Negócios

A ZTE entra no jogo

Entre 2005 e 2010, a fabricante chinesa de celulares multiplicou por 60 seu tamanho no País. Sua nova aposta é em uma paixão bem brasileira: o futebol 

Com uma população de mais de 1,3 bilhão de habitantes, a China se transformou em uma potência esportiva. A ponto de ganhar o maior número de medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. No esporte mais popular do mundo, no entanto, sua força não é a mesma. A seleção de futebol chinesa se classificou para apenas uma Copa do Mundo, em 2002, e não tem mais chances de vir ao Brasil disputar o torneio de 2014. Isso não impede que dezenas de chineses já estejam em São Paulo se esforçando para pronunciar os nomes dos mais populares clubes do Brasil, pelos corredores da subsidiária local da ZTE, a quinta maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo e que faturou US$ 600 milhões no País, em 2010, um crescimento de 60 vezes nos últimos cinco anos.

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Estratégia vencedora: para Ávila, o foco no público de futebol já garantiu o sucesso do celular da ZTE com tevê digital



Explica-se o interesse pelo chamado esporte bretão. A empresa chinesa escolheu o futebol como forma de fazer sua marca conhecida dos consumidores brasileiros. Ela está levando às lojas celulares com cores e escudos de Flamengo, Corinthians, Pal­me­­­­i­­ras, Vasco da Gama e São Paulo, os cinco clubes de maior torcida no Brasil, com 95,3 milhões de fãs somados, segundo pesquisa do Ibope com o jornal esportivo Lance!. “Lideramos as vendas de celulares com tevê digital, com o modelo N290, que era usado principalmente para assistir futebol”, afirma o vascaíno Eliandro Ávila, CEO da ZTE do Brasil. “Com o lançamento, continuamos mirando esse público.” (leia entrevista à  pág. 88). A empresa espera vender no Brasil 5 milhões de aparelhos este ano, frente aos 3,5 milhões de 2010. O mercado deve negociar 67 milhões de unidades em 2011, segundo estimativas da empresa de pesquisas americana IDC. 

Apenas com os telefones dos clubes de futebol, a ZTE prevê vender 100 mil unidades nos próximos seis meses. O preço sugerido, de R$ 299, é peça-chave para o esquema de jogo. Afinal, o objetivo é conquistar os clientes das classes C e D. Os aparelhos têm configuração básica de um smartphone, com câmera digital, MP3 player e possibilidade de usar dois chips. Eles, no entanto, não acessam a rede 3G para navegar a internet. O objetivo é fisgar o consumidor por sua paixão. O aparelho vem com capas com as cores e distintivo do clube, tem tela de fundo com as bandeiras das agremiação e o hino oficial gravado no cartão de memória. Por enquanto, os modelos estão à venda em redes de varejo do eixo Rio-São Paulo. No entanto, consumidores de todo o País podem adquirir o celular por meio dos sites de compras. “Temos um contrato de exclusividade de 12 meses com os clubes”, afirma Dárcio Avila, diretor-comercial Zero-X, distribuidora de produtos da ZTE. 

 

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Torcida no bolso: a ZTE fechou acordo de exclusividade com os clubes de futebol mais populares do Brasil


 

Abrir espaços em campos adversários é o que a ZTE vem se especializando em fazer. Ela ficou conhecida do mundo das telecomunicações ao vender para as operadoras de telefonia móvel equipamentos para a montagem de suas redes, ganhando contratos que normalmente ficariam com as empresas europeias e americanas, como Ericsson, Nokia Siemens e Alcatel Lucent. Agora, avança no setor de aparelhos, aproveitando-se da fragilidade de algumas companhias tradicionais, como a finlandesa Nokia e a americana Motorola. No terceiro trimestre de 2011, a ZTE se tornou a quarta maior fabricante global de aparelhos móveis, com 4,9% do mercado, ultrapassando a Apple, dona do iPhone. No Brasil, as vendas de telefones já representam 40% da sua receita, que deverá chegar a US$ 780 milhões neste ano. 

 

 

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Entrevista:


“Seremos mais agressivos”

 

O CEO da ZTE do Brasil, Eliandro Ávila, concedeu a seguinte entrevista à DINHEIRO:

 

Os telefones móveis lançados para os torcedores de futebol terão fabricação no Brasil?

Eles são importados da China. No Brasil, temos produção terceirizada com a Evadin, em Manaus, para alguns poucos modelos. Mas vamos poder ser mais agressivos em termos de lançamento de produtos e posicionamento de preços, quando a nossa fábrica brasileira, em Hortolândia (SP), começar a operar, no primeiro trimestre de 2012. 

 

Qual será o foco principal dela?

Num primeiro momento, vamos produzir telefones celulares. Depois, também queremos fabricar equipamentos para redes de telefonia sem fio e redes ópticas. Investiremos na fábrica US$ 250 milhões em quatro anos. No mesmo espaço, teremos também um call center, centro de treinamento, de pesquisa e desenvolvimento, e de logística para toda a América Latina.

 

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O crescimento da empresa foi bastante rápido no País. Os celulares ajudarão de que forma a manter esse ritmo?

Em 2005, faturamos aqui US$ 10 milhões. Começamos a investir no Brasil com força no ano seguinte, e passamos a dobrar anualmente de tamanho. Agora que chegamos a US$ 600 milhões, não dá para manter o mesmo ritmo. Vamos crescer 30% em 2011, mas as nossas vendas de telefones vão subir 50%.

 

A ZTE deseja passar de aparelhos de mais baixo custo para os smartphones, como forma de aumentar a receita por aparelho vendido?

Isso será importante não só para ampliar o faturamento, mas também para ganharmos reconhecimento de marca. Anteriormente tínhamos apenas os telefones mais simples. Agora chegamos aos intermediários e mais sofisticados. O lançamento este ano de um tablet próprio, o V9, veio até para consolidar esse novo foco.

 

O ano foi difícil para a venda de equipamentos para a infraestrutura das operadoras de telecomunicações, o principal negócio da ZTE?

Sim. A expectativa de investimento para este ano era maior do que realmente aconteceu. Vivo, Claro e Oi estiveram envolvidas em processos de integração de suas operações. Agora vão ter de recuperar o tempo perdido nos próximos dois anos, a tempo da Copa das Confederações e da Copa do Mundo.