A reforma possível

A reforma possível

O projeto ainda em andamento no Congresso e que levará alguns meses até passar por todos os crivos para a aprovação final é efetivamente o que se pode definir como a reforma da Previdência possível, com todas as nuances, eventuais mudanças de rumo, ajustes e enxertos que retratam de maneira cristalina o conjunto de forças da sociedade brasileira. Os lobbies de última hora, as resistências políticas, as intervenções indevidas do chefe da Nação, as ausências sentidas de estados e municípios no texto, cada um dos capítulos dessa odisseia traduz à exaustão o que é o País de hoje: um conjunto multifacetado de interesses que, na prática, guardam pouca coisa em comum.

Os setores privilegiados tentaram e continuam tentando manter suas vantagens. Os policiais apadrinhados por Bolsonaro lutam por uma integralidade do benefício e pela paridade indevida com profissionais da ativa. Querem se aposentar com 100% da última remuneração do cargo efetivo que ocupam e o direito a receber os mesmos aumentos dos colegas da ativa. Sem contar o desejo de eliminação da idade mínima para requerer a aposentadoria. No caso específico, vale o registro de que uma emenda constitucional de 2003 acabou com os regimes de integralidade e de paridade.

A volta ao sistema configuraria um precedente e um retrocesso gigantesco. E nesse jogo de pressões e acordos paralelos, a reforma vai tomando as feições finais. As peças ainda estão sendo lançadas. O presidente Bolsonaro fala em corrigir “equívocos”, um eufemismo para introduzir mudanças simpáticas aos grupos de interesse que lhe dão sustentação. De uma coisa ninguém mais duvida e já há aí um enorme avanço: todos concordam que é reformar ou reformar o sistema. Uma pesquisa recém-concluída dá conta de uma reviravolta no ânimo geral da população quanto ao tema. Pela primeira vez, a maioria se mostrou a favor da reforma.

O reflexo desse sentimento é direto e automático no comportamento dos parlamentares. É preciso de todo modo se ter em mente que a reforma não é uma bala de prata. Trata-se de um paliativo. Sem ações adicionais no campo econômico, dificilmente a retomada se dará no ritmo desejado. Existe uma extensa lista de medidas a ser adotadas de imediato para a reversão da crise e uma reportagem especial nesta edição trata a fundo o assunto. Quanto ao ânimo em voga no País, é preciso manter o otimismo. De uma maneira ou de outra, os passos estão sendo dados na direção correta, com o apoio e esforço de todos os poderes constituídos. Quem sabe logo virão mais boas novas.

(Nota publicada na Edição 1129 da Revista Dinheiro)


Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


Mais posts

A briga com os estados

Passa do limite do aceitável a rinha infantil que o presidente Bolsonaro abriu com governadores estaduais, em sistemáticas provocações [...]

Existe alguma bolha?

Nos últimos dias, com insinuações recorrentes, analistas começaram a apontar que a extraordinária valorização das ações de companhias [...]

O contágio da economia

A contaminação em escala pelo coronavírus teve um reflexo agudo e amplo na economia global, afetando bolsas de valores, câmbio, [...]

Davos à brasileira

Para o Brasil, a reunião anual de Davos, que congrega alguns dos mais estrelados financistas, empresários e políticos do mundo, se [...]

Os chineses voltaram

A boa nova no campo dos investimentos no País é o retorno dos chineses ao tabuleiro. E é bom considerar e estimular esse retorno. [...]
Ver mais

Copyright © 2020 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.