Negócios

A saúde encontra o luxo

Rede D’Or investe mais de R$ 1 bi no lançamento da bandeira STAR para elevar o padrão de requinte hospitalar e concorrer com as grifes Albert Einstein e Sírio-Libanês

Crédito: Claudio Gatti

Sonho de médico: o oncologista Paulo Hoff, responsável pelo projeto do hospital Vila Nova Star (torre ao fundo), da rede D'Or: “Aqui temos vários equipamentos inéditos na América Latina” (Crédito: Claudio Gatti)

Desde os anos 1990, duas grifes hospitalares são sinônimo de em tratamento médico de alta qualidade no Hemisfério Sul: o Hospital Israelita Albert Einstein e o Sírio-Libanês, ambos em São Paulo. Ambos são conhecidas também pelo luxo de suas instalações. Agora, a carioca Rede D’Or, do empresário Jorge Moll, quer acirrar essa briga pelos pacientes de maior renda. Com um faturamento de R$ 10 bilhões no ano passado e uma operação espalhada por 42 hospitais e 35 clínicas oncológicas, o grupo alcançou um crescimento vertiginoso nesta década. A empresa atingiu 6,6 mil leitos dos cerca de 30 mil oferecidos pelos hospitais privados.

Para conquistar a classe “Triplo A”, a Rede D’Or criou a bandeira de luxo Star, que consumirá R$ 1 bilhão em seus três primeiros aportes. O investimento está bem materializado no hospital Vila Nova Star, que custou R$ 350 milhões, apresentado nesta semana à comunidade médica, políticos e imprensa, com previsão para entrar em operação a partir da terça-feira 28. Em dois anos, uma torre foi erguida no meio da Vila Nova Conceição, bairro residencial nobre de São Paulo. Em sua volta, estão redutos de endinheirados: Ibirapuera, Moema, Itaim Bibi, Jardins e Vila Olímpia. A localização é estratégica para atingir o público desejado: os cerca de um milhão de pessoas que utilizam planos executivos ou capazes de pagar tratamentos dispendiosos.

A primeira iniciativa nessa linha foi o Copa D’Or, no Rio de Janeiro, em 2016. O próximo, em Brasília, é o DF Star, com lançamento previsto para junho. O projeto é encabeçado pelo oncologista Paulo Hoff, que a rede D’Or buscou na concorrência a peso de ouro. Referência internacional no tratamentos de câncer, o médico fez a fama da equipe de oncologia do Sírio-Libanês. Na semana passada, Hoff circulava pelo novo hospital paulista checando locais com a tinta ainda fresca e retirando adesivos dos elevadores. “Este hospital, com cerca de 100 leitos, é relativamente pequeno, mas tem uma infraestrura de tecnologia como a dos grandes”, diz ele.

No consolidado do ano passado, a rede D’Or investiu R$ 2,7 bilhões, incluindo sete aquisições, gastos com manutenção e pesquisas. “Poucas empresas do País apresentam hoje essa capacidade de investimento”, afirma Otávio Lazcano, diretor financeiro do grupo. Isso foi possível porque a empresa estava bastante capitalizada desde 2015, quando o banco BTG Pactual saiu da sociedade e cedeu espaço ao fundo de investimentos Carlyle (dono de 12%) e ao fundo soberano de Cingapura (26%). A família Moll possui 58% das ações. Mesmo a dívida líquida, que fechou o último período em R$ 7 bilhões, não chega a preocupar.

O novo empreendimento da Rede D’ Or coroa a onda de fortes investimentos. No Vila Nova Star, das amenidades aos equipamentos de altíssima tecnologia, os mimos estão por toda parte. Os apartamentos são equipados com sala de estar, tevê de 60 polegadas e mobiliário de madeira que esconde a fiação hospitalar. O aspecto é muito mais de um hotel do que de uma instituição de saúde. Um tablet para uso do paciente permite controlar a iluminação e o abrir e fechar das persianas. O gadget também possibilita chamadas médicas, traz a agenda de medicamentos e tratamentos e permite dar notas para médicos e enfermeiros. O hospital terá uma equipe de 12 funcionários por leito. Mesmo nas instituições de referência esse número não costuma passar de 10. Na alimentação, também não há lugar para a insossa “comida de hospital”.

O cardápio sofisticado é assinado pelo chef francês Roland Villard. Mesmo os pacientes com dietas restritivas encontrarão sabor nos pratos, garante o hospital. Na UTI e no Pronto Socorro há espaço individual para tratamento, com capacidade para abrigar familiares. No caso do Pronto Socorro, o quarto tem banheiro e o paciente não precisa se locomover para outras salas para fazer exames de raio-X e de ultrassonografia. O tempo médio de um atendimento no PS deve ficar em, no máximo, uma hora e 20 minutos. “Esse é um projeto de exceção. Em nenhum lugar isso é o padrão”, diz Francisco Balestrin, presidente da Federação Internacional de Hospitais, sediada em Genebra. “Mas, com todo o luxo, o hospital seria uma ostra sem uma pérola se não houvesse tecnologia de ponta e uma equipe médica capaz de utilizar esses equipamentos.”

Na estrutura tecnológica, o destaque são os aparelhos de última geração, muitos deles inéditos no Brasil. A Cyberknife é um exemplo: um robô de radiocirurgia que faz a retirada de tumores do pulmão, fígado, próstata e cérebro. A precisão do aparelho permite que a recuperação do paciente, que antes levaria sete semanas, caia para quatro dias.

O hospital também conta com o primeiro equipamento de tomoterapia da América Latina. Ele permite à radioterapia atacar um tumor por diversas direções ao mesmo tempo. Nas espaçosas salas de cirurgia, chama atenção a iluminação que varia de acordo com o procedimento. Se a cirurgia não está sendo conduzida, a luz permanece num agradável tom de roxo. No momento da operação, a iluminação aumenta, mas sem ofuscar a visão dos médicos ou provocar reflexo nos computadores espalhadas por toda a sala. “Um hospital como esse ajuda a construir uma medicina de ponta mundial”, diz Murray Brennan, vice-presidente do centro de câncer Memorial Sloan Kettering de Nova York.

Rivais de luxo A bandeira Star, da Rede D’Or, foi pensada para elevar o padrão do atendimento de luxo, mas outros hospitais, clínicas diagnósticas e maternidades também são conhecidos pela excelência. Uma delas é a bandeira Alta Excelência Diagnóstica, do grupo Dasa, o maior do setor de laboratórios diagnósticos e dono também da marca Delboni Auriemo. São nove unidades em São Paulo e três no Rio de Janeiro. Algumas unidades foram montadas em antigas mansões residenciais. Para fazer a ressonância magnética, o paciente com claustrofobia recebe óculos 3D e fones de ouvido para assistir séries e filmes. A roupa de cama e as toalhas são da marca Trousseau. “É uma questão de detalhe, que está não só no tapete e na toalha, mas também no aroma dentro da unidade. Tudo para tranquilizar o paciente”, diz Claudia Cohn, diretora executiva do Alta, que prepara quatro outras unidades em São Paulo e mais uma no Rio.

Murray Brennan, vice-presidente do Memorial Sloan Kettering: “É importante existir um hospital como este, que tem tudo que o melhor hospital dos EUA pode ter” (Crédito:Divulgação)

Principal rival da Alta, o Fleury também está em expansão. “Como temos um público muito fiel, estamos levando a marca para fora da medicina diagnóstica,” diz Jeane Tsutsui, diretora executiva de negócios. A rede criou centros de infusão nas unidades do Itaim e no Morumbi, em São Paulo. Eles consistem num ambiente ambulatorial acolhedor para receber pacientes de doenças crônicas como artrite reumatoide e lúpus. Em espaços individuais, eles podem receber medicamentos subcutâneos ou intravenosos enquanto trabalham normalmente. O procedimento pode levar até seis horas de infusão. O grupo cresceu 14% no último ano em atendimentos residenciais, que antes só contava com coleta de sangue, mas agora inclui polissonografia e o estudo das doenças do sono.

Já o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, geralmente classificado como a terceira melhor instituição da capital paulista e rival direto da Rede D’Or, adaptou dois dos seus andares para o atendimento premium. Cada um tem 10 leitos com duas varandas cada. Nos outros andares, são 15 leitos. Até casamentos já foram celebrados nos quartos. “Percebemos a necessidade para podermos atender executivos e pessoas públicas que desejam discrição enquanto são tratadas. Também acontece de filhos pedirem esses espaços para dar o melhor tratamento para as suas mães em seus últimos dias”, diz Silvana Gerolin, superintendente assistencial do Oswaldo Cruz.

QUALIDADE MÉDICA Em todas essas instituições, o luxo é visto como uma forma de melhorar a experiência do paciente, com conforto e tranquilidade. Mas o discurso unânime é que a prioridade permanece no tratamento clínico e na busca pelo melhor desfecho possível. E esse é o maior desafio enfrentado pela Rede D’Or. O grupo ainda persegue um reconhecimento de qualidade que seus principais concorrentes já possuem. O mais conhecido hospital da rede em São Paulo, o São Luiz, coleciona reclamação de clientes sobre o atendimento confuso, demorado e as dependências lotadas. No site Reclame Aqui, o hospital tem nota 4,8, e fica na categoria “não recomendado”. A título de comparação, o Einstein e o Sírio são avaliados como ótimos, com notas 8,1 e 8,6, respectivamente.

Também da Rede D’Or, o São Luiz, que possui uma grande maternidade, costuma sofrer nas comparações com o grupo Santa Joana, dono da Pro Matre, uma referência nesse nicho. “Estamos acompanhando a mudança para uma cultura de partos naturais”, diz Marco Antônio Zaccarelli, diretor da Maternidade Pro Matre Paulista. Para atender a demanda crescente, ela inaugurou no fim do último ano um centro de partos humanizados. Dentro dele, cada espaço individualizado traz banheira de hidromassagem com equipe de relaxamento e cromoterapia. Quando é notado que uma cesárea será necessária, há uma sala de cirurgias próxima. Dessa forma, a gestante não precisa ser movida para o andar do centro cirúrgico. Na questão de hotelaria, a maternidade conta com suítes de até 70 metros quadrados, com espaço privativo para a mãe amamentar.

Em face a tantos exemplos luxuosos, o pioneiro hospital Albert Einstein defende postura mais sóbria. “No nosso entendimento, o grande risco para a sustentabilidade da saúde só pode ser evitado com a redução de desperdícios. O que se encara como luxo não contribui para o desfecho e pode até prejudicar o resultado’, diz Sidney Klajner, presidente do Albert Einstein. “O nosso hospital não vê os investimentos com luxo e amenidades como prioridade.” A empresa fez algumas modernizações, mas, segundo o gestor, elas servem a necessidades tecnológicas. “A quantidade de equipamentos nos quartos exigiu aumentarmos os espaços. A nova tecnologia reduz o tempo de internação e diminui o custo do tratamento, o que também traz maior rotatividade de pacientes por leito.”

A questão dos custos também está no centro de uma grande briga que a Rede D’Or comprou recentemente com a Amil, plano da americana UnitedHealth líder do mercado brasileiro. A empresa tem buscado mudar a forma de remunerar dos hospitais. Em vez de pagar por cada serviço prestado, quer remunerar por um pacote de tratamento e pelo desfecho alcançado, como forma de compartilhar os riscos. Isso pode ser um problema para hospitais mais luxuosos. A Rede D’Or não aceitou as condições e o grupo acabou descredenciado do plano de saúde. “Alguém tinha que comprar esta briga”, diz um executivo do setor. “Ainda bem que a Rede D’Or fez isso, porque é das poucas que tem tamanho para tanto.”

O mercado de planos de saúde se consolidou nos últimos anos e os levou a construir redes próprias de hospitais para os clientes como forma de controlar os custos. “Há uma década havia 1,4 mil planos e seguradoras. Hoje são 700”, diz Breno Monteiro, presidente da Confederação Nacional de Saúde. “Sem um órgão regulador forte, isso pode trazer má assistência e aumento de preços.” As redes de laboratórios de exames também responderam com consolidação. “Está ficando inviável a atuação de qualquer hospital com menos de 50 leitos”, diz Eduardo Amaro, presidente da associação de hospitais privados (Anahp). O jogo virou exclusivo para gigantes e as negociações são cada vez mais difíceis.

Nesse cenário desafiador, o risco na disputa pelos pacientes de luxo é que ocorra uma canibalização de pacientes. O mercado de planos de saúde perdeu três milhões de beneficiários durante a crise econômica. “Não vemos um aumento de usuários de planos de saúde premium e o Brasil está criando multimilionários, exceto pelo vencedor da última Megasena”, diz Walter Cintra, coordenador do curso de gestão de saúde na Fundação Getulio Vargas (FGV). “Até que ponto esse luxo agrega valor ao tratamento? Ou só traz um aumento de custos que será repassado ao operador de saúde que, por sua vez, compartilha o preço mais alto com o sistema, encarecendo o tratamento para todos?”

Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein: “O que se encara como luxo não contribui para o desfecho e pode até prejudicar o resultado” (Crédito:Keiny Andrade/Folhapress)

À frente do Vila Nova Star, Paulo Hoff acredita que a demanda crescente por tratamento pode absorver a oferta adicional com a chegada da Rede D’Or no atendimento mais sofisticado. “São Paulo se reafirma como centro médico da América Latina e a saúde vai continuar ampliando a sua participação no PIB. Ela subiu no último ano de 6% do PIB para mais de 8%, mas nos EUA já passa de 18%”, diz. “Não é um jogo de soma zero.”

O mundo e o Brasil está se movendo de uma economia industrial para a de serviços. E a medicina tem participação cada vez maior dentro disso. No Brasil, entretanto, o caminho parece evidente: poucos contarão com um serviço cinco estrelas, enquanto a maioria não terá saúde alguma.