Finanças

A revolução digital nos seguros

Quarta fase do Open Banking irá provocar mudanças profundas na relação entre clientes e seguradoras. Entenda o que isso traz de bom.

Crédito: Istock

Lançado oficialmente no dia 15 de fevereiro, o programa brasileiro de Open Banking é o mais ambicioso do mundo. O escopo de outros países que precederam o Brasil no lançamento desses programas era apenas elevar a competição no setor bancário de modo a baratear empréstimos e tarifas. Por aqui, além desse objetivo, o open banking visa também atuar além dos serviços bancários tradicionais e promover mudanças tanto nos investimentos quanto no mercado segurador. Essa é a agenda da quarta e última fase, que deverá entrar em vigor no dia 15 de dezembro deste ano. E, na avaliação de Jorge Sant’Anna, presidente da BMG Seguros, o impacto sobre o setor será proporcionalmente muito maior do que no caso dos bancos. Não apenas pelas mudanças na regulamentação, mas também pela nova tecnologia de pagamentos implementada pelo BC, o Pix. “A introdução do Pix e do Open Banking vai permitir a criação de seguros massificados e incrementar a competição entre as seguradoras”, disse ele. “Isso vai transferir o poder para o cliente na hora de contratar os seguros.”

Relembrando, o Open Banking é uma mudança regulatória que transfere a posse das informações financeiras. Em vez de ficarem entesouradas nos bancos e nas seguradoras, elas estarão disponíveis. Assim, os melhores clientes poderão divulgar seus dados para serem devidamente cortejados pelas empresas interessadas. Se no caso dos bancos a expectativa é que isso garanta taxas mais competitivas e empréstimos mais baratos, no caso dos seguros a revolução será muito maior.

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“O open banking e o Pix vão transferir o poder para o cliente na hora de contratar os seguros” Jorge Sant’Anna, presidente da BMG Seguros.

Isso vai ocorrer porque o setor ainda é bastante burocrático, o que trava o desenvolvimento dos negócios. Dois números mostram isso. No Brasil, os seguros de danos (que não consideram as apólices de vida e de saúde) representam cerca de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Na Argentina são 3,6% e nos Estados Unidos e Holanda esses percentuais se aproximam dos 7%. Tanta diferença é explicada por três fatores. O primeiro é a renda. O segundo é cultura: só agora o brasileiro começa a ter consciência de que vale a pena segurar seus bens. “O terceiro fator de atraso é que, devido à burocracia e ao atraso na tecnologia, o processo de contratação dos seguros ainda é lento”, disse Sant’Anna.

CUSTOS Um exemplo prosaico são os custos de contratação. Nos mercados mais desenvolvidos, os segmentos que mais crescem são os seguros massificados e os seguros por uso. Os massificados são apólices de pequeno valor. A margem é baixa, e por isso pequenos custos podem inviabilizar a venda. Se, por exemplo, o segurado tiver de pagar o prêmio por meio de um boleto bancário, as tarifas envolvidas podem consumir a margem da seguradora. “Com o Pix, em que as transações são gratuitas ou tem custos baixíssimos, esse problema é resolvido”, disse o executivo.

Outro ponto são os seguros por uso. O exemplo mais didático é um restaurante que quer se proteger de falhas na refrigeração, que podem causar a deterioração do estoque. Em mercados mais maduros, os segurados contratam as apólices apenas durante as horas em que não há funcionários. “Quando tem gente trabalhando é fácil solucionar o problema”, disse o executivo. Ao reduzir o tempo de cobertura, o custo cai. No entanto, isso só é possível quando houver um fluxo eficaz de informações. Algo que deve ocorrer com a vinda do Open Banking.