Economia

Alta tensão na Venezuela

Em meio à fuga da população em busca de abrigo e comida, atentado contra o presidente Nicolás Maduro aprofunda a crise institucional venezuelana e governo culpa a Colômbia e os Estados Unidos de financiar os terroristas

Crédito: AFP Photo / Juan Barreto

Me dê motivo: Nicolás Maduro aproveitou que opositores assumiram a autoria do atentado para indicar um apoio financeiro de colombianos e americanos (Crédito: AFP Photo / Juan Barreto)

O estrondo que interrompeu o discurso do presidente venezuelano Nicolás Maduro no ato de comemoração pelos 81 anos da Guarda Nacional Bolivariana, em 4 de agosto, estremeceu também as relações do país com a Colômbia. Maduro discursava durante o evento, transmitido ao vivo pela televisão estatal nacional, quando o local teve de ser evacuado às pressas. Um drone, que sobrevoava o local, explodiu, no que seria um atentado contra o presidente – sete militares ficaram feridos. Na noite do mesmo dia, o mandatário se pronunciou, alegando ter sido vítima de um ataque de “terroristas” treinados por colombianos e financiados pelos Estados Unidos. “As primeiras investigações nos indicam que vários dos financiadores vivem na Flórida”, disse ele. O grupo de venezuelanos Movimento Soldados de Franelas (MSF) reivindicou o ataque.

Na quarta-feira 8, Maduro reiterou ter evidências de que os autores foram treinados no país vizinho e coordenados pelos parlamentares venezuelanos Julio Borges, que está exilado em Bogotá, e Juan Requesens, do partido de oposição Primeiro Justiça. Também acusado por Maduro de estar por trás do suposto atentado, Juan Manuel Santos, que deixou o cargo de presidente da Colômbia na terça-feira 7, ironizou a denúncia através de uma rede social. “Ao presidente Nicolas Maduro: Não se preocupe. No sábado, estava com coisas mais importantes, batizando a minha neta Celeste.” O governo alega ainda que os suspeitos teriam recebido US$ 50 milhões e estadia nos EUA. “Em momentos assim é muito conveniente, para ditadores com uma mentalidade persecutória, atribuir todos os problemas do país a maquinações estrangeiras”, diz David Magalhães, coordenador de relações internacionais contemporâneas da FAAP.

Sem passagem: por ordem judicial, a fronteira do Brasil com a Venezuela ficou 17 horas fechada, na segunda-feira 6 (Crédito:Divulgação)

O atentado é mais um capítulo na conturbada crise institucional que vive a Venezuela. De acordo com a ACNUR, a agência da ONU para Refugiados, 111,6 mil venezuelanos registraram oficialmente pedido de asilo no ano passado, uma expansão de 326% sobre o ano anterior. No primeiro semestre deste ano, cerca de 500 mil pessoas conseguiram um acesso alternativo a países da América Latina. O Brasil está entre os principais destinos. Em busca de conter a entrada de venezuelanos em Roraima, o juiz federal de primeira instância, Helder Girão Barreto, emitiu, na segunda-feira 6, uma liminar que suspendeu a passagem de imigrantes que não tinham pedido de refúgio, residência temporária ou vistos e passagens aéreas. Pelo menos 100 venezuelanos ficaram retidos na fronteira entre os países, causando um incidente diplomático.

Após 17 horas de impasse, a passagem foi liberada no dia seguinte. Embora o Brasil mantenha as portas abertas para os vizinhos, as políticas locais não são satisfatórias para acolhê-los. Segundo dados da Polícia Federal, 54% dos quase 128 mil venezuelanos que entraram no Brasil nos últimos 18 meses pela fronteira de Pacaraima (RR) já deixaram o País. “A Venezuela passa pela sua mais grave crise institucional da história”, diz Moisés Marques, coordenador de política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Essa é ainda mais grave até que a crise de 60 anos atrás, quando a população foi às ruas para derrubar Marcos Pérez Jiménez [presidente venezuelano entre 1952 e 1958].”

Ataque aéreo: sete militares ficaram feridos após a explosão de um drone durante discurso de Maduro (Crédito:Xinhua via AP)

Um estudo divulgado em fevereiro pela Universidade Católica Andrés Bello (Ucab) apontou que 87% dos venezuelanos sobrevivem com uma renda abaixo da linha da pobreza, sendo que 61% da população encontram-se no patamar da pobreza extrema, segundo números aferidos em 2017. O PIB do país retraiu 70% desde 2013, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), passando de US$ 400 bilhões para US$ 120 bilhões. Em 2018, a projeção é de uma nova queda, pelo quinto ano consecutivo, de 18%. Na segunda-feira 6, o parlamento venezuelano, dominado pela oposição, anunciou uma inflação acumulada de 82.766% nos últimos 12 meses. O FMI estimou em julho que a superinflação ao consumidor subiria 1.000.000%, em 2018. “É uma situação insustentável, que vem de muitos anos, já desde a época do Chávez, mas que piorou claramente depois no governo de Maduro”, diz Patricia Krause, economista da seguradora de crédito Coface para América Latina.

A principal causa do declínio econômico venezuelano está ligada à crise do petróleo mundial. Cerca de 96% das receitas do país vêm da commodity. Mas a extração da estatal petrolífera PDVSA, que já foi de 3,2 milhões de barris diários em 2008, caiu para 1,53 milhão de barris por dia em maio deste ano. “Há muitos anos, a PDVSA não recebe investimentos. A tendência é a de que os níveis de produção continuem caindo, e que seja cada vez pior, por mais que o preço do barril do petróleo esteja se recuperando desde 2017”, afirma Patricia. Recentemente, o preço do barril chegou a US$ 75, retornando a indíces de 2014. Nos períodos em que o petróleo estava em alta, nenhum governante diversificou a economia, com industrialização ou desenvolvimento agrícola. Agora, a crise cobra o seu preço.