Negócios

A universidade da disrupção

A Singularity University, escola de inovação do Vale do Silício, terá campus em São Paulo com uma questão-chave: Até os pessimistas vão se render ao otimismo com o futuro que os seus professores ensinam?

Fundadores geniais: Peter Diamandis (acima) e Ray Kurzweil (abaixo) criaram a escola de inovação californiana para mudar a forma como pensamos sobre o futuro (Crédito:Divulgação)
Gregg Segal

Já foi dito que, mais do que um lugar, o Vale do Silício é um estado mental, uma forma de abordar os negócios e as inovações. A criatividade que permeia as startups e invenções que tornaram a região da Califórnia famosa no mundo todo tem relação com as empresas fundadas lá, como Google, Apple, HP, Facebook, Intel, Netflix e Tesla. Mas talvez elas nem existiriam se não fosse pela forte cultura educacional da região, ilustrada pela tradicional Universidade Stanford, de 134 anos.

A grande novidade de ensino da última década, no entanto, responde pelo nome de Singularity University e tem uma história muito mais recente. Localizada dentro do Parque de Pesquisas da Nasa, em Santa Clara (próxima da Stanford e da sede do Google), ela surgiu em 2009 da cabeça de dois visionários nova-iorquinos. São eles o engenheiro, médico e físico Peter Diamandis, conhecido por criar o prêmio de exploração espacial da Fundação X Prize, e o diretor de engenharia do Google, inventor e futurista Ray Kurzweil, que causou polêmica mundial em 2002, quando revelou que o seu objetivo era não morrer e que imaginava que isso seria possível.

A abordagem vanguardista da nova instituição conquistou pessoas de negócios de todo o mundo. Mas, para os brasileiros, virou um verdadeiro frenesi. A empreendedores e principais executivos do País, parece que não existe nada melhor para entrar no estado de espírito que representa o Vale do Silício do que cursar a Singularity. Um exemplo é o da Dasa, grupo de laboratórios diagnósticos dono do Delboni Auriemo e do Lavoisier. Dez executivos, incluindo o CEO e sócio, Pedro Bueno, e dois conselheiros, Alexandre de Barros e Romeu Domingues, cursaram por quatro dias o programa de Medicina Exponencial, na Singularity, num investimento feito pela empresa há três anos. “Depois do curso, demos uma acelerada no processo de inovação na empresa, e avançamos na implementação de Inteligência Artificial e na pesquisa de usos de 3D, realidade aumentada e robótica”, afirma Domingues, presidente do conselho de administração da Dasa.

Desbravador: o vice-presidente da Singularity, Thomas Kriese, coordena o projeto de chegada ao Brasil (Crédito:LolaStudio / Zen)

Em 10 anos, mais de 1 mil brasileiros se dirigiram à Califórnia para realizar seus cursos, como o Programa de Soluções Globais (rebatizado no ano passado como Programa de Startups Globais) e o Programa Executivo, que podem custar US$ 20 mil, por seis semanas de aulas presenciais. Thomas Kriese, vice-presidente da Singularity, diz que fora dos Estados Unidos, o Brasil tem a maior representação de alunos. “Os brasileiros participavam do curso e depois convenciam os amigos”, afirma. “Chegou ao ponto de precisarmos limitar o número de brasileiros por classe. Eles gostavam do conteúdo, mas sentiam que estavam no Brasil e que o curso deveria ser algo mais multicultural.”

PARCERIA COM HSM A partir de 2020, isso não será mais uma preocupação. A Singularity está chegando ao Brasil. Mais especificamente a São Paulo, com expectativas de ter a primeira turma no início do próximo ano. Em parceria com a HSM, do grupo Ânima Educação, ela finaliza a escolha de um local para o campus. “Se não chegarmos a 16 mil alunos brasileiros, sentirei que fracassei no meu plano de trazer o programa ao País”, afirma Kriese. “Tornando o conteúdo disponível em português e no Brasil, podemos chegar não só ao topo executivo das empresas, mas também atingir os empreendedores e a gerência média de grandes organizações.”

Na sexta-feira 4, deve ser finalizada a certificação do corpo docente brasileiro, que deve incluir 15 nomes dentre mais de 100 pessoas avaliadas, segundo Guilherme Soárez, vice-presidente de crescimento e educação continuada da Ânima Educação. Esse processo foi realizado em três fases, com visitas à sede da Singularity, aulas on-line sobre a sua história, treinamentos de apresentação em público e análise de projetos e de palestras dos candidatos. “Buscamos pessoas que realizaram algo. Não basta ter aprendido por um vídeo na internet e contar a história dos outros”, afirma Soárez. “Pode ser um executivo, um empreendedor ou um pesquisador de ponta. Mas é necessário ter também muito boas habilidades de comunicação, capacidade de passar mensagens de forma inspiracional e de levar as pessoas da plateia à ação.”

A unidade fará parte de um ecossistema global de estudos e ensino, que inclui também os campi da Singularity em Copenhague, Amsterdã, Johannesburgo, Lisboa, Milão, Toronto e Sidney. Os professores e alunos brasileiros deverão ajudar na troca de conhecimentos entre países. O campus em São Paulo deve ter entre 3 mil e 5 mil metros quadrados, e deve abrigar também outros parceiros. Escolas de programação, de design thinking e de mindfulness estão sendo procuradas para se estabelecer no local. Também foram convidadas empresas e fundos de investimentos, além de startups, para apoiar algumas das áreas de estudos da unidade brasileira.

Foram identificadas oito áreas de foco para a unidade nacional. Metade delas tratará de grandes dificuldades do país em comparação com o mundo desenvolvido: saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. “Se usarmos um pensamento linear e analógico, levaremos até 2070 para resolvermos esses problemas”, diz Soárez. “E, sem superarmos essas dificuldades, não teremos nenhuma chance no mercado global.” As quatro disciplinas restantes são oportunidades de liderança global para o Brasil, incluindo agricultura, energia, meio ambiente e serviços financeiros.

Pupilo: Romeu Domingues, presidente do conselho da Dasa, aplicou na empresa alguns conceitos aprendidos na Singularity (Crédito:Felipe Fittipaldi)

Essa abordagem otimista quanto ao futuro faz parte do DNA da escola e ajuda a explicar o interesse dos brasileiros por ela. Afinal, uma das coisas mais em falta no País tem sido exatamente isso. Kriese cita uma estatística do Boston Consulting Group que descobriu que 72% dos brasileiros deixariam o País se tivessem essa possibilidade. “É um grande problema, porque as pessoas que querem sair não são aquelas que estão sofrendo. São as que têm mais capacidade de ter sucesso em outros lugares”, afirma o executivo. “Então, buscamos mostrar ideias para incentivá-las a acreditar num futuro melhor aqui no Brasil.”

O otimismo da Singularity está baseado no fato de que, mesmo com todas as más notícias pelo mundo, as macrotendências mostram que menos pessoas estão abaixo da linha da pobreza e passam fome do que no passado. “O medo das pessoas falharem e das repercussões externas de tentarem algo novo é o que faz elas ficarem presas ao status quo, ou a desejarem voltar a um tempo em que as mudanças não eram tão rápidas”, afirma Kriese. “Mas acredito que as pessoas se esquecem de como o mundo era duro no passado.”

Para a Singularity, o futuro será de abundância. A energia será gratuita, com os avanços na captação de energia solar. Metade das doenças do mundo desaparecerá, por estarem ligadas ao consumo de água não potável. E o transporte será cada vez mais inteligente. “As empresas precisam pensar em como vão operar neste mundo de abundância”, diz Kriese. “Tudo isso está a nosso alcance.” Agora, para o brasileiros, o alcance será ainda mais facilitado, com a chegada da escola ao País.