Podcast

“Acho o Índice Bovespa muito ruim”, diz Heloisa Cruz, gestora de fundo

Crédito: Divulgação

Para Heloisa Cruz, gestora do fundo Stoxos, há muita empresa muito barata, especialmente as que têm participação menor ou estão fora do íBovespa (Crédito: Divulgação)

A convidada do novo episódio do MoneyPlay Podcast, programa voltado para o mundo das finanças, apresentado pelo educador financeiro Fabrício Duarte, é Heloisa Cruz, gestora do fundo Stoxos.

Engenheira química e analista certificada (CFA), Heloisa também trabalhou na Fator Corretora, nos bancos J.P.Morgan e Itaú, além da consultoria Guepardo. No programa, ela fala sobre como entrou para o mercado financeiro, sua estratégia de investimento e o otimismo com o cenário atual.

>>> Assista aqui o vídeo na íntegra.

Heloisa conta que sempre gostou de dinheiro. Ela se lembra de, ainda pequena, quando o pai médico voltava para casa com os cheques das consultas e ela vibrava. Mas, com o Plano Collor em 1990, seus pais adquiriram uma grande dívida e uma parte relevante se sua adolescência foi assim definida. Ali, ela decidiu que nunca iria passar por isso novamente. 

+ Não compramos o que todo mundo compra, mas buscamos ativos fora do radar

+ s pessoas são seduzidas para virar trader, caminho não vencedor na maioria dos casos

+ O legal do trade é a liberdade de poder fazer de qualquer lugar

+ É preciso separar bitcoin das outras 10 mil criptomoedas: 99% delas não valem nada

Primeiro investimento

Quando se casou, combinou com o marido que iriam poupar “loucamente”. “Sempre tentamos guardar o maior dos dois salários, mais todo 13º e quase tudo que viesse”, lembra. Com o primeiro bônus, começou a investir na bolsa.

Ela começou a estudar mais a fundo e hoje, ter a certificação CFA, uma das mais reconhecidas no mundo para profissionais do mercado financeiro. Mesmo trabalhando 14 horas por dia como consultora, chegava em casa e queria conferir os investimentos. “Em 2009, fiz o meu primeiro grande all in na bolsa e a rentabilidade da carteira foi de 270%.”

Heloisa conta que as pessoas começaram a comparar o trabalho dela com os investimentos que fazia. Se o primeiro (consultoria estratégica) era chato, o segundo remunerava melhor e todos podiam perceber que ela gostava, então sugeriram que ela mudasse de carreira para ser muito mais feliz.

Ainda hoje seu marido tem “o pé atrás” com investimentos na bolsa, mas tirando dois apartamentos – um deles onde a família mora e o outro à venda – todo o resto do patrimônio deles está na bolsa.Se não tivesse tomando todo esse risco não estaria aqui. É uma discussão que vai ter para sempre, pois ele é bem conservador”, diz.

Estratégia 

A estratégia de investimento de Heloisa é em grandes assimetrias. “Meu trabalho é essencialmente de análise, busco grandes assimetrias: empresas que possam me dar 100%, 200%”, explica. Assim, as small caps (ações de empresas de baixo valor de mercado) são uma consequência. “São empresas que têm muito mais para ganhar do que para perder.”

Um exemplo de small cap presente na carteira do fundo que Heloisa gere é Inepar. A empresa está em recuperação judicial – não tem nem operação, só ativos – ou seja, apenas administra um portfólio de processos judiciais e os ativos que precisa vender para pagar dívidas e sair da recuperação judicial para voltar a operar. “Comprei a ação a R$ 6 há uns três anos. Havia um laudo de avaliação de R$ 70 e ela chegou a bater R$ 80, mas poderia chegar a zero.”

Outro ativo que a gestora investiu foi MMX, que na decisão de um juiz foi para R$ 0. “Esse tipo de empresa tem um risco intrínseco, então você vai ter uma posição sempre pequena, ou seja, comprar poucas ações”, orienta. “Mas esse é um caso extremo de uma empresa que realmente pode ir à falência.”

Hoje, a posição principal da carteira de Heloisa é a Simpar, da JSL. Ela conseguiu montar uma posição grande a R$ 4, mas sabia que a ação valia pelo menos R$ 20. “Hoje, ela é negociada a R$ 60”, compara. 

“Com as small caps estou competindo com não profissionais. É muito mais fácil, pois pessoas físicas não têm tempo suficiente para estudar, não têm acesso à empresa, muitas vezes não conseguem entender ou não sabem fazer a conta certa ou olhar um pouquinho além daquele prejuízo do último trimestre”, compara. 

Índice da bolsa

Heloisa não gosta de pensar no ativo bolsa, porque acha o índice Bovespa (uma espécie de “termômetro” do mercado nacional de ações) muito ruim. Ele é formado por ações das principais empresas do mercado aberto de capitais. 

Ela explica que o índice é formado com 14% de ações da Vale, que acredita não ser um ativo que vá puxar a bolsa. Outra grande participação é da Petrobras, que hoje tem um cenário de guerra política. “Não é um ativo que eu tenha, apesar de achar super barato”, diz. 

Outro grande peso no índice são os bancos, que passam por uma mudança estrutural. “Há vários players ‘comendo’ um pedacinho desse negócio, de fintechs até  bancos digitais, além dos bancos que pegam um outro mercado de investimentos”, analisa. “Sobra para os grandes bancos dar crédito e eles são mais de 20% do índice. E tem todo um resto de varejo que são ações mais premium bem precificadas.”

Se o índice vai voltar aos 130 mil pontos? “Não sei dizer. Tem muita empresa muito barata, especialmente as que têm participação menor ou estão fora do índice”, aponta. “Já os fundos podem subir 10%, 12%, 15% em até três meses, mas a bolsa não tenho muita convicção.”

Rede de contatos

Heloisa trabalha praticamente sozinha. Tem dois analistas juniores que a ajudam a estruturar o trabalho, mas é ela quem faz a análise da carteira sozinha. “Como tenho três filhos pequenos, quero curtir a maternidade e não tenho condições de ter um escritório, um time, administrar pessoas, pois quero fazer do meu jeito.” 

Por outro lado, os contatos que mantém no mercado ajudam a coletar dados importantes. “Tenho muita informação que não circula na Faria Lima.” Um aluno, por exemplo, é agricultor no Rio Grande do Sul e contou tudo que a 3tentos (uma nova opção de seu fundo) faz e o que ela representa para o agricultor médio, algo que ela não teria acesso se estivesse apenas no circuito financeiro de São Paulo.  

“O tempo todo fico estudando a empresa para ter uma ideia de quanto ela vale e, assim, entender qual ação que está sendo precificada muito abaixo do que ela vale e montar uma carteira diversificada”, justifica. “Mas vejo muita gente advogando para não gastar o seu dinheiro com taxa de administração e aí a pessoa investe em algo que não entende e que não tem tempo para olhar.“

Investindo às cegas

Para ilustrar a forma despreparada com que as pessoas investem, Heloisa conta o caso de uma pessoa que queria investir em seu fundo e solicitou seus dados bancários para transferir o dinheiro. “Eu falei: nunca transfira para o CPF de alguém e expliquei sobre pirâmide, que tem essa estrutura esquisita, da rentabilidade prometida”, relembra.

O investidor ficou tão horrorizado com a forma como vinha fazendo que resolveu fazer um teste na própria empresa. Ele mandou um e-mail sobre uma bitcoin com uma rentabilidade garantida de 4% ao mês. Das 20 pessoas que lá trabalhavam, 14 deram o nome para participar, três não entraram porque estavam enroladas financeiramente e as outras três já investiam em bolsa, portanto sabiam que não tinha como dar certo.

“O trabalho de educação financeira é necessário, pois é uma questão cultural, as pessoas precisam começar a falar de dinheiro”, afirma Heloisa. “As pessoas precisam aprender em casa, mas isso não acontece porque há toda uma geração que não tem como ensinar para os filhos. Coloque seu filho adolescente para ouvir podcast, pois entender do assunto torna mais fácil ganhar dinheiro”

Otimismo

Mesmo com a bolsa instável atualmente, Heloisa não acredita que o cenário seja ruim. “Hoje, eu não vejo um problema estrutural que poderia trazer um impacto muito grande. A bolsa está caindo 20%, paciência, segue o jogo”, afirma. “Muitas coisas que são de longo prazo estão se travando, mas a gente vai colher os frutos daqui a três, quatro, cinco anos.” 

Ela aponta que o melhor programa social é a educação e ressalta a importância do ensino de educação financeira na escola. “Imagina o pobre médio do Brasil não ser endividado e ter pequenos investimentos em bolsa?”, diz. 

Como exemplo, ela conta a história de um conhecido que investiu o dinheiro da funcionária doméstica dos pais há muito tempo e, hoje, ela tem um R$ 1 milhão. Para a gestora de fundos, o desafio do investidor médio será aprender a separar o que é ruído do que é sinal. “A gente tem muito ruído, especialmente os de motivos políticos”, aponta.

Confira aqui todos os episódios do programa.