Amazon e os bancos: exuberância e apatia irracionais?

Amazon e os bancos: exuberância e apatia irracionais?

No mundo de hoje, a Amazon vale um trilhão e meio de dólares. Enquanto isso, a somatória do valor de mercado dos quatro maiores bancos americanos – JP Morgan, Bank of America, Citibank e Wells Fargo – é menos da metade desse valor, cerca de US$ 700 bilhões.

Em janeiro, escrevi aqui no blog sobre a minha admiração pela Amazon. De fato, é uma empresa que se reinventa constantemente desde a sua criação, sempre olhando para o cliente. Não dá para subestimar uma organização que criou o marketplace, o Amazon Prime e o AWS. Esse posicionamento sempre um passo à frente da necessidade do cliente tem valor, e isso precisa se refletir no preço de mercado da ação. Quando escrevi em janeiro, AMZN negociava a um múltiplo de 80 vezes lucro. Hoje, esse múltiplo é de 150 vezes – e tem gente muito boa por aí dizendo que pode chegar a 170. Enquanto isso, o JP Morgan – a melhor franquia entre as instituições financeiras americanas, na minha opinião – vale 30% menos hoje do que valia ao final do ano passado.

Explicações não faltam para a ausência de ânimo do mercado com o setor financeiro: altamente regulado, exposto a risco de crédito e com margens comprimidas em função das baixas taxas de juros. Na minha visão, porém, a exuberância que o mercado atribui à AMZN é tão irracional quanto a apatia que deprime o JPM.

Não há dúvida de que o Covid-19 mostrou como nos tornamos dependentes de plataformas como a Amazon. Segundo o site Statista, uma pesquisa realizada em maio a respeito das mudanças que a pandemia provocou no estilo de vida dos americanos revelou que 52% dos entrevistados fizeram mais compras pela internet. É bastante razoável imaginar que, pelo menos para uma parte dessas pessoas, comprar mais online se transformou em um hábito que deverá continuar inalterado mesmo após a pior fase da pandemia. Isso, sem sombra de dúvida, aumenta o poder de alcance de plataformas digitais de vendas como a Amazon. Com isso crescem também audiência, tráfego, volume de transações, receita e, consequentemente, seu lucro.

Se a Amazon ficou com um pedaço maior do bolo do varejo durante a pandemia, interessante entender quem perdeu. Existem dados disponíveis indicando que, nos últimos meses, os clientes da Amazon aumentaram as compras de produtos de farmácia, comidas e bebidas, produtos de limpeza e para a casa, além de artigos para escritório. De maneira geral, ganhou a Amazon; perderam os supermercados e farmácias. O quanto dessa cultura será permanente somente o tempo vai dizer, mas tenho a impressão de que, com um mínimo de normalidade na saúde pública, boa parte das pessoas deveria voltar a frequentar farmácias e supermercados. Isso sem contar que quem não tinha e-commerce está correndo para colocar uma estrutura de pé, e quem tinha já tinha um sistema ruim está correndo para melhorá-lo. Entendo a valorização recente de empresas como a Amazon, mas o que já negociava a prêmios exagerados chegou, na minha visão, no campo do irracional.

Do outro lado do espectro, os bancos estão fortemente capitalizados e com liquidez abundante. Todos passaram pelo pânico dos mercados em março, constituíram provisões de crédito extraordinárias nos balanços e enfrentaram um teste de estresse do FED com louvor. Além disso, foram instrumentais na execução da política fiscal por meio da operacionalização dos empréstimos do programa PPP. Suas mesas de negociação de ativos se beneficiaram das intervenções do FED no mercado de crédito, e também com a volatilidade. O mercado de capitais não parou, e deve ter cada vez mais fôlego com a continuada execução das políticas fiscais expansionistas. Além disso, com a adoção rápida do home office e do internet banking, poderão executar mais rapidamente os programas de redução de custos. A temporada de divulgação de balanços começa nesta semana, e o que se espera é uma queda substancial dos lucros. Entretanto, é bem provável que o pior já tenha ficado para trás. A apatia do mercado com o setor é um exagero de pessimismo.

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. E vice-versa. Ser value investor, nesses últimos meses, tem sido uma contínua espera do mal se acabar. Entretanto, ter valor significa não ser efêmero, mas perene. E, ao final, o valor sempre aparece.

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Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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