Tecnologia

A reestruturação do SAS

Promovido a vice-presidente nas Américas, Marvio Portela comanda mudanças na empresa líder de analytics, com foco no promissor mercado brasileiro.

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EXPERTISE O brasileiro Marvio Portela comanda as mudanças na companhia que visam maior troca de conhecimento entre as soluções de destaque dos mercados dos Estados Unidos e da América Latina. (Crédito: Divulgação)

Dez anos atrás, Marvio Portela era diretor de vendas do SAS, empresa americana de software de análise de dados. Paralelamente, era dono de uma pizzaria no Rio de Janeiro. A companhia havia acabado de lançar sua mais nova ferramenta, a Visual Analytics. Portela implantou em seu estabelecimento para aprofundar seu conhecimento da solução. Descobriu em sua base de informações sobre as vendas em delivery que 74% dos clientes compravam apenas uma vez e nunca mais faziam pedidos. Investigou os motivos e descobriu que as pessoas perdiam o contato da pizzaria, que fazia divulgação por distribuição de panfletos. Para solucionar o problema, confeccionou os tradicionais – e eficientes – imãs de geladeira para entregar com as pizzas. Deu certo. A repetição de pedidos aumentou e taxa de apenas uma encomenda por cliente caiu para 23%. Portela começou, então, a analisar os dados pluviométricos da área da pizzaria. Quando chovia, fazia promoção para atrair os consumidores ao salão e também oferecia entrega de vinhos para os pedidos por delivery. Deu certo de novo. Este é um exemplo simples – e eficiente – de como a análise de dados pode aumentar vendas e gerar resultados. Hoje, após passar por diversos cargos de liderança, Marvio Portela foi recém-promovido a vice-presidente sênior para Estados Unidos e América Latina do SAS, líder global em analytics e a maior empresa de software de capital fechado do mundo. O executivo lidera processo de reestruturação da companhia, com maior troca de expertises dos mercados das Américas. “Os dados estão aí. Se souber usar, fazem toda diferença. É um diferenciador competitivo.”

Na prática, as mudanças vão encurtar os espaços entre as áreas de negócios na América Latina e nos Estados Unidos e integrar os prcessos. No mercado americano, por exemplo, o SAS está avançado em agro, telecom, manufatura e médias empresas. “Baseado no conhecimento americano, inauguramos estruturas para atender o mercado brasileiro, que é gigantesco no agro e a gente nem arranha. Vamos colocar foco nisso”, afirmou Marvio Portela. Por outro lado, o mercado latino-americano da empresa tem forte atuação no ramo financeiro, principalmente para análise de riscos e validação de documentos, e de governo. As soluções e experiências da região nessas áreas serão melhor trabalhadas nos Estados Unidos.

Apesar de a penetração no agronegócio brasileiro ainda estar aquém, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) é um dos clientes mais longevos do SAS. Mais precisamente desde 1976, quando a empresa foi cofundada por Jim Goodnight (ainda hoje CEO), na Carolina do Norte, a partir de uma tese na universidade. Um dos alunos da turma era pesquisador da Embrapa e trouxe para o Brasil a solução tecnológica que fazia projeção de safra. A Embrapa continua cliente SAS, usando ferramenta para comparar os efeitos de diferentes manejos agrícolas sobre as emissões de gases de efeito estufa. Outro cliente no Brasil é a Dataprev, que, a partir da utilização de big data analytics do SAS, reduziu o tempo de processamento de dados para a concessão do auxílio emergencial de 18 horas para cinco horas.

DURADOURO A Embrapa utiliza softwares SAS para pesquisas agrícolas desde a década de 1970 quando a companhia americana foi fundada e pouco se falava em analytics para organização de dados. (Crédito:Divulgação)

OPERAÇÃO O mercado brasileiro, onde está presente desde 1996, tem se mostrado estratégico para o SAS, que fechou 2020 com faturamento global na casa de US$ 3,1 bilhões. A operação nacional representa 35% da receita da América Latina. A companhia americana comemora bons resultados por aqui, entre os quais o maior contrato global do ano passado, com um banco – nome e valores mantidos em sigilo –, atraído pela parceria do SAS com a Microsoft Azure, para levar a sua plataforma de gerenciamento de dados, analytics e AI, o SAS Viya, para a nuvem da Microsoft.

Ano passado, os números no Brasil apresentaram crescimento de 8% na Receita Operacional Total em relação a 2019, aumento de 13% na Receita Recorrente Anual e 592% em serviços de hospedagem na nuvem privada do SAS no uso de soluções de analytics.

5 horas é o tempo de análise de dados para aprovação do auxílio emergencial pela dataprev com solução SAS. Antes eram 18 horas

Resultados que ajudaram a companhia a se manter no Quadrante Mágico para plataformas de ciência de dados e machine learning da consultoria Gartner. “O SAS é geograficamente diversificado e sua base de clientes abrange muitos setores e várias funções de negócios”, apontou o relatório, que ainda destacou a tradição de 45 anos na oferta de analytics – quando quase ninguém pensava em organizar dados – e os sete anos de presença da empresa na liderança de plataformas analíticas avançadas (de 2014 a 2016), de ciências de dados (2017) e machine learning e dados (2018 a 2020). “Mantém uma posição forte e adaptável, dado seu profundo conhecimento do mercado e sua liderança em áreas-chave, como IA composta, MLOps (machine learning levado para a web) e inteligência [de dados] para decisão.”

Depois de uma série de dados e números expostos, você, leitor, deve estar se perguntando: mas e a pizzaria do Marvio Portela? O que deu? Ele a vendeu quando foi trabalhar na Austrália, no começo dos anos 2010. Permaneceu a história do uso de dados para comercializar mais pizzas, que inclusive foi apresentada em uma reunião de negócios e lhe rendeu um contrato com uma empresa de telecomunicação. O executivo continua vendendo soluções do SAS, agora do escritório de Miami, com o mesmo entusiasmo com que era diretor de vendas da companhia e dono de pizzaria.