Negócios

A revolução digital da Dasa

Ao se aproximar de startups e fechar parceria com a Harvard, a maior rede de diagnósticos do Brasil se abre para inovações

Crédito: Claudio Belli/Valor

Novas ideias: “A tecnologia pode trazer ganhos de produtividade e baixar o custo da medicina”, diz Bueno, controlador e CEO da empresa (Crédito: Claudio Belli/Valor)

Aos 28 anos, Pedro de Godoy Bueno, presidente da Dasa, já conta três anos e meio no comando da maior rede de laboratórios diagnósticos do Brasil, dona das bandeiras Delboni Auriemo, SalomãoZoppi, Sergio Franco e Lavoisier, e de um faturamento de R$ 3,2 bilhões. Pode não parecer muito tempo. Mas desde que sua família assumiu o controle da empresa, em 2009, Bueno é executivo que mais tempo ficou à frente da Dasa, desde o fundador Caio Auriemo. Nesse período, ele implantou uma cultura baseada na meritocracia e focou na expansão da rede, que atingiu 754 unidades. Agora, Bueno se prepara uma nova fase. Seu plano é posicionar a rede como uma fornecedora de informações médicas para os seus diferentes públicos. Para isso, ele está promovendo uma verdadeira revolução digital, com a implementação de novas tecnologias. “Entramos numa nova fase”, diz Bueno.

“Com tecnologia, podemos ganhar produtividade, diminuir o tempo dos exames e baixar o custo da medicina.” Diversas iniciativas com startups e pesquisadores da área de saúde foram fechadas neste ano. Um dos exemplos é a parceria com a novata Arterys, do Vale do Silício, para a criação de um algoritmo que identifique e categorize ressonâncias magnéticas das áreas de oncologia e cardiologia. Outro acordo envolveu o Cubo, projeto do Itaú e do fundo Redpoint eventures, para encontrar startups da área. Sete projetos já foram selecionados (confira quadro ao final da reportagem).

A Dasa patrocina um andar de empresas iniciantes de saúde às quais ajuda a desenvolver, e que podem receber investimentos diretos no futuro. Dessa forma, a companhia se posiciona para aproveitar uma tendência prestes a explodir. “A próxima onda das startups são as healthtechs”, disse Romero Rodrigues, sócio da Redpoint eventures, em entrevista recente à DINHEIRO. Bueno também está criando um fundo, na sua holding DNA Capital, com outros sete investidores não ligados à família, para aportar até US$ 150 milhões em empresas do tipo. A revolução digital da Dasa não se restringe apenas a buscar startups que ajudem nesse processo. Ela está acontecendo também na mentalidade dos executivos.

Bueno e Romeu Côrtes Domingues, radiologista e presidente do conselho da Dasa, participaram, em 2017, de um curso voltado para inovação na Singularity University, uma das principais universidades do mundo, na Califórnia, no coração do Vale do Silício. Depois disso, outros nove executivos da alta gestão da companhia também foram encaminhados à instituição, com as despesas pagas pela Dasa. “A quantidade de inovação que é apresentada ajuda a pensar de forma diferente”, diz Domingues. Esse investimento é recompensado em uma nova visão na gestão da empresa. “Até quem era resistente a fazermos novas mudanças agora volta do curso dizendo que precisamos mudar tudo”, afirma Bueno. E isso tem se traduzido em inovações que a empresa está testando até mesmo no seu modelo de negócios.

Uma das áreas que deve ganhar relevância na companhia é a da inteligência artificial. Não se trata exatamente de uma novidade. O setor de saúde é um dos que mais deve ser impactado por essa tecnologia. Rivais da Dasa também se movimentam nessa arena. É o caso do grupo Fleury, que tem acordo com a IBM para usar o programa de computação cognitiva Watson em exames oncológicos. A Dasa, por seu turno, fechou parceria com a universidade de Harvard para desenvolver um algoritmo capaz de identificar doenças cerebrais e câncer, ao analisar imagens digitais de ressonâncias magnéticas. “Os pesquisadores de todo o mundo desenvolvem a tecnologia, mas são as empresas de diagnóstico que têm os dados para alimentar esses sistemas”, diz Bueno. A Dasa está ainda montando uma equipe interna de inteligência artificial. O objetivo é aumentar a eficiência dos diagnósticos e baixar custos com exames desnecessários. “Como somos uma empresa familiar, podemos fazer esse tipo de investimento, porque não estamos mais no Novo Mercado”, afirma. “Quem espera resultado de curto prazo, não investe.”

A Dasa também direcionou R$ 15 milhões em tecnologia da Philips para a digitalização de 600 mil exames de patologia por ano. Isso serve de base para o uso de inteligência artificial e para a criação de uma base de comparações de exames feitos em todo o mundo. “O mercado busca oportunidades para ganhar produtividade”, diz Renato Carvalho, CEO da Philips e presidente do conselho da Abimed, a associação da indústria de alta tecnologia para a saúde. “Existe uma corrida para desenvolver a tecnologia que consegue separar, por análise eletrônica, os exames mais complexos e encaminhá-los aos profissionais mais experientes, diminuindo o tempo médio de análise.”