A perda do dinheiro verde

A perda do dinheiro verde

Nos últimos dias o País foi tomado pela notícia de que o mundo não irá mais tolerar os abusos de desmatamento e queimadas praticados por aqui, com a anuência de um governo que nada faz para barrar o aumento recorde dos índices nesse sentido. Os carbonários da floresta estão em franco avanço. Os conflitos de garimpeiros e indígenas ampliam-se sem controle e tudo isso terá um custo pesado. Financeiramente falando. Além dos organismos multilaterais e países que protestaram e congelaram recursos para a região, um grupo de 29 instituições financeiras globais assinou uma carta de alerta deixando claríssimo que não será mais tolerado o quadro. Fizeram mais: ameaçaram retirar seus investimentos do Brasil se nada for feito. Não dá para desconsiderar o time de instituições signatárias da carta. Juntas elas respondem por mais de US$ 3,75 trilhões, mais do dobro do PIB nacional, e aplicam quantias consideráveis em empresas de ponta que atuam por aqui em diversas áreas. O desmantelamento de políticas ambientais e de direitos humanos, como dizem os organismos multilaterais, tem gerado incertezas e dúvidas generalizadas sobre as reais intenções desse governo em relação a um tema tão caro para a comunidade global. Fazer pouco caso da demanda ambiental não é apenas um ameaça à imagem. O dinheiro verde, que cresce em volume e importância, está fugindo das economias não compromissadas com tais princípios.

O vice-presidente Hamilton Mourão, que assumiu o comando da causa ambiental e pilota grupos de ação nesse sentido, já começou a correr atrás do potencial prejuízo. Junto ao Banco Central, está tentando organizar uma videoconferência com investidores de todo o mundo para esclarecer sobre os caminhos traçados e serenar os ânimos. O fato é que, até agora, nem a guarda nacional do ambiente, anunciada em janeiro com pompa e circunstância por Bolsonaro para coibir os abusos, saiu do papel. Ela só deverá começar a operar mesmo, segundo a nova promessa, a partir de 2021. É que faltam recursos. O entrave financeiro foi ainda maior após a pandemia e esse efetivo policial acabou, provisoriamente, substituído por militares que não funcionaram a contento. Para instituir a força nacional, a previsão é de um investimento inicial de R$ 50 milhões, com a expectativa de reunir de 400 a 500 homens, entre bombeiros e policiais de fronteira. Mas ao invés de lançar tal demanda como prioridade um, o capitão reformado prefere gastar quase R$ 2 bilhões neste ano e outros tantos nos anos seguintes em aumento de soldos dos militares. A ordem de preferência de Bolsonaro segue muito distante daquela que seria a mais adequada para o desenvolvimento e garantia de investimentos do Brasil.

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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