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Duas vezes 100 pontos

Resultado de uma joint-venture entre a família Rothschild e a vinícola Concha y Toro, o ícone chileno Almaviva recebe pela segunda vez a máxima pontuação atribuída a um vinho pelo crítico James Suckling, o mais influente da atualidade

Crédito: Divulgação

Barricas: o salão onde o vinho estagia em carvalho francês. A safra 2017 permaneceu 19 meses em madeira e apresenta taninos extremamente macios (Crédito: Divulgação)

Antes que entrasse no negócio de vinhos, a família Rothschild já impunha respeito no mercado financeiro europeu. Nascido em 1744 no gueto judaico de Frankfurt, na Alemanha, Mayer Amschel Rothschild se tornou o maior negociante de moedas e papéis de sua era, superando todos os banqueiros que o precederam. Sua estratégia para crescer e conquistar novos mercados consistiu em abrir casas de câmbio nas cinco maiores capitais da Europa. No comando de cada uma delas estava um de seus filhos. Algo parecido ocorreu quando a família decidiu expandir seus domínios vitivinícolas para além da França. Ainda na décda de 1970, o Barão Philippe de Rothschild se associou ao produtor Robert Mondavi em um projeto para fazer grandes vinhos no Nappa Velley, na Califórnia. A parceria gerou o Opus One, cuja primeira safra foi engarrafada em 1979.

Michel Friou, enólogo do Almaviva: “Com a safra 2017 voltamos às características que fazem parte do DNA do Almaviva: sua cremosidade e complexidade de aromas, sobretudo de frutas vermelhas maduras” (Crédito:Sara Matthews)

Duas décadas depois, a bem sucedida experiência foi implementada no Chile, em uma joint-venture com a Concha y Toro, maior vinícola chilena, com vendas anuais de cerca US$ 1 bilhão. Desta vez, o resultado foi o Almaviva, ícone chileno que se tornou uma febre no Brasil e sobretudo na Ásia, onde está seu maior mercado. “Apenas 2% da produção de Almaviva é vendida no Chile, e a maior parte para brasileiros que nos visitam”, afirma Felipe Feliú S., diretor de exportação da marca. Segundo ele, o principal mercado é Hong Kong, que se tornou uma espécie de hub de sitribuição para os países vizinhos, como Taiwan e Cingapura.

Curiosamente, as garrafas que chegam ao Brasil não vêm diretamente do Chile e sim de Bordeaux, na França ­— o que o torna bem mais caro para o consumidor final não apenas pelo alto custo logístico, mas também pela carga tributária. No Brasil, os vinhos chilenos entram sem pagar impostos. Ao vir da França, a taxa de importação é de 27%. Com isso, a mesma garrafa vendida por negociantes de Bordeaux por cerca de 100 euros chega ao Brasil custando por volta de R$ 1.500. Esse deve ser o preço de venda do Almaviva 2017, segundo estimativa do importador Celso Lapastina, dono da World Wine.

Berço: parte dos vinhedos e vinícola do ícone chileno: só 2% da produção fica no país de origem (Crédito:Divulgação)

A venda do vinho na França, e não no Chile, onde ele é produzido, tem a ver com uma decisão comercial dos sócios. O aumento do preço pode atrapalhar as vendas no Brasil, mas favorecem sua presença e reputação internacional. O Almaviva pertence a um seleto grupo de campeões. Apenas outros dois rótulos chilenos alacançaram mais de uma vez a pontução máxima possível: 100 pontos. Foram eles o Viñedo Chadwick, produzido pela Errázuriz (eleita a melhor vinícola chilena em 2017 pelo crítico Robert Parker) e o Clos Apalta, da Lapostolle.

Ambos formam com o Almaviva o trio de ouro dos ícones chilenos — e dois deles se beneficiaram do talento de um mesmo enólogo, o francês Michel Friou. Nascido ao sul da Bretanha, Friou vive no Chile há 24 anos e passou por diversas vinícolas antes de se estabelecer na Almaviva, em 2007, quando já havia criado uma excelente reputação (em parte por ter sido o enólogo do Clos Apalta). Na joint-venture formada pela Concha y Toro e Rothschild, Friou conduziu 12 safras,. Das dez que já chegaram ao mercado, duas mereceram 100 pontos do influente crítico James Suckling: as de 2015 e 2017, lançada mundialmente na semana passada. A de 2015, além da nota máxima, conquistou um título insuperável, o de vinho do ano.

Promissor: além dos 100 pontos, a safra 2017 tem chances de ser a melhor de todas (Crédito:Divulgação)

ANO SECO E QUENTE “O ano de 2017 foi muito particular, com temperaturas muito altas, pouca chuva e muitos incêndios florestais no sul do Chile que complicaram a safra em algumas regiões — o que não foi o nosso caso, pois estamos em uma área mais protegida”, disse Friou, durante um almoço em São Paulo. “Essa condição climática, que poderia ser adversa, foi compensada pelas chuvas do ano anterior, que ficaram acima da média”. Segundo ele, na colheita de 2017, que ocorreu mais cedo que o habitual, a quantidade de uvas por parreira foi cerca de 30% a 40% menor nos vinhedos mais antigos e entre 15% e 20% menor nos mais novos.

“As uvas que colhemos, porém, trouxeram maior concentração e qualidade, resultando em taninos mais suaves. Isso nos permitiu voltar às características que destacam o Almaviva: sua cremosidade e complexidade de aromas, sobretudo de frutas vermelhas maduras”. Como em todas as safras, o Almaviva é produto de uma combinação de uvas, algumas em proporções mínimas, adicionadas quase a conta-gotas. Após dezenas de provas realizadas ao longo de um mês com diferentes combinações de variedades para se chegar ao melhor corte, Friou e sua equipe definiram as seguintes quantidades: 65% cabernet sauvigon, 23% carmenère, 5% cabernet franc, 5% petit verdot e 2% merlot.

Fundadores: Eduardo Guilisasti Tagle, então presidente da Viña Concha y Toro, e a baronesa Philippine de Rothschild, na inauguração da vinícola Almaviva (Crédito:Divulgação)

Essa mescla permaneceu 19 meses em barricas de carvalho francês, a maior parte de pimeiro uso. Segundo especialistas, há grandes chances de este seja o melhor Almaviva de todos os tempos. “Conheço esse vinho há muitas safras e posso afirmar que a qualidade dos taninos em 2017 é impressionante”, diz Mário Telles Jr., diretor executivo da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo. “Maravilhoso”, resume o especialista.

Perguntado sobre se a safra está entre as suas favoritas, Friou repondeu que seu compromisso como enólogo é chegar a um vinho melhor a cada ano, usando para isso todo o conhecimento acumulado ao longo do tempo no campo e na vinificação. Como convém a um pai de vários filhos, ele afirma não ter um favorito. A comparação sa safra 2017 com as de 2006 e 2014, contudo, não deixa dúvidas. Estamos diante de um vinho nascido em berço de ouro e destinado a fazer história. Como convém a quem traz o DNA da família Rothschild.