Negócios

A virada da JBS

Depois de superar a mais grave crise de reputação da história, a companhia vive seu melhor momento, com recorde de faturamento e rentabilidade, além de alta de 150% no valor de suas ações neste ano. Sob comando de Gilberto Tomazoni, ex-BRF, a empresa, que vai fechar o ano com receita superior a R$ 190 bilhões, quer se consolidar como uma gigante global de alimentos

O silêncio das ruas e a vida tranquila dos 14 mil moradores da cidade de Brooks, no interior do Estado de Alberta, no Canadá, contrastam com o frenético ritmo de produção da fábrica da JBS nos arredores do município. A unidade, comprada pela companhia brasileira em 2014, abate mais de 4,2 mil animais por dia, abastece cerca de 80% do mercado local e exporta para Estados Unidos, Ásia e Europa. De lá saem, por exemplo, 2,4 milhões de hambúrgueres diariamente, além de cortes dignos de capa de revista de gastronomia de raças como angus, hereford e simental, entre muitas de genética europeia. Nos corredores e nas linhas de produção da fábrica, com seus 4,8 mil funcionários, se misturam 80 nacionalidades e pouco mais de cem idiomas e dialetos. Do lado de fora, o entra-e-sai de caminhões sinaliza que a planta está em sua plena capacidade. “Estamos girando a fábrica com 100% de nossa capacidade, dentro dos limites seguros de produção”, afirmou Celio Fritche, gerente-geral da unidade. “Cerca de cinco mil produtores rurais canadenses abastecem nossa planta, considerada uma das melhores em produtividade em todo o mundo”, acrescentou o presidente da JBS Canada Beef, David Colwell.

Fábricas: a unidade de Brooks (foto à esq.) e a do Texas suprem grande parte da demanda de Canadá e EUA (Crédito:Divulgação e Julio Bittencourt)

A fábrica da JBS em Brooks simboliza o momento que a companhia atravessa globalmente. Depois de superada a mais grave crise de imagem desde sua fundação há quase 70 anos, a JBS contabiliza números recordes. Seu valor de mercado, que recuou para R$ 16,3 bilhões, em maio de 2017, mais que quintuplicou para os atuais R$ 82,5 bilhões. Naquele ano, a empresa perdeu cerca de R$ 3,5 bilhões em valor de mercado, ao expor o envolvimento de Joesley Batista, dono da companhia, em casos de corrupção. Durante o processo de delação premiada do empresário, a ação da companhia na bolsa de São Paulo foi a R$ 5,98, em 22 de maio de 2017. Em 5 de setembro deste mês, fechou a R$ 30,24, a máxima histórica. Nos oito primeiros meses deste ano, as ações subiram 150%. Desde que a delação premiada dos irmãos Batista derrubou o Ibovespa, a ação se valorizou quase 290%. E os bons números estão em trajetória de alta. O faturamento, de R$ 181,7 bilhões de 2018, é estimado em R$ 191,9 bilhões para este ano. “A JBS viveu um pesadelo. Na noite em que o escândalo se tornou público, ninguém dormiu”, disse o sócio da Alaska Investimentos, Ney Miyamoto, ao relembrar em encontro com empresários em São Paulo o episódio do vazamento do áudio de diálogo entre Joesley e o então presidente Michel Temer.

A virada da JBS, capitaneada pelo CEO global, Gilberto Tomazoni, ex-presidente da BRF, passa não só pelo script de expandir a presença em mercados consumidores importantes, mas por uma cartilha de mudança de cultura. O objetivo, segundo o executivo, é converter uma empresa de carnes em uma gigante global de alimentos, com marcas mais conhecidas e rentáveis – a JBS já é, aliás, a segunda maior empresa de alimentos do mundo, atrás apenas da suíça Nestlé. “O processo de transformação da companhia segue a cartilha de investir em inovação, montar o melhor time possível, buscar excelência em todos os processos de produção e ter a obsessão de sermos, o tempo todo, os melhores nos mercados em que atuamos”, afirmou Tomazoni.

Irmãos Batista Wesley (à esq.) e Joesley se afastaram de funções administrativas da JBS depois das delações em 2017 (Crédito:Joao Castellano / Ag. Istoe)

A empolgação do CEO da JBS ficou visível durante o JBS Day, evento realizado na bolsa de Nova York (Nyse), na primeira semana deste mês. Acompanhado por Wesley Batista Filho, presidente das operações da JBS na América do Sul, e Guilherme Cavalcanti, CFO do grupo, Tomazoni se reuniu com investidores e analistas de bancos internacionais. Graças à forte redução do endividamento nos últimos anos, o mercado dá como certa a abertura do capital da JBS também na bolsa americana no primeiro semestre de 2020. A empresa, no entanto, não revela sua estratégia ou prazos. “O que posso dizer é que a JBS está muito bem posicionada para aproveitar a alta do consumo global de proteína”, disse Tomazoni. “Vamos crescer na geografia e onde nós estamos, para ganhar sinergia e escala. A população mundial vai aumentar em 2,8 bilhões de pessoas até 2050, o que deve demandar uma alta de 70% na produção de proteína.” Desde abril, todas as operações da JBS estarão em conformidade com os requisitos de auditoria e compliance sob a lei contábil americana Sarbanes-Oxley, segundo afirmaram executivos da JBS em teleconferência durante o resultado trimestral da companhia.

Além de suprir a crescente demanda global por proteína e alimentos, a JBS está focada em agregar valor às suas marcas. No Brasil, esse processo já está em curso com a Seara, líder em aves e suínos, adquirida por R$ 5,8 bilhões da Marfrig, em 2013. “Não adianta tentar concorrer com produtos da base do mercado, acreditando que é possível manter a rentabilidade assim. Baixar preço é fácil, mas isso não traz resultados no longo prazo”, disse Tomazoni. “O mercado está favorável, temos um time experiente e estamos no melhor momento da nossa história. Nosso objetivo é expandir em margem e faturamento, com foco na excelência operacional, inovação e com crescimento orgânico e inorgânico”, acrescentou.

O plano de gourmetizar suas marcas inclui fortalecer os negócios com carnes pouco consumidas pelos brasileiros, especialmente de animais da raça angus, que hoje representa menos de 2% das vendas totais do mercado brasileiro. A ideia é ampliar a presença de etiquetas como Maturatta, 1953 (ano de fundação da companhia), Black e Swift no varejo. A mesma tática vale para os mercados de Austrália, Europa e Estados Unidos, onde domina a marca Pilgrim´s.
Outra importante frente de negócio é a carne vegetal. Desde maio, a JBS produz e vende seu próprio hambúrguer vegetal com sabor, textura e aparência de carne. A novidade, chamada de Incrível Burger, uma divisão da Seara Gourmet, é produzido com ingredientes como soja, beterraba, alho e cebola. A companhia também possui outra opção no segmento, lançada anteriormente, o Hambúrguer Mix de Cogumelos. “Nós produzimos aquilo que as pessoas querem consumir. Se a tendência de parte dos consumidores é substituir a proteína animal pela vegetal, vamos fazer”, diz Tomazoni. “Nosso produto, por meio de nossas avaliações de degustação às cegas, tem se mostrado muito superior que o da concorrência”, afirmou.

A revolução vegana e vegetariana tem levado não apenas as pessoas a reduzirem o consumo de proteína animal, como também instigado os consumidores a saber a origem dos produtos que ingerem e qual é o impacto da cadeia produtiva para o meio ambiente. Com a busca incessante por uma alimentação saudável, gigantes do mundo da alimentação devem voltar, cada vez mais, esforços para esse tipo de consumidor. “Estamos observando a inserção de todas as marcas grandes nesse mercado. A JBS, a Marfrig e a BRF estão olhando possibilidades para esse público. Eles têm uma rede de distribuição desenvolvida e já sabem trabalhar com produtos refrigerados. Do ponto de vista comercial é algo que faz bastante sentido”, diz Maria Alice Narloch, analista de pesquisas da consultoria Euromonitor. “Todos querem experimentar esses produtos à base de plantas. Alguns por curiosidade, outros por estilo de vida”, acrescenta Cristina Souza, diretora-executiva e fundadora da GS&Libbra, consultoria de estratégia e gestão em foodservice.