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ADIVINHE QUEM VEM PARA O JANTAR

Como lidar com um amigo que se envolveu em escândalo financeiro ou criminal? Você se afasta ou finge que não aconteceu nada? Retira o nome dele da lista de convidados para o casamento da sua filha ou envia o convite e reza para que ele não apareça? Questões como essas não estão em nenhum manual de etiqueta. Por enquanto. Ultimamente, com o aumento do número de milionários, executivos e políticos encrencados com a Justiça, novos códigos surgem para definir padrões de conduta em situações embaraçosas. Entre os especialistas em comportamento social há um único consenso: é um assunto que envolve muito mais ética e amizade do que etiqueta.

Às vezes, basta um telefonema. É a dica de Célia Ribeiro, autora do livro Etiqueta na Prática, para quem tem um amigo que virou protagonista de um escândalo. ?O ideal é nem tocar no assunto, apenas pergunte se está tudo bem. Isso já soa como apoio?, diz ela. A consultora de etiqueta empresarial Célia Leão é mais radical. ?De maneira polida, corte relações. Ainda acredito na força da frase: ?Dize-me com quem andas que eu te direi quem és?. E se for uma pessoa muito próxima? ?Continue telefonando e chamando-o para jantar em sua casa?, afirma Marlene Galeazzi, colunista social de Brasília. Agora, se você quiser convidar outras pessoas para dividir a mesa com o seu amigo que está nas páginas policiais da imprensa nacional, é bom consultá-los antes. ?Seria extremamente indelicado expor outras pessoas ao convívio com um condenado na Justiça, sem consultá-las?, diz Célia Ribeiro.



Muitas vezes, o próprio indivíduo envolvido em um escândalo prefere se afastar do convívio social. No final de maio, o empresário Luís Estevão de Oliveira, cujo mandato de senador foi cassado em meio às denúncias de desvio de verbas do TRT de São Paulo, foi convidado para o casamento da filha de um ministro do Tribunal Superior. Não compareceu. ?Não fui porque vários ministros do Supremo, do STJ e do TSE, pessoas que conheço, estariam na festa. Aí um fotógrafo pega um deles abraçado e sorrindo ao meu lado e pronto. Involuntariamente vou causar constrangimento?, diz Estevão. Ele admite que quando saiu da prisão, uma de suas maiores preocupações era saber se iria ser aceito na sociedade brasiliense.
O seu nome ainda aparece nos convites das festas da cidade,
mas não com a mesma freqüência. Contudo, sua mulher, Cleucy
e sua mãe, a socialite Marita Martins, são as primeiras nas listas
dos eventos femininos de Brasília. Ou seja, aos poucos tudo vai voltando ao normal.

 

?A verdade é que, num primeiro momento, a pessoa é banida do grupo. Esse é o protocolo do ser humano. Quem está envolvido é tratado como leproso. O regresso é muito difícil. Ele recebe telefonemas e não retorna, pois tem vergonha?, diz um profissional especializado em recuperar a imagem de quem se enrascou nos negócios ou na vida pública. A volta pode ser difícil, mas acontece.

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Quando Ricardo Mansur afundou o Mappin e gerou um prejuízo de R$ 1 bilhão, há três anos, viu seu mundo cair. Até os cavalos dos amigos, que ficavam nos estábulos da mansão de Mansur no luxuoso condomínio Helvetia, em Indaiatuba, foram retirados de lá às pressas. Pelos amigos, claro. ?O isolamento social é o pior castigo e você tem o direito de escolher se quer participar dele ou apoiar a pessoa que está sendo expulsa do grupo?, diz Célia Leão. O tempo não resolveu suas pendengas judiciais, mas os amigos voltaram. No início do ano, uma das etapas do campeonato de pólo foi disputada no campo particular de Mansur.

O ex-senador Antônio Carlos Magalhães, exilado há dois anos na Bahia, desde que renunciou ao mandato antes de ser cassado sob acusação de falta de decoro, criou sua própria regra: ?Jamais trato mal um amigo que perdeu o poder, mesmo porque ninguém é tão forte que não possa cair, nem tão fraco que não possa subir.? Nos últimos 50 anos de vida pública, ele assistiu a várias ascensões e quedas (inclusive as suas). A grande dúvida é se a derrocada de um amigo pode levar junto outras pessoas apenas por causa de suas atitudes. Afinal, é possível ser amigo, sem ser acusado de cumplicidade? ?Sim. Deixe claro que você está solidário com o momento traumático que ele vive e não com o que o levou a tal condição?, diz Célia Ribeiro.