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A responsabilidade dos governos diante do avanço do coronavírus

Crédito: AFP

Presidente dos EUA, Donald Trump, durante o briefing diário sobre o novo coronavírus na Casa Branca, em 31 de março de 2020 (Crédito: AFP)


Confinamentos tardios, falta de testes, ou minimização da gravidade da pandemia. Em todo mundo, críticas estão sendo levantadas contra governos, que são acusados de não protegerem suficientemente seus cidadãos contra o coronavírus.

“Há pessoas que poderíamos salvar, mas que estão morrendo porque não há leitos suficientes nas unidades de terapia intensiva”, diz Sara Chinchilla, médica de um hospital de Madri.

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“Não há dinheiro suficiente, testes suficientes, equipamentos de proteção suficientes (…) Todos estamos expostos nos hospitais”, denuncia Andrew, um residente de psiquiatria em Nova York.

Nos dois lados do Atlântico, o afluxo de doentes para hospitais lotados e a escassez de equipamentos de proteção são criticados em países onde as mortes por coronavírus chegam a milhares.

A gestão das autoridades antes do surto está na mira: na Espanha, por ter proibido tardiamente grandes reuniões; na França, devido à escassez de máscaras; no Reino Unido, em razão da conscientização tardia do primeiro-ministro Boris Johnson. No início de março, o premiê “apertava a mão de todos” nos hospitais e agora deu positivo para COVID-19.

Em 6 de março, o International Journal of Medicine (JIM) mencionou em um artigo de opinião críticas a uma suposta “falta de preparação” do governo francês para lidar com o coronavírus.

Naquela época, quando apenas duas mortes estavam confirmadas no país, o artigo já falava sobre a escassez de máscaras FFP2 na França e criticava a “descrença” das autoridades.

“Chegará a hora de estabelecer responsabilidades, esse momento chegará. É legítimo e democrático”, afirmou esta semana o presidente francês, Emmanuel Macron.

– Punição –

Ao final desta crise, a ameaça de uma punição aos governos nas urnas pode se tornar realidade. Começando nos Estados Unidos, que elegerá seu presidente no final do ano.

“É muito cedo para tirar conclusões, mas essa crise pode ter consequências mais negativas do que positivas para Trump. Sua gestão tem sido lenta e desajeitada”, estima Charles Kupchan, professor de Relações Internacionais da Universidade de Georgetown, em Washington.

Os mesmos problemas podem surgir para seu aliado Jair Bolsonaro, que até ontem falava de “psicose” e rejeitava categoricamente o confinamento.

Essa estratégia, que traz riscos à saúde, preocupa parte do Brasil, onde a palavra “impeachment” foi proferida por deputados da oposição.

Além do futuro político dos governantes, também começa a surgir a ideia de medidas legais contra eles.

Na França, ações foram movidas contra membros do governo por homicídio culposo.

“O aumento no número de queixas é um sinal de que os cidadãos permanecem vigilantes”, diz o constitucionalista Dominique Rousseau, embora as chances desses processos sejam pequenas, segundo vários magistrados.

– Democracia –

Uma questão que alimenta o debate é saber se era possível adotar antes medidas drásticas de contenção. Em uma democracia, confinar a população é uma missão delicada sem o apoio de uma grande parte dela.

“Se a opinião pública não está convencida da gravidade da situação, se o corpo científico está dividido, é difícil para os formuladores de políticas criarem um consenso”, diz à AFP Carine Milcent, pesquisadora e especialista em sistemas de saúde.

“Os números anunciados inicialmente pela China não eram aterrorizantes, e muitas pessoas se perguntavam na época por que faziam tanto”, lembra.

De fato, algumas pessoas na China denunciam a falta de transparência por parte das autoridades sobre o verdadeiro número de vítimas da epidemia, que eles estimam que seria muito maior do que as 3.300 mortes anunciadas.

“A China é um regime autoritário com comunicação controlada. Desde que a epidemia começou em um mercado em Wuhan, o regime tenta restaurar sua imagem”, ressalta Carine Milcent.

“Os governos de ambos os lados do Atlântico demoraram a tomar decisões. Mas, se a China tivesse alertado antes, os outros países poderiam ter respondido melhor”, acredita Kupchan.