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A piada bilionária

O Dogecoin nasceu como uma brincadeira. Agora vale mais do que a Petrobras e a Ford. Saiba como isso ocorreu — e se vale a pena investir nisso.

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Sabe quando algo começa como uma piada e se transforma em um negócio sério? É o caso do dogecoin. No fim da tarde da terça-feira (4), seu valor de mercado era estimado em R$ 381 bilhões. Nessa data a Petrobras valia R$ 295 bilhões e a montadora americana Ford estava avaliada em R$ 243 bilhões. Para entender esse fenômeno, vamos retornar a suas origens, em novembro de 2013. Foi quando Jackson Palmer, engenheiro de software que trabalhava no departamento de marketing da Adobe em Sydney, Austrália, resolveu fazer humor. Ele publicou uma recomendação de investimento em seu Twitter. “Invista em dogecoin, será o próximo grande fenômeno.”

A única questão era que a moeda virtual não existia. Palmer copiou um meme que havia viralizado. Eram imagens de Kabosu, uma cadela da raça japonesa Shiba Inu, com algumas palavras em inglês. O tuíte gerou alguma atenção, e Palmer resolveu manter a piada viva. Comprou o domínio “dogecoin.com”, subiu uma imagem de Kabosu em uma moeda e deixou um recado: “Se você quiser transformar a dogecoin em realidade, entre em contato”.

A mensagem foi lida do outro lado do Oceano Pacífico. O programador William Marcus trabalhava na subsidiária da IBM em Portland, Oregon, na Costa Oeste americana. Durante um fim de semana, ele copiou a estrutura do bitcoin e desenvolveu os protocolos do blockchain necessários para sustentar a dogecoin. Não foi muito difícil: Marcus resolveu tudo com três horas de trabalho.

Britta Pedersen

Seria apenas mais uma das 5 mil criptomoedas irrelevantes em circulação. Porém, nunca subestime o poder de uma piada. Por meio do agregador de conteúdo Reddit, Palmer e Marcus decidiram que qualquer pessoa poderia presentear outra dizendo apenas “mande cinco dogecoins para fulano”. Milhares resolveram participar da brincadeira para ganhar o equivalente a US$ 0,02. Isso popularizou a moeda muito rapidamente.

A piada começou a ficar séria semanas depois, em janeiro de 2014. No melhor estilo do filme Jamaica Abaixo de Zero, de 1993, uma equipe de trenó de gelo do país caribenho havia se qualificado para os Jogos Olímpicos de inverno em Sochi, na Rússia. Sem dinheiro para mandar os atletas, eles pediram contribuições. Palmer lançou um pedido na comunidade dogecoin, com a meta de levantar US$ 5 mil em duas semanas. Foram captados US$ 25 mil em duas horas. Seis meses depois, outro crowdfunding captou US$ 44,7 mil e colocou a dogecoin em um veículo participando de uma corrida de stock cars na Califórnia. Com iniciativas como essas, a moeda foi se tornando conhecida além dos aficionados por criptoativos.

ELON MUSK Tudo muito divertido, mas sem grande importância financeira. Até que Elon Musk, fundador da montadora Tesla e segundo na lista dos mais ricos, resolveu entrar na brincadeira. Usuário compulsivo do Twitter, Musk começou a falar da dogecoin em janeiro, anunciando para seus 52,7 milhões de seguidores que estava comprando a moeda. Isso fez a capitalização do dogecoin se multiplicar por dez, avançando de R$ 3,3 bilhões em dezembro de 2020 para R$ 32,9 bilhões no fim de janeiro. Desde então, os valores só aumentaram. No início de maio as cotações dispararam, com a notícia de que Musk faria uma participação no programa humorístico Saturday Night Live agendado para o sábado (8) interpretando o capo mafioso Dogefather. Com isso, o valor de mercado da moeda chegou a um pico de R$ 423 bilhões durante as negociações da terça-feira (4), retrocedendo em seguida.

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PREÇOS EM MARTE Elon Musk, fundador da Tesla, mandou as cotações da dogecoin para o espaço com seus tuítes

O que começou como uma piada agora é a quarta criptomoeda em capitalização, perdendo apenas para bitcoin, ethereum e binance coin. “Os investidores especulam que isso vai dar visibilidade ao dogecoin, fazendo com que seu preço suba ainda mais”, disse o CEO da corretora Brasil Bitcoin, Marco Castellari.

Vale a pena investir? É difícil prever qualquer movimentação futura das criptomoedas. Esses ativos são puramente especulativos e não pagam rendimentos. Ou seja, quem compra só consegue ganhar dinheiro se vender por um preço mais alto. Devido a seu valor elevado e à popularidade, é improvável que as cotações do dogecoin retornem às frações de centavos do início deste ano. Por isso, vale a recomendação para as demais criptomoedas: dada sua crescente popularidade, o investidor que quiser arriscar deve literalmente apostar no dogecoin, desde que o valor não supere 0,1% de seu patrimônio financeiro. E, em caso de alta, resistir bravamente à tentação de aumentar a aposta. O que começou como piada e se tornou algo sério pode provocar autênticas tragédias para quem arriscar demais.