Alguém prestou atenção na Fitch?

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O Brasil está barato, e os agentes do mercado estão míopes (Crédito: Pixabay )



Em férias nas últimas duas semanas, passei um período relativamente desconectado. De volta, me deparo com uma notícia da semana passada: a agência de ratings Fitch manteve o rating soberano brasileiro em BB-, e revisou o ‘outlook’ de “negativo” para “estável”.

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Aspas para o comunicado da Fitch, em tradução livre: “A revisão do ‘outlook’ do rating brasileiro de negativo para estável reflete a evolução melhor do que o esperado das finanças públicas, em meio aos sucessivos choques desde que declaramos o ‘outlook’ negativo, em maio de 2020. No ano passado, o Brasil registrou o seu primeiro superavit primário desde 2013, destacando a melhor performance da receita e o compromisso das autoridades em retirar estímulos implementados durante a pandemia. Uma importante redução da dívida pública em relação ao PIB, em 2021, deverá ser sucedida por outra pequena queda em 2022, melhorando consideravelmente o ponto de partida antes de uma retomada gradual do crescimento desse indicador em 2023 e nos próximos anos. A dinâmica de crescimento de longo prazo teve performance superior às nossas expectativas anteriores, e progressos incrementais em reformas poderão beneficiar as perspectivas de investimento no médio prazo. A atuação decisiva do Banco Central em apertar as condições monetárias, além da confirmação de sua autonomia, agora formalizada, ressaltam o compromisso de combate à inflação. Desafios fiscais e de crescimento ainda persistem, e as eleições de outubro de 2022 trazem incertezas em relação a como essas questões serão enfrentadas. Esses desafios, no entanto, já estão refletidos no rating soberano BB-, e a Fitch espera continuidade das linhas gerais de política macroeconômica após as eleições.”

Esta é exatamente a minha visão. A Fitch observa os fatos como eles se apresentam, e olha para o futuro com a objetividade de um agente externo que vive de avaliar riscos. Com exatidão, descreve o quadro fiscal brasileiro e se sente confortável em dizer que não enxerga, no momento, uma deterioração do rating brasileiro em função dele.




O mercado, por outro lado, não vê assim. Interpreta que as atuais manobras do Executivo e do Congresso são peripécias fiscais que, se executadas repetidamente ou mantidas de forma permanente, enfraquecem de maneira estrutural o quadro fiscal do País. Não discordo. Essa visão, entretanto, não deveria se sobrepor aos fatos: o quadro fiscal brasileiro é, e tem sido, melhor do que o esperado, mesmo com todas essas circunstâncias.

Os furos no teto de gastos somente mostram que a âncora que ele representa é muito ruim. Era a única possível no momento em que foi criada, mas acreditar que num País como o Brasil os gastos do governo permaneceriam congelados, somente corrigidos pela inflação, é querer acreditar em quem vende um pedaço de chão lá no céu. Com o nosso histórico, era óbvio que o limite seria furado na primeira oportunidade – exatamente como está sendo.

Passado o período da demagogia, durante o processo eleitoral, os principais candidatos deverão oferecer à sociedade um plano econômico que obedeça a uma âncora fiscal de verdade. O Brasil tem talentos de sobra na área econômica, nomes que precisam ser bem aproveitados independentemente do verniz político de cada um. É pedir muito? Talvez. Mas uma coisa é certa: no Brasil, por muitas vezes, se chegou à beira do abismo. Houve quem tenha saltado em sua direção, mas a história lhes foi cruel. Em geral, políticos, por piores que sejam (e, infelizmente, estamos com uma safra bem ruim deles) possuem senso de sobrevivência.


Como value investor, a oportunidade me parece clara. O Brasil está barato, e os agentes do mercado estão míopes. Eleições ou não, estou com a Fitch: os desafios são conhecidos, e a trajetória dos indicadores até agora tem sido melhor do que a esperada.

Investir em ativos brasileiros é sempre uma proposta arriscada, especialmente com a taxa de juros em dois dígitos. É desconfortável, incômodo, dá dor de barriga. A maioria dos investidores bem-sucedidos, porém, nunca descrevem o processo de investimento como prazeroso. Ao contrário, ele é sempre sofrido, angustiante. Desta vez não será diferente.







Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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