Afinal, o que querem as mulheres?

Afinal, o que querem as mulheres?

Por conta do Dia Internacional da Mulher, março tem sido aquele mês de fazer o balanço das conquistas femininas nos últimos anos. Mas as pesquisas, estudos e números que andam por aí revelam que, mesmo com todos os avanços – e não são poucos –, o cenário não mudou muito. Os homens ainda lideram a maior parte dos centros de decisão em todo o mundo. E vão continuar nessa liderança – dados do Fórum Econômico Mundial mostram que, no ritmo atual, será necessário mais um século para conseguir igualar direitos e oportunidades entre homens e mulheres.

Isso é muito ou pouco tempo? Como naquela história do copo meio cheio ou meio vazio, depende das expectativas – e da perspectiva histórica de quem observa. Nossa história de civilização tem 10 mil anos. Em décadas, um suspiro diante desses 10 mil anos, já foi possível chacoalhar crenças, costumes, hábitos e preconceitos com raízes profundas e vislumbrar uma nova ordem inédita para a humanidade, a da igualdade de gêneros. Falta um bocado, nem todo mundo está na mesma página ou usufruindo do que já foi conquistado. Natural que seja complicado.

Apesar disso – ou, vendo o copo meio cheio, por isso mesmo – a agenda segue firme e forte, universalizada pelo conceito de que os direitos das mulheres são direitos humanos, e turbinada pelas redes sociais. E, ao contrário do que o imaginário popular prega sobre as mulheres, é possível saber exatamente o elas querem.

As mulheres querem andar na rua sem medo. Poder usar o transporte público sem medo, criar meninas sem medo, viver sem medo. Querem denunciar casos de estupro ou de violência doméstica sem culpa ou vergonha e com a garantia de punição aos agressores, para não serem vítima duas vezes. Aliás, querem acabar com todo o tipo de violência contra as mulheres e poder contar com ambientes de zero tolerância ao assédio sexual no trabalho, nas escolas, em qualquer lugar aonde queiram estar.

Querem também o compromisso das empresas em revisar suas políticas de contratação, de cargos e salários, criando metas para eliminar desigualdades e obstáculos em todos os níveis. E ver os governos cumprindo as leis. Pouca gente sabe, mas no Brasil a exigência de isonomia salarial entre homens e mulheres nas mesmas posições está na CLT desde 1943, confirmada pela Constituição de 1988.

As que querem ser mães não querem ter o fardo da maternidade sozinhas. E por falar em fardo, as mulheres querem ensinar aos homens (e a algumas mulheres também) que o trabalho doméstico não é uma obrigação natural reservada a elas. A longa jornada sem remuneração, muitas vezes hereditária e vitalícia, sacrifica seus estudos, carreira e vida pessoal. As mulheres querem escolher seus destinos.

As mulheres querem, ainda, disputar e ocupar mais cargos públicos. Porque nesses espaços é que são definidas as regras para todos. Querem influir nas que as afetam diretamente para poder decidir sobre o próprio corpo, o próprio dinheiro e a própria vida. Sem tutela ou paternalismo: querem sentar nos mesmos fóruns em que pontificam hoje os homens, e liderar em conjunto.

Em resumo, as mulheres querem algo que é justo: deixar de ser cidadãos de segunda classe. E quem sabe até modificar regras nos idiomas, como a que acabo de usar, que determinam o uso da forma masculina de palavras que indicam um grupo, mesmo que ele contenha uma maioria de mulheres – como é o caso deste nosso planeta. Não é fácil, vai dar trabalho, pode até demorar . Mas um copo já meio cheio mostra que não é impossível.

 

Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à WomenCorporateDirectors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.

 

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Sobre o autor

Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à WomenCorporateDirectors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.


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