Economia

Aberta a temporada de leilões. O que sai do papel?

Período eleitoral deve limitar execução de carteira de mais de 70 projetos federais de infraestrutura e de outros ativos oferecidos pelos Estados

Crédito: Alexandre Carvalho/A2img

Vendido: Após anos de obras, o Rodoanel passa totalmente para a iniciativa privada (Crédito: Alexandre Carvalho/A2img)

No salão de leilões da B3, na capital paulista, a divulgação do resultado da rodada de concessão do trecho norte do Rodoanel paulista, na quarta-feira 10, foi recebida com um coro de surpresa entre os presentes na cerimônia. Empresários, jornalistas e o governador do Estado, Geraldo Alckmin, se espremiam para acompanhar os lances das interessadas e se surpreenderam com os R$ 833 milhões oferecidos pelo grupo italiano Ecorodovias, para administrar o trecho por 30 anos. O valor ficou 90,97% acima do lance mínimo previsto na proposta e bem superior aos R$ 518 milhões apresentados pelo segundo colocado na disputa, os italianos da Autostrade Concessões. O evento marcou a primeira concessão de ativos públicos prevista para 2018 e demonstrou que há espaço para executar leilões em meio ao ambiente adverso deste ano.

O governo federal é o maior ofertante, com 75 ativos previstos dentro do Avançar Parcerias ou Programa de Parceria de Investimentos (PPI). Mas as Eleições, a Copa do Mundo e a própria qualidade dos ativos podem ser um limitante para que os projetos saiam do papel. “Se um projeto não tiver saído no primeiro semestre, não acredito que saia”, prevê Cláudio Frischtak, fundador da consultoria de negócios InterB. Os projetos federais incluem desde campos de óleo e gás, com mais chances de sucesso, até aeroportos, rodovias e portos, que podem esbarrar em dificuldades. “Os projetos existentes não devem ter problema, mas no caso dos que têm de ser tirados do papel, fica mais complicado”, explica o CEO da consultoria Paragon, Luiz Augusto Franzese.

Na carteira, os especialistas destacam as ferrovias Norte-Sul e Ferrogrão, voltadas a escoar a produção agrícola do Norte e do Centro-Oeste até os principais portos do País. Para eles, o sucesso depende sobretudo da clareza dos editais. Consultores também citam terminais dos portos do Sul e Sudeste, particularmente os do Porto Paranaguá/Antonina, com maior potencial de retorno. Já os técnicos do PPI consideram prioridade a privatização das BRs 364 e 365, nos trechos que ligam Goiás ao Triângulo Mineiro.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, bate o martelo ao lado de representantes do setor no leilão na B3, na quarta-feira 10 (Crédito:Alexandre Carvalho/A2img)

Os processos de licitação também podem travar no rito burocrático natural, como as consultas públicas. Embora reforcem o empenho máximo, integrantes do governo reconhecem as dificuldades. “De fato, 2018 será um ano desafiador, mas não impossível”, afirma o secretário especial do PPI, Adalberto Vasconcelos. “Este será o ano das ferrovias.” Desde sua criação em 2016, o programa conseguiu repassar para iniciativa privada 70 dos 145 empreendimentos previstos, gerando R$ 142 bilhões de investimento e R$ 28 bilhões em pagamento de outorgas. Para 2018, a estimativa é que o governo possa arrecadar até R$ 14 bilhões em valor de outorga com os novos leilões.

Operadores de mercado e potenciais investidores sustentam um misto de interesse e cautela acerca dos projetos. Para o presidente da Ecorodovias, Marcelino Seras, apenas duas das oito rodovias incluídas no PPI devem sair do papel. “O importante é que o governo não pare de se esforçar”, afirma Seras. “Temos interesse nas licitações do governo federal.” Nos bastidores, o ceticismo é mais claro entre os investidores. O executivo de um grupo de investimento estrangeiro do setor, que pede para não ser identificado, acredita ser difícil executar qualquer leilão de rodovias neste ano. Para as potenciais empresas investidoras, as condições são mais favoráveis neste momento. Há mais recursos disponíveis, já que muitas reduziram investimentos durante a crise. “Agora, com a retomada da economia, elas podem aplicar esse dinheiro”, explica o economista da Fundação Getúlio Vargas, Paulo Lins.

As oportunidades vão além do governo federal. Em dificuldades, Estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul também planejam desinchar a máquina pública por meio da venda de ativos. A dúvida é se eles conseguirão atrair interessados e lances atrativos como os do leilão do Rodoanel. Em 2017, São Paulo já havia conseguido leiloar duas outras rodovias por preços bem acima do previsto. “Sobra dinheiro no mundo”, disse o governador Geraldo Alckmin no evento da B3. “Nós precisamos é de bons projetos, segurança jurídica, boa regulação e fiscalização”. Neste mês, o Estado fará mais duas ofertas: as linhas 5 e 17 do metrô de São Paulo, com leilão programado para o dia 19. Nesses casos, a distância do calendário ainda pode ajudar.