A vertigem do consumo midiático

A vertigem do consumo midiático

Fiquei três dias fechada em reuniões de trabalho num local isolado, com baixa conexão, sem muita chance de olhar as infindáveis mensagens que recebo nas várias plataformas midiáticas. Por um lado, tivemos a oportunidade de mergulhar sem interrupções nas discussões; por outro lado, quase mil mensagens me esperavam ao final. Não foi uma exceção. Apenas um dos grupos de Whatsapp do qual faço parte acumulou, no último ano, 45 mil mensagens e 15.470.000.000 bytes.

Por algum tempo me orgulhava por não participar assiduamente de grupos em plataformas digitais. Entendia como uma distração. Recusava muitos convites e ainda me dava ao trabalho de explicar minhas razões. Porém, num país onde 79% dos brasileiros tem no WhatsApp sua fonte primária de informação e 60% o utilizam para trabalhar, pretender estar fora ou pouco envolvida significa muito mais do que um simples posicionamento. Como não estar no grupo de pais da sala do seu filho? Como se recusar a participar de um grupo profissional no qual oportunidades e conteúdos relevantes são compartilhados?

Nunca tivemos tanto acesso a tantos conteúdos: Bons e ruins. Profissionais e pessoais. Genéricos e especialistas. Eles chegam por inúmeras portas de entrada. No meu caso, na sua maioria, pelo Whatsapp, e-mail, LinkedIn, Zoom, Facebook, Instagram, nessa ordem. Textos, imagens e vídeos cada vez mais abundantes e onipresentes.

Sempre fui curiosa e sedenta por informações e por tecnologia. Valorizo conteúdos de qualidade. Tanto para aprender ou apenas para me entreter. Porém, ainda assim, nessa sociedade hiperconectada, só consigo consumir uma pequena fração do que me chega. Todas as vezes que recebo o link ou arquivo para um vídeo ou texto que me interessa, o salvo rapidamente numa pasta criada para esse fim. Foi a forma que encontrei, a priori, de lidar com o desconforto de estar deixando passar conteúdos relevantes, e de tentar, inutilmente, contornar uma quase vertigem diante da avalanche de conteúdo que segue chegando a mim.  Depois, com calma, volto a eles. Ainda assim, a pasta só cresce e a sensação que a grande maioria nunca será lida também.



E a tendência é que o volume de conteúdo aumente. Vivemos a era do inbound marketing, onde o conteúdo relevante é usado como isca para atrair clientes, usuários, construir reputações e autoridade. Por isso, empresas se engajam também na produção de conteúdo, com  textos cada vez mais bem elaborados e frequentes em seus blogs, sejam em artigos breves ou e-books e white papers, que se aprofundam em diferentes temáticas.

E só falamos, até aqui, do que nos chega involuntariamente, mas existe todo um outro universo “on demand” absolutamente sedutor. Tanto pela perspectiva de descobertas voltada aos nossos interesses, como pelas recomendações que nos instigam a consumir mais e mais conteúdos que emergem do nosso comportamento midiático (traqueado pela inteligência artificial das plataformas). São sugestões de filmes, músicas, podcasts, documentários, dentre outros.

Além disso, a conveniência desses serviços e o custo relativo baixo, amplia inexoravelmente suas bases de usuários. Netflix, YouTube e Pinterest são algumas das que me fisgam, mas a lógica funciona para qualquer plataforma minimamente equipada com algoritmos.

Talvez tudo isso, em partes, explique por que a leitura de livros vem caindo nos últimos anos – o Brasil perdeu mais de 4,5 milhões de leitores, em 2019. Falta tempo para os livros? É uma hipótese. Mas, eventualmente, as pessoas estejam lendo até mais, mas em outros formatos.

Mas não tem almoço grátis. Não é novidade que tudo o que fazemos nessas plataformas é meticulosamente registrado e se transforma em matéria-prima para anúncios publicitários. Contudo, em última análise, é nosso o discernimento se compramos, consumimos, ou não – a não ser que seja uma criança, mas esse é um assunto para outro artigo.

Por fim, conteúdo disponibilizado, em especial os gratuitos, raramente são isentos, mas tendo qualidade, não há problema nisso, desde que se tenha consciência desse viés e senso crítico. Assim, o importante é saber refinar nossa própria curadoria e não aceitar qualquer conteúdo como verdade e prioridade absolutas.

*  Cecília Andreucci é conselheira de administração, mestre em consumo e doutora em comunicação.

 

 

 

Veja também

+ 5 benefícios do jejum intermitente além de emagrecer
+ Jovem morre após queda de 50 metros durante prática de Slackline Highline
+ Conheça o phloeodes diabolicus "o besouro indestrutível"
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais
+ Mulher finge ser agente do FBI para conseguir comida grátis e vai presa
+ Zona Azul digital em SP muda dia 16; veja como fica
+ Estudo revela o método mais saudável para cozinhar arroz
+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago
+ Cinema, sexo e a cidade
+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel


Sobre o autor

Conselheira de administração, mercadologista, mestre em consumo e doutora em comunicação, Cecília Andreucci é especialista em estratégias corporativas e mercadológicas. Com mais de três décadas como executiva em empresas nacionais e multinacionais, em especial nos segmentos de consumo, varejo e consultoria. É professora universitária em programas de pós-graduação


Mais posts

Invasão de privacidade liberada?

Imagine essa situação corriqueira: você tem algo a fazer, seja profissional ou pessoal, que depende de uma informação. Uma simples [...]

O “novo normal” e o (re)propósito da casa

A expressão “novo normal” vem sendo exaustivamente usada, nos últimos meses, quando se percebeu que o Coronavírus havia impactado de [...]

COVID-19 e as mudanças forçadas nos hábitos de consumo

O Brasil e o mundo sofrem com os impactos do coronavírus. O principal deles, naturalmente, é o relacionado à saúde: milhares de [...]

Existe consumo com sustentabilidade ambiental?

O consumo é um conceito que vai muito além do “consumismo” ou do consumo de produtos tangíveis, em especial os encontrados no varejo. [...]

Black Friday: momento para vender mais e movimentar a economia do País

A segunda principal data do calendário varejista brasileiro está chegando e já é adotada por outros segmentos e para reforçar o [...]
Ver mais

Copyright © 2021 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.