Economia

A Terra ficará mais plana?

Desaceleração estrutural da China e recuperação moderada das economias emergentes tentem a produzir um equilíbrio maior entre as taxas de crescimento, nivelando a alta do PIB em diferentes países

A Terra ficará mais plana?

A turma que afirma ter provas de que o nosso planeta não é esférico e sim plano como uma bandeja ganhou terreno em 2018. É verdade que os “terraplanistas”, com suas teorias que ignoram mais de meio milênio de descobertas científicas, terminaram o ano ridicularizados e tornaram-se pouco mais que memes nas redes sociais. Mas nem tudo nessa crença é tão absurdo quanto parece. Em 2019 os fatos da economia tendem a comprovar que a Terra está ficando de fato mais achatada — pelo menos do ponto de vista das taxas de crescimento. A explicação está na tendência global de desaceleração da atividade econômica, o que tende a produzir variações mais homogêneas nos ganhos e perdas das mais diversas nações.

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Com os altos e baixos de cada mercado tendendo à estabilidade, a curva de crescimento dos diferentes PIBs será quase linear, portanto, mais plana. “O mundo está em uma nova fase do ciclo global de crédito. Há menos liquidez. Os Estados Unidos estão fortes, mas o que eventualmente acontecer no restante do mundo por causa desse novo momento, pode afetar a economia americana”, afirma Desmond Lachman, economista do American Enterprise Institute (AEI) e ex-vice-diretor de Políticas de Desenvolvimento do FMI. Um encolhimento global, ainda que não ocorra na forma de uma crise profunda, pode redesenhar o mapa-múndi e dar novos contornos à economia em 2019. É aí que uma visão terraplanista se impõe.

Os indícios dessa horizontalização estão resumidos em um prospecto do Banco Mundial intitulado “The turning od the tide?” (em português, “A mudança da maré?”), que descreve o próximo biênio como menos favorável ao crescimento econômico. “Após atingir 3,1% em 2017 e 2018, espera-se que o crescimento global se modere“, afirma o relatório. As razões para esse prognóstico são conhecidas: Estados Unidos em guerra comercial com a China, Brexit, Itália em atrito com a União Europeia, desaceleração da Alemanha coincidindo com a saída de Angela Merkel e fuga de capitais das economias em desenvolvimento. “Para enfrentar esses riscos e impulsionar o crescimento de longo prazo, os formuladores de políticas precisam acelerar as reformas para aumentar a competitividade, adaptar-se às mudanças tecnológicas e promover a abertura comercial”, recomendam os economistas do banco. Como nada disso será feito da noite para o dia, a aceleração deverá ficar para 2020, ou além. Este ano, ainda segundo o Banco Mundial, “apenas em uma minoria de países a atividade econômica terá um impulso significativo”.

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Para deixar ainda mais clara sua expectativa de arrefecimento, os analistas da instituição deixam um alerta quanto à escalada das restrições comerciais que poderiam inviabilizar o comércio internacional, trazendo consequências adversas para os mercados emergentes. “Estamos diante de um cenário global mais desafiador para o mundo emergente: riscos da continuação da guerra comercial, mais protecionismo e um processo de redução de liquidez. Isso tudo permeado pelo ritmo menor nos EUA e principalmente na China”, avalia o economista Silvio Campos Neto, sócio da consultoria Tendências.

Xi Jinping: segunda maior economia, a China está diminuindo seu ritmo. Redução na compra de commodities pode afetar a balança comercial de muitos países

INVESTIMENTO E DEMANDA “O mundo está desacelerando. No caso dos EUA, o crescimento que estava sendo registrado, acima de 3%, era insustentável. Então, uma desaceleração por lá é até bem-vinda. O que importa saber é se ela vai ser suave ou abrupta. E isso ainda é uma incógnita”, diz Ben May, economista da consultoria britânica Oxford Economics. Enquanto os analistas colocam em xeque o futuro da economia, o Fundo Monetário Internacional parece otimista, reafrmando que o mundo crescerá 3,7% em 2019 – pelos cálculos do FMI, a mesma taxa do ano passado. Ainda assim, o Fundo admite que a incerteza causada pelas disputas comerciais “poderia levar as empresas a adiar ou abandonar os gastos de capital e, portanto, diminuir o crescimento do investimento e da demanda”.

Em outras palavras, há razões presumir que o ano que começou na terça-feira passada tem menos chances de surpreender positivamente do que o contrário. “Com a alta dos juros do Fed, o dólar estará forte no início do ano e isso dará continuidade para a fuga de capitais de economias emergentes, como na Argentina e Turquia. Mas à medida que o ano passa, os EUA devem enfraquecer e o dólar também”, calcula o britânico May. “A China também está diminuindo seu ritmo e, como nos EUA, isso é uma coisa boa, pois crescer demais pode ser mais prejudicial do que crescer aos poucos”, afirma. Como na China o governo controla tudo, um hard landing é pouco provável. “A China é a seguda maior economia do mundo. Se eles desacelerarem abruptamente, o efeito será recessivo em todo o planeta”, diz Silvio Campos Neto, da Tendências. Um primeiro efeito já é bem claro para as economias emergentes: a queda na demanda por commodities. “Se o mercado chinês reduzir a compra desses produtos, muitos países, fortemente dependentes, certamente irão ter problema na balança de pagamentos e na sua principal fonte de entrada de capital”.

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E de que forma essa previsão de crescimento moderado aproxima o resultado do PIB em diferentes países? A resposta está na ausência de fatores que possam produzir grandes números, para cima ou para baixo. A consequência, concordam os analistas, é que em 2019, e nos próximos anos, teremos um crescimento suave e bem menor do que estávamos acostumados. Levando em conta 21 países que merecem ser observados ao longo de 2019, independentemente do tamanho de suas economias (confira o mapa ao alto), as variações do PIB em cada um deverá oscilar apenas um ponto percentual, para cima ou para baixo, na comparação com a estimativa feita no ano anterior. Ainda que a China cresça perto de 6% este ano, a variação sobre o crescimento anterior é quase nula. Duas exceções são o Brasil, cuja crescimento pode ir além de um ponto percentual sobre o obtido em 2018, e o Chile — neste caso, com uma variação negativa.

Com reportagem de Leonardo Motta