Finanças

A salvação pelo

Banco estatal muda de estratégia para ajudar grandes empresas, liderando consórcio de R$ 50 bilhões para cadeia automotiva, varejo, aéreas e setor de energia. pequenas e médias terão repasse por meio de fintechs.

Crédito: Istock

Um dos principais efeitos da Covid-19 no setor financeiro é a mudança radical de estratégia do BNDES, o banco federal de desenvolvimento. Antes da crise, a instituição queria de desfazer de sua participação em empresas. Agora, assume o centro do plano de socorro à iniciativa privada. Há conversas adiantadas para que o BNDES coordene um consórcio que inclui Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander para despejar R$ 50 bilhões em setores com mais dificuldades, em troca de debêntures conversíveis em ações e opções de compras de papéis. Cada área receberá um pacote próprio de ajuda. Serão contemplados o setor de energia, empresas aéreas, a cadeia automotiva e parte do varejo que está de portas fechadas.

A ajuda às distribuidoras de energia será de R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões. O Ministério da Economia estima que a crise tenha causado a queda de 20% no consumo e espera um aumento da inadimplência de até 20% em 90 dias. Para compensar os empréstimos, a conta de energia terá aumento de tarifa por até 60 meses, e o governo estuda mecanismo para proibir que grandes consumidores, como indústrias, shopping centers e redes de varejo, migrem para o mercado livre para evitar o encargo adicional.

Desafio maior é fazer o capital chegar às pequenas empresas. Para isso, o BNDES espera contar com novos aliados: as fintechs. “A equipe econômica está na direção correta. Precisava começar resolvendo a liquidez do sistema principal, para não ter uma crise financeira. Agora, precisa que o capital chegue à ponta”, afirma Rafael Pereira, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD).

A estratégia faz sentido tempos de pandemia e também de alguma solidariedade. Prova disso é a aprovação de operações que, em períodos normais, teriam poucas chances. Um exemplo é do trabalhador que pediu para a fintech Leve Capital, de Florianópolis, crédito para comprar uma motocicleta. Já que o transporte público não estava operando, ele não tinha como ir trabalhar. “Como não vou dar crédito num caso desses?”, diz Gustavo Raposo, CEO da Leve. “Nós, fintechs, temos uma política menos restritiva que os grandes bancos. Eu preciso crescer.” Nos últimos 20 dias, a demanda por crédito na Leve subiu 40%. As fintechs têm como característica a aprovação de forma rápida e à distância, por meio de aplicativo e de processos digitais. Toda a papelada do mundo real fica de fora, uma dádiva em épocas de pandemia. “Nesta ponta vai tudo bem. Se você aportar R$ 100 milhões em fintechs, em um mês todo esse dinheiro está na rua”, afirma Raposo.

Neste momento em que trabalhadores, micro e pequenas empresas precisam de acesso a empréstimos, há uma disfunção no mercado de crédito. Devido aos riscos de inadimplência e de queda da economia, companhias com nota AAA estão pagando juros altos num nível que nunca viram antes. Se as instituições financeiras podem emprestar nessas condições, por que se arriscariam com as pequenas? Assim, os setores fortemente afetados pela crise, como bares, restaurantes, pequenos mercados ou agências de publicidade são duplamente penalizados: perdem receita e acesso ao crédito. Para contornar essa dificuldade, o BNDES, assim como a Caixa, o Ministério da Economia e o Banco Central, tem realizado reuniões com representantes das fintechs no intuito de encontrar soluções para o dilema de como redirecionar mais dinheiro para essas startups e também diminuir os riscos que elas podem correr, já que não têm gordura para queimar.

SISTEMA TRAVADO Se elas não conseguirem captar dinheiro, o mecanismo emperra. “Estamos num mundo em que as soluções ortodoxas não servem. O dinheiro está disponível, mas o sistema como um todo está travado”, afirma Pereira, presidente da ABCD e um dos principais interlocutores do setor com as fontes oficiais. Segundo ele, para resolver essa equação o mercado precisa de dois fatores. O primeiro é o “capital paciente”, recursos que serão despejados nas fintechs para que façam o seu trabalho, trazendo lucros a todos num futuro de médio e longo prazo. Isso pode vir por meio do BNDES e da Caixa, ou com a entrada do Banco Central na compra de crédito direto. O segundo fator é que o risco dos empréstimos seja compartilhado, para garantir que o empréstimo chegue a baixo custo.

“Se você aportar R$ 100 milhões em fintechs, em um mês todo esse dinheiro está na rua” Gustavo Raposo, CEO da Leve Capital. (Crédito:Divulgação)

As propostas em estudo no BNDES vão nessas duas linhas. A instituição pretende que a ajuda financeira já anunciada de R$ 5 bilhões seja repassada por fintechs. Para isso se acelerar, mais dessas startups precisam ser credenciadas como agentes repassadores. Outro caminho é o BNDES fazer aportes diretamente nessas empresas.

Para que isso se viabilize, o banco poderia invistir em Fidics (fundos de investimento em direito creditório) utilizados por fintechs para se financiarem. “Seria a forma mais rápida”, diz Francisco Ferreira, co-fundador da BizCapital, especializada em emprestar a PMEs e que descobriu que metade de seus clientes estão sofrendo perdas de mais de 60% de suas receitas. “Esses fundos são regulados pela CVM e já existe um arcabouço legal. É só fazer o aporte.” O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que considera essa alternativa, em reunião com os senadores no início de abril. Sob incentivo do BNDES, a revolução financeira que já vinha acontecendo lentamente ganhou caráter de urgência.

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