Economia

A piada sem graça de Weintraub

Ministro da Educação cria novo conflito diplomático do Brasil com a China e expõe o lado mais estúpido e perigoso de um agente público, em que o preconceito, a ignorância, o racismo e o desrespeito se sobrepõem à... educação.

Crédito: Eduardo Anizelli

Um dos melhores – e mais memoráveis – bordões do palhaço Bozo, famoso personagem nas telas do SBT entre os anos 1982 e 1992, dizia “Alô criançada, o Bozo chegou, trazendo alegria pra você e o vovô”. De forma simples e ingênua, a rima da música de abertura do programa matinal inspirava o sorriso de quem o assistia e precedia uma piada de bom gosto – com sacadas dignas de artistas que nasceram com vocação para o humor. Tal dom, no entanto, é para poucos. Na semana passada, uma piada jocosa, de extremo mau gosto, fora do tempo e cheia de preconceitos, protagonizada pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, comprovou que o bom humor é uma arte limitada aos inteligentes.

Em sua conta no Twitter, Weintraub postou um texto no qual imitava o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, que, ao falar, troca a letra “R” pela “L”. O ministro ridicularizou o fato de alguns chineses, quando falam português, pronunciarem a mesma troca de letras. Na postagem, Weintraub insinuou que a China vai sair “relativamente fortalecida” da crise do coronavírus e que isso condiz com os planos chineses de, segundo ele, dominar o mundo. “Geopolíticamente (sic), quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”, escreveu Weintraub. Para ilustrar a postagem, ele publicou ainda uma foto de uma capa de um gibi da Turma da Mônica que mostra os personagens na China.

A reação chinesa foi imediata. Na mesma rede social, o embaixador chinês no Brasil, Wanming Yang, afirmou que espera um posicionamento oficial do País sobre a declaração de Weintraub. “O lado chinês aguarda uma declaração oficial do lado brasileiro sobre as palavras feitas pelo ministro, membro do governo brasileiro. Nós somos cientes de que nossos povos estão do mesmo lado ao resistir às palavras racistas e salvaguardar nossa amizade”, escreveu. Na postagem, Yang marcou o perfil do Ministério das Relações Exteriores. Para o governo da China, as declarações de Weintraub são “difamatórias” e têm “cunho fortemente racista”, além de “objetivos indizíveis”. “Instamos que alguns indivíduos no Brasil corrijam imediatamente os seus erros cometidos e parem com acusações infundadas contra a China.” Dias antes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República, havia culpado o Partido Comunista Chinês pela pandemia do novo coronavírus.

RESPOSTA CHINESA: Em reação às postagens do ministro, consideradas como “desprezíveis”, a Embaixada da China exigiu uma resposta oficial do governo brasileiro.

A chacota de Weintraub, que apagou seu tuíte, ecoou mal não apenas na área diplomática, mas também no campo dos negócios. No mesmo dia do post do ministro, o Ministério da Agricultura chinês anunciou que pretende reduzir, “por questão de segurança”, as importações de soja brasileira e ampliar as dos EUA. Além de comprar 80% de toda a soja brasileira, a China é a segunda maior economia do mundo, com um PIB de cerca de US$ 15 trilhões, e o maior parceiro comercial do País desde 2009. No ano passado, os chineses compraram 28% de tudo o que as empresas do Brasil venderam para fora, num total US$ 63 bilhões. No mesmo período, o País comprou US$ 35,8 bilhões da China. Cerca de 80% do superávit nacional no ano veio da relação comercial com os chineses e os principais produtos exportados foram soja (34%), petróleo (24%) e minério de ferro (21%), segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). “Não adianta ficar atiçando um país que só quer o bem do Brasil”, disse o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China, Charles Tang. “Esse acúmulo de ataques pode levar a decisões mais sérias por parte da China.”

Os atritos entre membros do governo brasileiro e importantes parceiros comerciais, como a China, geram a apreensão no agronegócio, mas acirram os ânimos em grande Hugo Ciloarte do setor exportador. Para José Antônio Castro, presidente da Associação de Exportadores do Brasil, esse tipo de situação não traz nenhum benefício para o País. “Em nenhuma hipótese, os ataques ajudam o Brasil. Uma agressão gratuita, sem mais nem menos”, completa. “A China fica na posição de pedir descontos nas compras do Brasil como pedido de desculpa”, diz.

PARCEIRO COMERCIAL:Principal destino das exportações brasileiras desde 2009, a China compra 80% de toda soja produzida no País.

FORA DO GIBI A Maurício de Sousa Produções, detentora da marca Turma da Mônica e do Cebolinha, também repudiou a publicação de Weintraub e afirmou que não autorizou o uso do personagem no post do ministro da Educação e que tem uma relação de muitos anos de amizade e admiração com os chineses. “Não autorizamos o uso de nossos personagens nessa postagem. A Mauricio de Sousa Produções tem uma relação de muitos anos de amizade e admiração com o povo da China. A nossa primeira publicação naquele país foi justamente sobre o Descobrimento do Brasil. Há 60 anos, a Turma da Mônica preza pela amizade entre todos os povos e continuará sendo assim”, disse a empresa, em nota oficial à imprensa.