Investidores

A retomada dos IPOs

Depois de a Estapar fazer sua oferta de ações de forma inédita, em meio à quarentena, a B3 começa a preparar uma agenda para o segundo semestre. O mercado, no entanto, está mais seletivo e deverá priorizar boas histórias ou necessidades ímpares.

Crédito: Montagem sobre foto de Jonne Roriz

ANDRÉ ESTEVES Controlador da Estapar, o empresário comprou 40% das ações da própria companhia negociadas no IPO. (Crédito: Montagem sobre foto de Jonne Roriz)

O ano começou com tudo para ser o melhor da história dos IPOs (sigla em inglês para oferta inicial de ações) na B3, a bolsa de valores de São Paulo. Apenas em janeiro e fevereiro, foram quatro aberturas de capital: das incorporadoras Mitre Realty e Moura Dubeux, da empresa de hospedagem de sites Locaweb, e da Priner, de manutenção industrial. Outros 18 pedidos haviam sido protocolados até março. Para efeito de comparação, ao longo de todo o ano de 2019 houve apenas cinco IPOs na B3. A eclosão da pandemia do novo coronavírus obrigou a uma mudança de planos. Por enquanto, 16 empresas decidiram estender seus processos de IPO, sendo que 13 deles foram adiados para 2021.

As exceções foram a administradora de estacionamentos Estapar, que concluiu o seu processo de IPO em maio (foi o quinto de 2020), e a Riva 9 Empreendimentos Imobiliários, que manteve o seu em andamento. Pela forma como ocorreu, o caso da Estapar é atípico. Além de ter sido realizado em meio à quarentena, um único investidor comprou 40% dos papéis ofertados: foi o próprio controlador da empresa, André Esteves, fundador do banco BTG Pactual. Para o diretor de relacionamento com clientes da B3, Rogério Santana, a exceção tem um motivo.

“Boa parte dos recursos obtidos pela Estapar deve ser usado para pagar a concessão pública da Zona Azul na capital paulista”, observa Santana. Ou seja, a empresa tinha uma necessidade urgente de captar recursos. “Do lado dos investidores, há apetite para boas histórias. Se for algo que tem proposta de crescimento interessante, há disposição do mercado em olhar”, diz. É esse o sentimento que está por trás da reação observada na B3 quanto a novos IPOs. Passados três meses desde o início da pandemia, é perceptível a torcida do mercado para que mais empresas optem pela abertura de capital na bolsa — o que tende a ocorrer já no início do segundo semestre. Contudo, dadas as incertezas que ainda pairam sobre a economia, os especialistas acreditam que esse retorno será viável apenas em casos específicos durante 2020.

No dia 11 de junho, a construtora You, que dois meses atrás havia desistido da oferta inicial de ações, fez pedido para que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) retomasse a análise de seu IPO. O processo tem os bancos BTG Pactual e Bradesco BBI como coordenadores. A empresa de gestão de resíduos Ambipar Participações e Empreendimentos, que também pediu adiamento, agora consta na lista da CVM sem a descrição de oferta interrompida. O mesmo ocorre com o grupo de moda Soma. A Riva, que não interrompeu o processo, e a Iguá Saneamento, cujo prazo está interrompido até 10 de setembro, fecham a lista das empresas que podem realizar os primeiros IPOs do segundo semestre de 2020. Além delas, outras vêm se somando à lista e podem até passar na frente. A Quero-Quero, varejista de material de construção do Sul do País, controlada pelo fundo Advent International, atualizou na segunda-feira (22) o seu prospecto de IPO, indicando interesse de retomar o processo.

Existe também uma expectativa pela oferta inicial da Aura Minerals, cuja precificação ocorreria até o final deste mês ou em julho. Listada na Bolsa de Toronto, no Canadá, desde 2006, a Aura opera na produção de ouro e cobre no Brasil, México e em Honduras. Ela pretende fazer, na B3, uma emissão de BDRs, que são recibos de ações de companhias negociadas em outras bolsas. Em outra frente, o BTG Pactual, que lidera diversas dessas ofertas, também anunciou na segunda-feira (22) que fará uma oferta primária de units, que corresponde a uma ação ordinária e duas preferenciais. Outros follow-ons que entraram no radar são os da rede de alimentação IMC e da indústria de refrigeração Metalfrio.

EM CAMPO Há 15 dias, a construtora You, do empresário Abrão Mozkate, pediu para a CVM retomar a análise do seu IPO. (Crédito:Montagem sobre foto de Jose Patricio)

VOLATILIDADE O diretor de mercado de capitais da XP, Pedro Mesquita, lembra que, após o pânico em março, a bolsa recuperou parte de suas perdas. Houve também mais estabilidade e os juros continuaram baixando a níveis inéditos para o Brasil. Justamente por essas razões, não houve retirada por parte dos investidores locais. “Com juros tão baixos, não há o que fazer”, destaca Mesquita. Esses fatores justificam que mais empresas arrisquem manter os seus planos de IPO, com os investidores precisando buscar alternativas de boa rentabilidade em relação à renda fixa. “Na atual conjuntura, com algumas cidades e estados planejando um retorno gradual à normalidade no Brasil, deve acontecer uma volta de ofertas na bolsa mais rapidamente do que imaginávamos”, afirma. “Mas ainda enfrentamos uma volatilidade relevante no mercado”, ressalta.

A definição de preços das ações está ligada ao nível da bolsa — e ninguém deseja fazer um IPO com valores muito baixos. Daí a cautela das empresas no momento. Para Carolina Ujikawa, analista da Mauá Capital, a expectativa ainda é de que 2020 será um ano ruim. Por isso, todo mundo estaria olhando mais para 2021. “Neste momento, não há oferta para qualquer coisa. Pode ter espaço para casos bem interessantes”, diz Carolina. “O mercado está seletivo, buscando boas histórias.”

Para Santana, da B3, já houve melhora significativa dos preços, o que torna a possibilidade de um IPO mais atraente. Além disso, embora a economia cresça menos este ano, há companhias que podem ter como estratégia de negócio a aquisição de outras empresas ou de ativos específicos. Uma outra variável que deve ser considerada é que uma companhia pode ser sólida, mas ter limitação de caixa. “Como empréstimos bancários não estão tão acessíveis, o IPO pode atender à necessidade de obtenção de recursos”, diz. “É preciso entender que, em momentos de crise, os investidores ficam mais criteriosos.”

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