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A virada de jogo dos bancos americanos

Crédito:  Creative Commons Zero - CC0

Não resta dúvida de que os principais bancos americanos foram os grandes culpados da chamada Grande Recessão, que devastou a economia americana na última década. Não somente os bancos americanos, verdade seja dita. Vivi isso na pele trabalhando para bancos europeus, que seguiram pelo mesmo caminho.

As mesas de operações sempre tiveram a sua dose de físicos e matemáticos. No entanto, naquela época, os pobres mortais economistas, administradores e até os engenheiros passaram a ficar cercados cada vez mais de gente trabalhando em diagramas e equações matemáticas além da compreensão comum. Para um profissional de banco, era difícil entender o que estava sendo desenvolvido nas áreas de crédito chamado “estruturado”. Assistir ao filme ‘The Big Short’ (‘A Grande Aposta’, em português) me dá arrepios até hoje – assim como qualquer coisa que traga a palavra “estruturado” no nome.

Fórmulas matemáticas, produtos criativos e gente inteligente sempre foram características de instituições financeiras bem-sucedidas. O problema acontece quando a matemática, a criatividade e a inteligência dão um nó nos princípios básicos da operação bancária. Não sou adepto a simplificar demais as coisas, pois isso gera uma certa banalização de conceitos que são essencialmente complexos. No início dos anos 2000, porém, os bancos americanos passaram por cima de conceitos que existem desde que os Médici começaram a emprestar dinheiro a juros na Itália do século XV. São os chamados ‘C’ do crédito: Caráter, Condições, Capacidade, Caixa e Colateral.

Os produtos bancários do início do século XXI negligenciaram o caráter do tomador, afrouxaram as condições dos empréstimos e enganaram-se em relação à capacidade de pagamento, além de não olharem para o caixa e sobrevalorizarem o colateral. Quando esse castelo de cartas ruiu, o governo americano precisou organizar o salvamento e os reguladores vieram com toda força.

Hoje, como consequência, a situação é bastante diferente.

A safra de balanços dos bancos americanos publicada na primeira quinzena de janeiro de 2020 mostra instituições extremamente bem capitalizadas e rentáveis, que fizeram a lição de casa e se transformaram em operações geradoras de lucro recorrente e crescente, sem truques.

O JP Morgan, por exemplo, mostrou uma evolução de cerca de 17% nas receitas de banco de investimentos entre 2016 e 2019. A receita com gestão de ativos de terceiros teve a mesma evolução. Essas duas atividades são pouco intensivas em capital e contribuem muito positivamente para o RoE. A margem financeira cresceu 24% em valores absolutos no mesmo período. Por outro lado, os custos cresceram bem menos: a despesa com provisões para devedores duvidosos se manteve praticamente estável ao longo do tempo (apesar do crescimento da carteira de crédito) e, excluindo gastos com marketing e tecnologia, as despesas administrativas cresceram 13%. Isso tudo se transforma em lucro operacional crescente.

Com maior ou menor intensidade, os balanços dos principais bancos americanos (excluindo Wells Fargo, mais atrasado na recuperação porque se envolveu em outros truques além dos de crédito) mostraram a mesma dinâmica. E o mercado, finalmente, percebeu isso.

A pergunta que fica é se essa dinâmica continuará assim. Na minha visão, sim. Os bancos têm capital suficiente para continuar a crescer suas atividades de banco comercial, banco de investimentos e gestão de ativos. A economia segue em expansão e ainda existe muito espaço para ganhos de eficiência. A diferença, agora, é que algumas ações têm maior potencial de valorização que outras.

O JP Morgan é o ‘best in class’. É uma operação bancária superior a qualquer outra, na minha visão. O problema é que o preço da ação, após a recente valorização, já está mais próximo do seu valor intrínseco. Papeis do Citibank e Bank of America, entretanto, ainda possuem grande potencial de valorização.

Confesso que, mesmo depois de mais que dobrar o capital investido e considerar tudo o que escrevi no parágrafo anterior, tenho pena de vender ações do JPM. Difícil encontrar empresa tão bem gerida. Jamie Dimon foi e continua sendo imbatível com sua estratégia de balance sheet fortress (fortaleza de balanço, em tradução livre). Assim, o correto a fazer no meu caso parece ser diminuir paulatinamente a posição em JPM (sem vender completamente) e aumentar gradativamente o investimento em C e BAC. Se eu fosse iniciar um investimento no setor neste momento, no entanto, talvez não comprasse as ações do JPM a US$ 140.

E as Fintechs? Elas estão aí e, sem dúvida, fazem muito barulho. Há projetos muito interessantes em vários aspectos da atividade bancária: meios de pagamento, crédito e investimentos, entre outros. Em fevereiro prometo dedicar um texto às novidades deste setor, depois de participar de um evento já tradicional aqui em Nova York promovido pela NYU. De imediato, posso adiantar que não consigo visualizar uma ameaça imediata aos grandes bancos atualmente que não possa ser absorvida por eles.

A atividade bancária bem-sucedida é o resultado da junção harmoniosa e eficiente entre capital, pessoas e processos, em benefício do cliente. Do contrário, é truque. Acho que os principais bancos americanos aprenderam essa lição – e estão criando valor. Fazendo uma alusão a uma metáfora que os brasileiros conhecem bem, acredito que quem estiver fora desse jogo vai perder de 7 a 1.