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A alta da bolsa é sustentável?

A expectativa de que Luiz Inácio Lula da Silva se torne inelegível no próximo dia 24 vem turbinando os preços das ações. Ainda dá para aproveitar esse movimento?

A alta da bolsa é sustentável?

O principal índice da B3 começou 2018 muito bem. Ao completar 50 anos de existência, o principal indicador do mercado acionário brasileiro cravou um recorde na segunda-feira 8, ao fechar a 79.379 pontos. Em termos reais, ajustados pela inflação, o Índice Bovespa ainda está longe do topo (veja o gráfico ao final da reportagem). Sustentado pelo movimento comprador que começou antes do Natal do ano passado e ultrapassou o Reveillon, o Ibovespa cravou onze pregões seguidos de alta, melhor sequência em oito anos, e flerta com os 80 mil pontos. Mesmo recuando durante dois dias seguidos, na quinta-feira 11 o índice subiu 1,49% e fechou a 79.365 pontos, flertando com um novo recorde. Mais do que isso, há mais dinheiro circulando na bolsa.

O volume médio dos oito primeiros pregões do ano foi de R$ 7,73 bilhões, em linha com a média de R$ 7,64 bilhões diários de 2017. Isso, o que indica que a alta dos preços não ocorre em um ambiente de poucos negócios. Há várias razões para esse avanço. Algumas são econômicas. Os juros baixos e a inflação controlada sustentam expectativas de crescimento da atividade. Outras são políticas. O mercado espera que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja oficialmente posto para fora da corrida presidencial no próximo dia 24 de janeiro. Condenado a nove anos de prisão pelo juiz federal Sergio Moro, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Lula recorreu.

A decisão caberá aos três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, com sede em Porto Alegre. Os investidores dão a condenação do ex-presidente como certa, tornando inviável sua candidatura à presidência. “Esse é um dos principais fatores que nos faz prever um Ibovespa a 80 mil pontos no fim de janeiro”, diz Vitor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos. “A ausência de Lula no cenário eleitoral aumenta a possibilidade de vitória de um candidato de centro.” Para o mercado, com Lula fora da disputa fica mais fácil para o governo adotar medidas econômicas impopulares. Um bom exemplo é a reforma da Previdência. A votação do assunto na Câmara está marcada para 19 de fevereiro. O presidente Michel Temer reconhece que ainda não tem os 308 votos necessários para garantir a aprovação. Para os analistas, se Lula estiver em campanha, vai ser mais difícil aprovar a proposta. “Há uma resistência maior dos deputados do Norte e Nordeste para aprovar a reforma, e a absolvição de Lula aumentaria a sua influência sobre esses políticos”, afirma Suzaki.

Plataforma de petróleo: para os analistas, as ações da Petrobras estão atrasadas em relação aos demais papéis líderes em negociação (Crédito:Geraldo Falcão/Banco de Imagens Petrobras)

Ainda é possível apostar na Bolsa, se você perdeu essa alta? Os analistas recomendam cautela. Para eles, é melhor aguardar a definição da situação de Lula. “Por enquanto, o que podemos esperar é volatilidade”, diz Suzaki. No entanto, não se descartam mais solavancos. Há algumas notícias ruins no radar. Na quinta-feira 11, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) cortou a nota do Brasil de “BB” para “BB-”, e colocou o rating soberano em perspectiva estável. A justificativa é que o “Brasil fez menos avanços do que esperado na área fiscal” (leia mais aqui). Mesmo assim, há algumas boas oportunidades de ganho.

Uma delas é a Petrobras. Neste ano, até a quinta-feira 11, as dez ações mais negociadas avançaram, em média, 6,05%. Os papéis preferenciais da Petrobras subiram 7,7%. Apesar do desempenho melhor, em um prazo mais longo há boas perspectivas para a petroleira. Luiz Gustavo Pereira, estrategista da Guide Investimentos, diz que os papéis da estatal estão “atrasados” em relação às demais ações de primeira linha. Em 2017, sua alta foi de apenas 8,3%, ante uma média de 24,1% das dez mais. “As ações da Petrobras podem se beneficiar muito do processo de redução do endividamento, que vem sendo conduzido muito bem”, diz Pereira.

Há outros fatores, além da política, determinantes para a alta da bolsa. A retomada dos negócios será benéfica para os resultados das empresas. A edição mais recente da Pesquisa Focus, do Banco Central (BC), indica expectativas de um crescimento de 2,69% no Produto Interno Bruto (PIIB) neste ano. Com base nisso, Eduardo Carlier, gestor de fundos da empresa de capital italiano AZ Quest, recomenda maior exposição à renda variável. “Devemos continuar observando a melhora sucessiva nos resultados durante a temporada de balanços do quarto trimestre, que começa em fevereiro”, diz ele.

O cenário internacional também deverá ser benéfico para o comportamento das ações. Wall Street começou o ano batendo recordes. Essa animação, e o fato de a inflação americana estar se comportando bem, reforçam a convicção de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) não tenha pressa em subir a taxa de juros, o que garante a liquidez do mercado. O aumento no preço das commodities também ajuda. A expectativa é que a China entregue o crescimento do PIB prometido pelo governo, que é de 6,5% neste ano, elevando ainda mais os preços das commodities.