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A quetamina se banaliza contra a depressão nos EUA

Crédito: AFP

Philip Markle com seu pacote de quetamina em 27 de janeiro de 2022 em Nova York - AFP (Crédito: AFP)

O uso de quetamina, um anestésico e também uma droga psicodélica, decolou durante a pandemia nos Estados Unidos como um tratamento autoadministrado para pessoas com depressão, apesar do ceticismo em torno de sua eficácia e dos riscos a longo prazo pouco claros.

Philip Markle, um nova-iorquino de 36 anos, luta contra a depressão desde a adolescência. Ele tentou psicologia e várias drogas, incluindo outros psicodélicos como o LSD. Mas diz que apenas a quetamina lhe deu uma sensação de clareza e a capacidade de se aceitar melhor, ao contrário das melhorias muito breves experimentadas até agora com outros tratamentos – e sem os efeitos colaterais de outras substâncias.



“Parece que, se há uma droga que pode ser enviada pelo correio, se há um psicodélico que pode ajudá-lo a mudar sua vida por conta própria, é esse”, disse o comediante à AFP.

A quetamina já era usada nos Estados Unidos para tratar depressão, ansiedade ou dor crônica, mas os pacientes tinham que ir pessoalmente ao hospital para injeções intravenosas.

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Durante a pandemia, as restrições sanitárias levaram as autoridades a permitir que os médicos prescrevam medicamentos à distância, incluindo este psicotrópico de reputação polêmica.

As empresas, algumas já especializadas em tratamentos clínicos, passaram então à avaliação de potenciais clientes, online, e ao envio de doses de medicamentos para pessoas consideradas boas candidatas.


Markle seguiu assim um protocolo de sua casa graças à Mindbloom, uma dessas start-ups.

Mas alguns especialistas, favoráveis à quetamina, temem que esse boom descontrolado possa levar a incidentes que levem as autoridades a voltar atrás. Os estudos sobre o impacto médico deste medicamento a longo prazo são raros.

“Tem que ser implementado lentamente”, disse Boris Heifets, professor de anestesiologia da Universidade de Stanford. “O risco é que você esteja lançando um band-aid em vez da solução, o que requer uma abordagem muito mais abrangente da saúde mental”.

A quetamina é um anestésico do tipo “dissociativo” por seus efeitos alucinógenos, o que também a tornou uma droga popular em festas rave.

Outros psicodélicos, como o LSD e o MDMA, são classificados como sem uso médico e alto risco de abuso, embora estejam despertando interesse renovado por seu potencial para a saúde mental.

Em novembro de 2020, o estado de Oregon legalizou o uso terapêutico da psilocibina. Mas o sistema legal que regulará seu consumo ainda está em estudo.

Para as empresas que fornecem quetamina, por outro lado, não existem regras nacionais específicas para esta substância.

“Se você olhar atentamente para o risco de abuso, você percebe que existe, é claro, mas também que criamos um protocolo de atendimento que o torna bastante improvável”, garante Juan Pablo Cappello, chefe da Nue Life, start-up neste setor lançada há um ano.

Por exemplo, os clientes devem ser supervisionados por uma “babysitter”, outro adulto que os observa durante os aproximadamente 90 minutos que a sessão dura.

Cappello também ressalta que quem quer apenas quetamina pode encontrá-la mais barata na rua. Se passarem pela Nue Life, terão que pagar US$ 1.250 por um pacote que inclui seis sessões.

E o serviço os incentiva a combinar a droga com sessões tradicionais de psicoterapia. “O modelo de telemedicina é realmente mais seguro e eficaz para os pacientes, eu acho. Porque permite que uma variedade maior de pacientes se beneficie dessas terapias”, argumenta o empresário, especificando que mais de 3.000 pessoas já utilizaram seu serviço.

De acordo com um estudo científico, os tratamentos com quetamina intravenosa em clínicas – com doses mais altas do que as permitidas na telemedicina – ajudaram a maioria dos pacientes.

Mas cerca de 8% deles disseram que seus sintomas pioraram como resultado.

“Temos muito pouca informação sobre a eficácia da quetamina em larga escala”, sublinha Boris Heifets, que participou neste estudo.

Ele acrescenta que o risco de litígio jurídico não deve ser descartado, porque “o público americano quer acesso (às drogas), mas tem uma tolerância extraordinariamente baixa ao risco e uma propensão natural para resolver problemas na justiça”.

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