Negócios

A QUEDA DE MESSIER

A onda de balanços contábeis fraudulentos cruzou o Atlântico. Depois dos escândalos envolvendo uma dezena de grandes empresas americanas ? como Enron e WorldCom, por exemplo ?, a prática chegou à Europa. Na última semana, descobriu-se que Jean-Marie Messier, presidente da companhia de mídia francesa Vivendi, tentou acrescentar 1,5 bilhão de euros ao lucro líquido do balanço de 2001 para reduzir o nível das dívidas. A Vivendi é dona de um faturamento de 57 bilhões de euros e vinha registrando crescimento meteórico nos últimos anos, arrancando sorrisos de analistas e acionistas. Qualquer semelhança com as empresas americanas que maquiavam contas não é mera coincidência. Os recursos utilizados agora no truque financeiro de Jean-Marie Messier são provenientes de uma complexa operação de venda da participação da Vivendi na companhia de TV a cabo britânica BSKyB. A venda desta empresa era a condição dada pela Comissão Européia para aprovar a fusão da Vivendi, Canal Plus e Seagram. O que o grupo francês não podia fazer, segundo as leis locais, era agregar o valor recebido pela venda da BSkyB no balanço de 2001. Na terça-feira 2, o valor das ações da companhia caiu 39%.

Predador: Messier gastou bilhões na compra da Seagram, Universal Studios
e Canal Plus

A manobra surtiu rápido efeito: Messier foi demitido e em seu lugar o conselho nomeou Jean-René Fortou, ex-executivo da Aventis. Para os acionistas, o truque do balanço foi a gota d?água. Messier há tempos já havia perdido a confiança ? e o dinheiro ? dos investidores. Apesar do deslize, o ex-presidente não quer sair por baixo. Negociou um pacote de indenização no valor de US$ 17,8 milhões. O valor corresponde a três vezes o salário e bônus que o executivo recebeu no ano passado. Messier assumiu a companhia em 1996, quando ela se chamava Générale des Eaux e atuava no setor de saneamento. Num primeiro momento, ele foi tido como um executivo ousado, com sede de expansão. Messier comprou o Canal Plus; a MP3.com; a editora Houghton Mifflin; a Seagram, a Universal Studios. Rapidamente, a empresa de água se transformou num colosso da mídia. Só que ao mesmo tempo em que abria os cofres para fazer aquisições, ele judiava das finanças da Vivendi. As compras lhe renderam débitos monumentais e a conta apareceu no ano passado: perdas de US$ 13 bilhões, dívidas de US$ 33 bilhões e queda de 60% no preço das ações. O novo presidente da Vivendi terá muito trabalho. Fortou resumiu assim seu desafio: ?Temos de fortalecer o caixa e avaliar amplamente nossa situação financeira.? Por ora, é o que ele pode fazer.



No Brasil, a empresa atua nos setores editorial e de saneamento. A Vivendi é dona da editora Havas Anaya, que por sua vez é sócia da Abril no grupo Ática Scipione. Também mantém uma parceria com o Opportunity e a construtora Andrade Gutierrez na empresa Sanepar, do Paraná. É a herança da sede expansionista de Messier.



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