área de moda e esporte, um mercado que movimenta R$ 4,8 bilhões, segundo dados da Ebit/Nielsen. “Nós mapeamos quais eram as marcas favoritas e mais desejadas dos nossos clientes locais”, afirma Otávio Alves, gerente-geral da Amazon Moda para o Brasil. “Temos desde a parte que chamamos de high fashion, com estilistas importantes, até marcas internacionais e brasileiras.”

A nova aposta adiciona 350 mil itens ao catálogo da empresa no País – hoje, 15 milhões de produtos são oferecidos no site. Para desbravar esse novo mercado, a Amazon terá que desbancar a Netshoes, líder em vendas virtuais de vestuário, com 35,6% de presença de mercado (confira quadro abaixo). Apesar de focada em esportes, a empresa fundada pelo empresário Márcio Kumruian também vende itens de moda. Além disso, é dona da loja online de roupas Zattini. É um momento adequado para Bezos fazer o seu ataque. A companhia brasileira, com ações negociadas na bolsa de Nova York (Nyse), passa por um momento conturbado. Desde o início do ano, suas ações acumulam queda de quase 80%, por conta dos maus resultados financeiros.

Com o movimento, a Amazon acena também para um mercado estratégico. Segundo informações da Ebit/Nielsen, a categoria de moda e acessórios é a maior em volume de vendas pela internet no Brasil, com 14,2% do mercado total – o segmento, no entanto, aparece apenas no sexto lugar em faturamento. Juntas, as categorias de moda e de esporte representam 20,6% dos pedidos de compras online, e 10,1% em volume de vendas. “A categoria de moda e acessórios vem ficando há mais de três anos como líder em volume de pedidos”, diz Pedro Guasti, consultor de negócios da Ebit/Nielsen.

Nova aposta: Otávio Alves, gerente-geral da Amazon Moda para o Brasil, tem 38 anos e passagem pela sede da empresa em Luxemburgo (Crédito:Gabriel Reis)

Nos Estados Unidos, analistas estimam que a Amazon Fashion registrou uma receita bruta de US$ 15 bilhões em 2017, com forte desenvolvimento de marcas próprias, como Paris Sunday, Lark & Ro e Ella Moon. Por enquanto, esse investimento está fora dos planos para o Brasil. Outras estratégias que fortalecem a musculatura da Amazon nos Estados Unidos também não chegarão ao Brasil. Uma delas é o Amazon Prime, em que os membros pagam uma taxa anual fixa para obter benefícios como entrega grátis e acesso às plataformas sob demanda da empresa. Outra é o serviço chamado Prime Wardrobe, no qual o consumidor pode escolher e receber diversas peças do segmento de vestuário, decidindo, somente após sete dias, quais delas gostaria de comprar, e devolvendo os produtos restantes à empresa.

Enquanto essa inovação não chega ao País, a empresa se apoia em uma grande oferta de produtos. Das centenas de lojas e marcas que começaram a vender no marketplace da Amazon desde a semana passada, 25 ainda não operavam por esse modelo, como a grife de moda masculina Vila Romana e a Dani Cury, especializada em sapatos artesanais. O portfólio ainda conta com marcas conhecidas do grande público como Levi’s, New Balance, Havaianas, Reserva, Puma e Nike. “A Amazon demorou a investir no Brasil porque estava entendendo como funcionava o mercado”, diz Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores. “Mas eles não vêm para ‘brincar’. Entendo que a Amazon entra para brigar nesse mercado tanto com a Netshoes como com a Dafiti.”

Apesar de a empresa de Bezos ter fama de destruir a concorrência nos mercados onde atua, a sua empreitada no mercado brasileiro não será uma missão das mais fáceis. “A Amazon ainda não possui a relevância que tem em mercados mais desenvolvidos”, diz Alexandre van Beeck, sócio-diretor da GS&Consult. Mas sem muito barulho, a companhia vai avançando. Recentemente, a Amazon expandiu seu espaço de logística, com um novo galpão na cidade paulista de Cajamar. Além disso, um documento assinado em fevereiro, registrado na Junta Comercial de São Paulo, mostra que as empresas controladoras da Amazon no Brasil repassaram R$ 97,5 milhões à filial por meio de contratos de câmbio. A empresa estaria também negociando com a indústria para começar a vender eletrônicos diretamente e não mais apenas pelo modelo de marketplace. Devagar, Bezos vai crescendo no Brasil.