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Alemanha enfrenta dilemas com proximidade de descomissionamento nuclear

Alemanha enfrenta dilemas com proximidade de descomissionamento nuclear

Uma imagem da usina nuclear de Gundremmingen, sul da Alemanha, em 26 de fevereiro de 2021 - AFP/Arquivos

A cidade bávara de Gundremmingen se orgulha tanto de sua usina nuclear que seu brasão contempla um átomo gigante dourado.

Mas a mudança está chegando à cidade, com o iminente fechamento de sua usina de acordo com a política de transição energética da Alemanha.

A casa de seu ex-prefeito, Wolfgang Mayer, tem vista para o imponente complexo com suas duas torres de resfriamento de 160 metros, mais altas do que os pináculos da Catedral de Colônia.

A usina ainda gera 10 bilhões de kWh de eletricidade ao ano, embora partes dela já tenham sido desativadas. O volume é suficiente para abastecer toda a região metropolitana de Munique.

A central será descomissionada em 31 de dezembro de 2021, juntamente com outras duas no norte da Alemanha.

Até o fim de 2022, a Alemanha terá alcançado seu objetivo de eliminação completa da energia nuclear, estabelecido pela chanceler Angela Merkel em 30 de maio de 2011, no rastro do desastre em Fukushima.

O plano representou uma mudança dramática de curso para os aliados conservadores de Merkel, que apenas alguns meses antes tinham concordado em estender a vida útil das usinas mais antigas da Alemanha.

Mas obteve apoio público maciço em um país com um poderoso movimento antinuclear, primeiro alimentado pelo temor de um conflito durante a Guerra Fria e depois por desastres como o de Chernobyl.

– Como a igreja da cidade –

Em Gundremmingen, no entanto, a decisão foi um remédio amargo.

A usina nuclear é “tão parte da cidade quanto a igreja” e a sensação é de que “algo está morrendo”, afirmou Gerlinde Hutter, proprietária de uma hospedaria local.

Segundo Meyer, serão necessários ao menos 50 anos para remover todo o material radioativo do local depois que a usina for descomissionada.

O governo alemão ainda busca um local para o armazenamento a longo prazo do lixo nuclear residual do país.

Gundremmingen não é a única moradora da cidade a enfrentar grandes mudanças, à medida que o país avança para implementar sua estratégia de transição energética.

As renováveis têm tido um crescimento espetacular desde 2011 e em 2020 compuseram até mais de 50% da matriz energética do país pela primeira vez, segundo o instituto de pesquisas Fraunhofer em comparação com menos de 25% dez anos atrás.

O declínio da importância da energia nuclear (12,5% em 2020) “foi compensado pela expansão das energias renováveis”, disse à AFP Claudia Kemfert, especialista em energia no instituto de pesquisas econômicas DIW.

As usinas nucleares não foram substituídas pelo carvão, embora o combustível fóssil ainda represente quase um quarto da matriz energética alemã.

– O dilema do gás –

De fato, a eliminação da energia nuclear se somou a outro plano, anunciado em 2019, de fechar todas as usinas térmicas a carvão na Alemanha até 2038.

Isto representa um desafio em particular para o país, que se mantém como o líder mundial na produção de lignito (carvão fóssil).

A mineração do carvão marrom, que é altamente poluente, continua a provocar a destruição de cidades no oeste do país a fim de expandir gigantescas minas a céu aberto.

Se a Alemanha quiser se livrar do lignito, as fontes renováveis como eólica, solar, biomassa e hidrelétrica terão que alcançar 65% da matriz energética até 2030.

No entanto, o país, que há anos esteve na vanguarda da energia gerada pelo vento na Europa, instalou apenas 1,65 gigawatts (GW) de fazendas eólicas no ano passado – o menor nível em uma década, segundo o grupo de defesa do setor WindEurope.

Para alcançar as metas do governo, a Alemanha teria que adicionar 9,8 GW de energia solar e 5,9 GW de eólica onshore ao ano, segundo Kemfert.

Mas o desenvolvimento de novas áreas para a produção de energia eólica e fotovoltaica é complexo, com projetos que enfrentam com frequência a resistência de moradores locais e o risco de danos à paisagem.

E a menos que o armazenamento e a distribuição possam ser implementadas através das chamadas usinas virtuais, estas novas formas de energia não têm a mesma estabilidade das térmicas e nucleares.

Para assegurar o abastecimento, a Alemanha poderia, portanto, ser tentada a construir mais usinas térmicas a gás.

Mas isso poderia reforçar sua dependência da Rússia, como ilustrado pela polêmica sobre a construção do gasoduto Nord Stream 2.

Uma usina térmica a gás já está em funcionamento na cidade de Leipheim, vizinha a Gundremmingen.

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