Tecnologia

Alavanca social da tecnologia

Três líderes da empresa Data H possuem história de vida fora do padrão dos comandantes de startups e mudaram seus destinos por meio de resiliência e da inovação empreendedora.

Crédito: Divulgação

EXISTE CAMINHO Criado por padrasto pedreiro e pela mãe faxineira, Evandro Barros mora hoje no Canadá, onde sua empresa passa por dois hubs de aceleração. (Crédito: Divulgação)

Três líderes. Um, negro, da periferia, criado pela mãe faxineira e pelo padrasto pedreiro. Outro, ex-frentista de posto de combustível. O terceiro, ex-sem-teto. Evandro Barros, André Torrieri e Anderson Soares são três brasileiros com histórias comuns em um País de raras oportunidades para as classes mais baixas. A mentalidade forte e a tecnologia os uniram para mudarem o próprio destino. Juntos, comandam a Data H, empresa que aplica inteligência artificial em carros autônomos, robôs, no setor de educação e em equipamentos de saúde e tem projetos com empresas como iFood, Basf e Hospital Albert Einstein. A companhia ainda possui parceria com as bilionárias do setor tecnológico Nvidia e IBM e foi selecionada em programa de aceleração do governo do Canadá. São exemplos de que o improvável pode ser alcançado. Tornaram-se referência no ambiente corporativo de um setor concorrido, que oferta tecnologia de ponta e ajuda na aceleração do desenvolvimento econômico. “É preciso mostrar que existem caminhos”, disse Barros, CEO e fundador da companhia. “A tecnologia é uma ferramenta de transformação social”, afirma Soares, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e líder de P&D na Data H, que atua em cooperação com a instituição de ensino goiana.

Evandro Barros nasceu na Vila São José, do periférico bairro de Ferrazópolis, em São Bernardo do Campo, cidade da Grande São Paulo, distante 10 mil quilômetros do Vale do Silício, nos Estados Unidos, um dos principais polos de geração de ideias e de empresas tecnológicas do mundo. Em 1980, quando tinha 4 anos, o barraco onde habitava foi destruído por um deslizamento de terra. Mudou para a capital paulista, onde também morava em condições precárias. Sua mãe cuidava sozinha dele e dos dois irmãos, já que o pai havia ido embora. Incentivados pelo padrasto, que fazia serviços de pedreiro e de corte de cana, peregrinaram pelo interior de São Paulo. Com muita dificuldade, concluiu os estudos primários. Com incentivos de programas científicos, concluiu o curso de História na Unesp, em 1999. Posteriormente, formou-se em música e deu aulas durante 14 anos. Foi quando recebeu convite de uma empresa de Araraquara (SP) para fazer um curso e atuar com operações na bolsa de valores. “Neste momento despertei o interesse pela matemática”, disse Barros. Em seguida, foi chamado para trabalhar em um escritório de investimentos, em Ribeirão Preto (SP). Começou a procurar projetos para investir. Pela demora e dificuldade em encontrar potenciais empresas para receber aportes, pensou em criar uma plataforma de busca. Com a ideia na cabeça, conheceu no prédio onde trabalhava os que seriam seus sócios, André Torrieri e Celso Azevedo, hoje responsável pela área de TI da Data H.

CURSO Primeiros funcionários da Data H foram treinados com suporte improvisado. Agora, empresa revela talentos e gestores para a área tecnológica com o instituto I2A2. (Crédito:Divulgação)

Barros explicou sua demanda aos amigos que já tinham conhecimento em tecnologia e recebeu uma resposta que despertou ainda mais seu interesse em resolver seu problema: não havia profissionais no mercado para fazer o que ele queria. “Se não tem gente, é algo novo que pode revolucionar”, disse. Os três, então, montaram a Data H sem nenhum colaborador. Os primeiros funcionários foram contratados depois de cursos gratuitos que eles davam às quintas-feiras à noite, depois do expediente, em uma sala no prédio onde trabalhavam.

Prepararam apresentações para divulgar o serviço da empresa e agendaram reuniões com grandes companhias. Uma delas, a IBM, entrava pela segunda vez na vida de Evandro Barros. A primeira delas foi quando sua mãe foi faxineira da empresa. “Quando pisei no prédio, na Vila Mariana, em São Paulo, passou um filme na cabeça.” Hoje a gigante americana é parceira da Data H, principalmente no uso da plataforma cognitiva Watson. A IBM também atua no I²A² — Instituto de Inteligência Artificial Aplicada, braço da Data H criado em 2018 para formar profissionais e gestores para o setor. Atualmente, a entidade tem atuação no Peru, Portugal e Canadá e traz como novidade o treinamento em computação quântica “Osso é o futuro do futuro”, disse Barros. O executivo trabalha e mora no Canadá, onde a Data H passa por aceleração em dois hubs de aceleração: na DMZ, em Toronto – tem acesso a clientes, capital e especialistas – e no Spark Centre, um centro de inovação de Oshawa.

TARDIO Antes de ingressar no setor de inteligência artificial, André Torrieri foi pintor de carros em funilaria, trabalhou em lava-rápido e atuou como frentista em posto de combustível (Crédito:Divulgação)

No país norte-americano, a empresa ribeirão-pretense desenvolve solução de robô para entregas de mercadorias last mile por meio da Synkar, startup satélite da Data H. O mesmo equipamento, que percorre as calçadas, é usado para inspeção do passeio público danificado. “Estamos na capital mundial da inteligência artificial”, afirma o CEO da startup brasileira, que dobra o faturamento ano a ano – os números consolidados não são divulgados.

NOVO RUMO A tecnologia também entrou tarde na vida de André Torrieri. Antes de ingressar nesse ramo, foi pintor de carro em funilaria, trabalhou em lava-rápido e foi frentista. Em 1998, quando um amigo foi morto na véspera de Natal em assalto ao posto de gasolina onde atuava, em Ribeirão Preto. A partir daquele episódio, começou a estudar livros de tecnologia por conta própria. Conseguiu emprego numa empresa de telecomunicação, que instalava grandes antenas. Mas ainda era um trabalho mais braçal do que técnico. Na busca por uma melhor posição no mercado de trabalho, fez curso de tecnólogo na Unaerp. O primeiro emprego na área foi na Heurys, que produz softwares. Permaneceu por 18 anos na empresa, chegou ao cargo de diretor de saiu para comandar a Cymeon, de cibersegurança, empresa sob o guarda-chuva da Data H, cofundada por Torrieri. “Nossa história nos mostra para onde ainda podemos ir.”

“As ascensões sociais têm de ser pensadas em décadas, não em anos” Anderson soares, professor e líder de pesquisa e desenvolvimento da data h.

Anderson Soares é o responsável pela pesquisa científica e desenvolvimento da Data H, que atua em parceria com a UFG, onde é professor. Ele é um dos principais nomes brasileiros quando o assunto é inteligência artificial. É graduado em Engenharia de Computação pela PUC Goiás, mestre em engenharia elétrica pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em engenharia eletrônica e computação pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Tudo realizado com bolsa de estudos. Durante a faculdade, chegou a morar em um prédio desativado e invadido da falida construtora goiana Encol. “Ser humano é carente de referências. As ascensões sociais têm de ser pensadas em décadas, não em anos. Se trabalhar duro, acontece”, afirmou o especialista, que hoje também trabalha na formação e lapidação de novos talentos para a área tecnológica, inclusive como coordenador estadual da Olimpíada Brasileira de Robótica.

Histórias de pessoas e de uma empresa que se encaixa no dito popular: “Realize o óbvio, pense no improvável e conquiste o impossível”.

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