Finanças

Agenda BC# entra no radar

Papéis dos grandes bancos passam por uma temporada de realização de lucros na bolsa brasileira, em virtude da preocupação dos investidores com o avanço das fintechs e da pressão do Banco Central por taxas de juros menores.

Crédito: Istock

A iniciativa do Banco Central em prol da maior competição no crédito, serviços e produtos de investimentos – conhecida como Agenda BC# – entrou no radar dos investidores de papéis do setor financeiro na bolsa brasileira. Desde a coletiva de Roberto Campos Neto sobre esse assunto, há pouco mais de duas semanas, os preços das ações dos grandes bancos – Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander Brasil – passam por um período de ajustes, influenciando negativamente, por causa do peso percentual desses papéis (22,6%) na carteira teórica do Índice Bovespa, que reúne 73 ativos, de 70 companhias.

Enquanto o Ibovespa subiu quase 1,2% até a quarta-feira 21, foram registradas perdas de 9,74% em Itaú PN, 8,4% em Banco do Brasil ON, 7,9% na unit do Santander Brasil, 7,1% em Bradesco PN, 7% em Itaúsa PN e de 6,3% de Bradesco ON. Ao mesmo tempo, alguns outros papéis do setor mostravam solidez, como a unit do BTG Pactual (alta de 2,4%), B3 ON (elevação de 4,9%) e SulAmérica (valorização de 10,5%). Vale ponderar, no entanto, que, desde o início do ano, os investidores estrangeiros retiraram R$ 6,9 bilhões dos papéis mais negociados (líquidos) do mercado à vista, como os dos bancos, para eventualmente aproveitarem oportunidades em ofertas primárias de ações (IPOs e follow-ons), programadas para acontecerem entre o final deste mês e a primeira quinzena de fevereiro. Na avaliação de Matheus Soares, analista da corretora Rico Investimentos, os investidores têm questionado a capacidade dos grandes bancos de continuarem surfando na onda do otimismo com a recuperação econômica, enquanto fintechs e bancos digitais menores crescem e vão conquistando fatias de mercado.

“2019 foi um ano muito bom para captações bancárias com a redução dos juros. As instituições podem aproveitar a economia em aquecimento para conceder mais crédito”. Juliano Cornacchia, CEO da Vórtx.

Ele argumenta que o discurso do presidente do BC não trouxe novidades, mas que o tom do regulador chamou a atenção. “Campos Neto está focado em aumentar a competição e reduzir os juros”, diz. A medida de tabelamento do cheque especial em 8% ao mês, por exemplo, deve tirar cerca de 2% dos lucros dos bancos em 2020. Soares complementa que, além da agenda do BC, a competição maior é percebida pelos investidores. “Hoje, não é preciso possuir milhares de agências e centenas de milhares de funcionários para atingir o máximo de clientes possíveis e, assim, conseguir crescer”, afirma. Ele destaca que o avanço da tecnologia tem quebrado as barreiras físicas e ajudado os negócios virtuais, dentre eles os bancos digitais, que têm ganhado força e clientes, sem a necessidade de expandir fisicamente uma rede de pontos de atendimentos pelo Brasil. “Os bancos digitais têm conseguido atingir milhões de pessoas sem as despesas com agências, diluindo os custos para servir a seus clientes”, diz.

Guilherme Vitolo, diretor para a área de finanças e seguros da consultoria alemã Roland Berger no Brasil, calcula que os cinco principais bancos – incluindo a Caixa Econômica Federal e os quatro já listados – terão de cortar R$ 24,1 bilhões em custos nos próximos anos para manter os atuais níveis de rentabilidade. “Os grandes bancos vão perder fatia de mercado se não repensarem seu modelo de negócio”, afirma.

Sobre o fato de as principais instituições já terem realizado o fechamento de milhares de agências nos últimos anos e adotado programas de demissões voluntárias, aposentadorias incentivadas ou de não reposição de pessoal para buscar eficiência, Vitolo respondeu que daqui para a frente, essas iniciativas de enxugamento terão de ser feitas com maior cautela. “Não é só cortar custos, fechando agências físicas. É preciso entender as necessidades dos clientes. Há produtos e serviços nos bancos digitais que não têm a mesma dinâmica de vendas feitas nas agências como capitalização, seguros e previdência”, diz.

Nos próximos três anos, nas contas de Vitolo, por causa do aumento da competição no crédito, o spread (diferença entre o custo de captação e os juros finais) de crédito dos grandes bancos deve cair 1,5 ponto percentual. “Num mercado mais competitivo, a taxa final de juros deverá cair”, afirma. Na visão dele, para os grandes enfrentarem a concorrência dos pequenos haverá a necessidade de revisarem a análise de risco dos clientes. “Com o avanço da tecnologia, os bancos terão a possibilidade de fazer uma melhor análise de crédito, verificar padrões de comportamento dos clientes e refinar seus modelos”, diz o executivo. Em outras palavras, as instituições financeiras podem garantir mais ganhos com a queda da inadimplência (atrasos e calotes).

CAPTAÇÃO BANCÁRIA Se por um lado, a competição daqui para a frente irá se acentuar, por outro ângulo, cumpre citar que o custo de captação das instituições financeiras diminuiu muito em 2018 e 2019 e deverá continuar relativamente muito baixo no horizonte relevante até 2022. De acordo com informações do BC, o custo médio para os bancos captarem recursos livres caiu 2,3 pontos percentuais, de 9% ao ano, em dezembro de 2017, para 6,7% ao ano, em novembro de 2019. No atual momento, com a taxa de depósito interfinanceiro (DI) em 4,4% ao ano e com um cenário de juros básicos nesse patamar ao longo de 2020, o custo médio de captação tende a se reduzir em magnitude semelhante à que foi registrada nos últimos dois anos. Na prática, com custos mais baixos para captar recursos, os bancos podem ter até uma melhor rentabilidade no crédito daqui em diante, mesmo com a competição mais acirrada.

Dados do boletim anual de renda fixa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que o estoque de títulos de captação bancária aumentou 10,5% em 2019, uma expansão de R$ 161,5 bilhões, para um total de R$ 1,7 trilhão em estoque. Numa hipótese simples, se descontada a valorização desses papéis a uma taxa média anual de 100% do DI (5,97% ao ano), é possível contextualizar que o mercado desses produtos bancários teve uma expansão de cerca de 4,5 pontos percentuais no ano passado, algo como R$ 69 bilhões em novos recursos.

Em termos de volume de estoque, o destaque ficou com os certificados de depósito bancário (CDBs), com expansão de R$ 74,5 bilhões no período, para um montante de R$ 948,2 bilhões. Nos demais papéis, a Anbima registrou o aumento dos estoques de 123,9% em recibos de depósito bancários (RDBs), 18,1% em letras financeiras (LFs), 3,2% em letras de crédito do agronegócio (LCAs) e de 12,1% letras de câmbio (LCs), essas últimas emitidas por financeiras.

Para Juliano Cornacchia, CEO da Vórtx, além do interesse das instituições em pegar recursos mais baratos, vale destacar a democratização do acesso dos papéis para o investidor pessoa física. “Plataformas abertas de investimentos, como XP, BTG, Órama, Guide e Easynvest, conectaram pessoas físicas com títulos de captação de instituições menores que pagam taxas melhores que os grandes bancos”, observa. Ele aponta que o desafio para o mercado de produtos de captação bancária em 2020 será manter a atratividade num ambiente de taxas de remuneração muito baixas. “O juro real está praticamente zero, com a inflação ao redor de 4%. Até mesmo os grandes bancos vão ter de oferecer algum prêmio sobre o DI para atrair investidores para o CDB”.

Já Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama, não vê dificuldades para as instituições financeiras buscarem recursos em produtos de captação bancária. “Mesmo para investidores de perfil mais arrojado, a renda fixa é a base para todo o tipo de aplicação, no mínimo, 40% (de composição) das carteiras”, afirma. Ela conta que, no ano passado, clientes muito conservadores migraram recursos da poupança para CDBs e letras. “É a dança das cadeiras da renda fixa. Os conservadores estão alongando prazos para obter mais retorno”, diz. Sandra orienta que, mesmo com a segurança do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) nessas aplicações, vale diversificar. “Não se deve colocar todos os ovos na mesma cesta. Fintechs e bancos menores pagam taxas mais atraentes em CDBs e letras. Já CDBs de grandes bancos, com taxas entre 80% e 85% do DI, não têm mais vez”.

“Diante de um custo menor, as instituições vão poder cobrar menos no crédito. Por pressão das fintechs e do BC, o spread tende a diminuir, mas ainda são muito altos” Rodrigo Tonon Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos. (Crédito:Leo Cavazzana)

Para Rodrigo Tonon Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, tanto os grandes bancos quanto os médios e pequenos estão captando mais e a custos bem reduzidos. Na visão dele, CDBs e títulos isentos do imposto de renda, como LCAs e LCIs, vão continuar interessantes para os investidores, quando comparados com a rentabilidade ainda menor da poupança e de aplicações automáticas que cobram taxas de administração muito elevadas. Marcatti também vê o interesse dos bancos em atrair recursos para aumentar seus empréstimos. “Diante de um custo menor, as instituições vão poder cobrar menos no crédito. Por pressão das fintechs e do BC, o spread tende a diminuir, mas ainda são muito altos”, diz.

Ele tem razão. Os dados do boletim de crédito do BC confirmam que o spread em crédito com recursos livres aumentou 1 ponto percentual ao longo do ano passado, de 23,3%, em dezembro de 2018, para 24,3%, em novembro de 2019. No mesmo período, o juro médio final caiu apenas 0,4 ponto percentual, de 31,4% ao ano para 31%. Ou seja, os bancos tiveram margens melhores, pois a taxa de juros na ponta não foi reduzida na mesma proporção que o custo de captação.

CONTRAPONTO Matheus Soares explica esse descompasso entre a redução dos custos de captação e dos spreads. “A competição está mais forte hoje nos serviços que os bancos oferecem. Não é no crédito. No caso de recuperação econômica, os grandes bancos podem ser favorecidos”, afirma. Para o analista da Rico, o desafio das fintechs e dos bancos pequenos será conseguir emprestar sem perder muito dinheiro com a inadimplência. “É preciso conhecer muito bem o cliente para dar crédito”, diz o especialista.

Ele lembra que a Rico não tem nenhuma recomendação de compra para papéis de grandes bancos, mas está longe de achar que é o fim deles. “Apesar das notícias negativas, ainda há motivos para acreditar no setor. Se, por um lado, a maior competição e regulação no setor atingem diretamente as receitas com serviços – onde é mais fácil entrar, menos regulado e menos defendido –, por outro, quando falamos em crédito, o jogo muda. Saber fazer crédito no Brasil não é fácil. Caso contrário, sofrerá com a inadimplência”, afirma Soares.

O analista argumenta que os bancos digitais ainda pequenos podem não dar conta de fornecer o crédito demandado pelos seus clientes, caso a recuperação da economia e a busca por empréstimos cresçam nos próximos anos. “Ou pior, a concessão acelerada sem o conhecimento necessário pode fazer com que muitos bancos digitais ou fintechs fiquem pelo caminho”, destaca.