Sustentabilidade

África discute como alimentar população em meio a crise climática

Os Ministros da Agricultura da África, reunidos nesta segunda-feira (4) no Marrocos, discutirão o desafio de produzir o suficiente para alimentar o continente – onde as mudanças climáticas causam prejuízos – enquanto preservam o meio ambiente.

O tempo urge: está previsto que o rendimento agrícola cairá 20% na África até 2050 devido à degradação do solo e à desertificação causadas por inundações e secas, e, paralelamente, a população dobrará, segundo os especialistas.

O continente é vítima de repetidas crises climáticas, declarou à AFP Seyni Nafo, embaixador dos países africanos nas conferências internacionais sobre o clima.

Há exemplos recentes: desde a semana passada, uma parte da República Centro-Africana está inundada, e no sul do continente a seca ameaça de fome 45 milhões de pessoas, informou nesta sexta a agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Seis dos dez países mais vulneráveis ao clima estão na África, que possui dois terços das terras cultiváveis do mundo”, diz Nafo, também secretário-geral da Fundação AAA (Adaptation of African Agriculture to climate change), organizadora da reunião, na Universidade de Benguerir, no Marrocos.

A reunião de ministros terminará na terça-feira.

– “Escassez de farinha” –

O aumento da produção agrícola e alimentar é ainda mais crucial porque a fome conduz a deslocamentos de população, violência e agitações políticas. Nafo cita o caso do Sudão, onde as primeiras manifestações do início de 2019 se deveram a uma multiplicação por três do preço do pão, e à “escassez de farinha”.

Na África subsaariana, os primeiros êxodos maciços de tuaregues do norte do Mali ocorreram depois de grandes secas e de uma degradação dos recursos naturais nos anos 1970, lembra.

Além disso, não se pode encontrar uma solução sustentável no Sahel, afetado por conflitos intercomunitários (sedentários e nômades, por exemplo) e um surto de violência jihadista, se não for abordado o tema de fundo da produção agrícola, informa um especialista da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).

“Necessitamos fazer com que a agricultura e a pecuária sejam mais resistentes ao clima, do contrário enfrentaremos grandes desastres. A opção militar não pode ser a única solução”, acrescenta Nafo.

Segundo ele, o “integrismo religioso” e o jihadismo têm sua “própria dinâmica”, mas a pressão à que se veem submetidos os recursos, como no lago Chade, por exemplo, que “se reduziu muito em 40 anos”, constitui um “terreno fértil” para a violência e a migração da população.

Os africanos reivindicam o direito a desenvolver a agricultura baseando-se em que o continente emite muito menos gases de efeito estufa que os demais (apenas 4% do total).

Faltando um mês para o início da próxima conferência sobre o clima, a COP25, que será realizada de 2 a 13 de dezembro em Madri, os debates nos quais participarão doadores internacionais, cientistas e ONGs se concentrarão em quatro temas principais:

– A gestão do solo ou como reter o dióxido de carbono enquanto se melhora a fertilidade dos solos degradados.

– A gestão dos recursos hídricos, em particular como generalizar a rega por gotejamento para poupar água e melhorar o rendimento, inclusive nas granjas familiares muito pequena, que são as mais vulneráveis à mudança climática.

– A gestão do risco climático através de sistemas de alerta digitais, tanto para a produção, através de dados meteorológicos, como para a colheita e a comercialização.

– O acesso ao financiamento dos agricultores, em particular através do “banco móvel” (que permite transações de modo remoto com dispositivos móveis) e dos Estados através da possível emissão de bônus verdes para financiar investimentos sustentáveis.

Quatro países já desenvolveram planos de investimento prioritários, de 3 milhões a 400 milhões de dólares cada: Costa do Marfim, Mali, Marrocos e Zâmbia.