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A ofensiva do PicPay

Empresa de pagamentos revela suas frentes de batalha, que incluem IPO nos Estados Unidos e app de mensagens (como um WhatsApp)

Crédito: Claudio Gatti

FOCO NO CRESCIMENTO A partir da esquerda, Eduardo Chedid, José Antonio Batista e Anderson Chamon, os principais executivos do PicPay: expansão acelerada no topo da agenda. (Crédito: Claudio Gatti )

Após perder o emprego nos primeiros meses da pandemia, o faxineiro Emerson Ferreira dos Santos teve de recorrer ao comércio ambulante. Para pagar as contas, ele tem vendido balas em semáforos na região da Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Não gosta do serviço e está procurando outra colocação. Enquanto nenhuma oportunidade aparece, enfrenta de dez a 12 horas de sol e chuva todos os dias, driblando automóveis e motocicletas. Para facilitar as coisas, Santos aceita pagamentos virtuais. “A galera não anda com dinheiro no bolso, se não aceitar pagamento pelo celular eu perco venda.” Santos é um dos milhões de brasileiros da base da pirâmide. Também é um dos 50 milhões de usuários da empresa de pagamentos e serviços financeiros PicPay.

O logotipo verde vem se tornando cada vez mais presente no dia a dia dos brasileiros. Suas transações são aceitas não apenas por vendedores ambulantes, mas também intermediam a circulação das “estalecas”, moeda virtual que circula entre os participantes do Big Brother Brasil (um investimento publicitário de R$ 50 milhões garante essa visibilidade). E agora a empresa está se preparando para levar sua cor verde a Nova York. A expectativa é que até o meio do ano ela liste suas ações no mercado eletrônico de balcão americano Nasdaq. “É o caminho natural para o PicPay”, afirmou à DINHEIRO o CEO José Antônio Batista. “As principais empresas globais de tecnologia estão lá fora.”

A origem do PicPay foi semelhante à de mais de 700 fintechs brasileiras, empresas que prestam serviços financeiros com base no uso intensivo de tecnologia. Ele foi criado por três empreendedores de Vitória (ES), em 2012. Três anos depois, em 2015, seu controle foi adquirido pelo grupo J&F, por meio do qual o empresário José Batista Sobrinho, controla seus negócios, incluindo a participação na empresa de proteína animal JBS e o Banco Original. Para atrair os investidores americanos, a companhia oferece a perspectiva de um crescimento exponencial em potencial.

Um dos principais trunfos é sua capacidade de atender as necessidades de um vendedor ambulante e distribuir produtos e serviços. A proposta dos fundadores capixabas era que o aplicativo funcionasse como uma carteira digital. O princípio era semelhante à conta corrente de um banco. O cliente cadastrava uma conta no celular, depositava dinheiro nela por meio do pagamento de um boleto bancário em um banco tradicional ou casa lotérica, e usava os recursos para quitar as despesas cotidianas.

MARKETING AGRESSIVO As “estalecas”, dinheiro dos participantes do Big Brother Brasil, circulam por meio do aplicativo do PicPay: R$ 50 milhões foram destinados a esse investimento publicitário. (Crédito:Reprodução)

A novidade era a forma como as transações eram (e ainda são) processadas. O exemplo mais didático é o pagamento do tradicional cafezinho. Em vez de inserir seu cartão de crédito ou débito em uma maquininha e digitar a senha, o cliente usa seu celular para fotografar um código QR gerado pelo comerciante. A imagem identifica o valor da despesa e a empresa a ser creditada. É mais rápido, mais seguro e, principalmente, mais barato do que uma transação por cartão.

O ineditismo ajudou a nomear a iniciativa. “Nosso nome tem origem nas palavras picture payment, ou pagamento por imagem, pois a proposta inicial era processar as transações por meio de um código QR”, disse o vice-presidente financeiro do PicPay, Eduardo Chedid. “Foi uma alternativa para tornar mais claro o que a empresa fazia, pois, naquele momento, o pagamento por código QR era uma novidade até mesmo na China.”

Esse foi só o começo. Após a aquisição pelas empresas ligadas à holding J&F, o PicPay foi, gradativamente, ampliando não só seu porte como o escopo de suas atividades. O carro chefe ainda são os pagamentos e transferências financeiras. Tudo por meio dos aplicativos armazenados em smartphones. A empresa acaba de ultrapassar a marca dos 50 milhões de usuários cadastrados, dos quais cerca de 37 milhões são clientes ativos, aqueles que fazem transações. Essa multidão populacional pode acessar os aplicativos mais populares e encomendar comida, chamar um motorista e, a desde o ano passado, receber os pagamentos do auxílio emergencial. Porém, a empresa está diversificando suas atividades em várias frentes.

MERCADO DE MASSA Do vendedor ambulante em um semáforo paulistano ao universo dos aficionados por jogos eletrônicos, já são 50 milhões de clientes cadastrados. (Crédito:Cláudio Grandiole)

Uma delas são os cartões de crédito, lançados no ano passado. São cartões múltiplos, com a bandeira Mastercard. “Passamos três trimestres de 2020 deixando o produto redondo, e agora ele está pronto para ser lançado com força total”, disse Chedid. Outra iniciativa são os empréstimos pessoais, ainda em fase experimental. Mas o que considera mais promissor é uma iniciativa bem brasileira, o empréstimo entre pessoas. Conhecido como peer-to-peer lending, abreviadamente P2P, esse serviço está sendo lançado em um piloto com 500 mil usuários. “É uma variação do empréstimo entre amigos e familiares, algo que é corriqueiro no Brasil”, disse Chedid.

O principal atrativo do serviço é evitar o constrangimento de cobrar o amigo ou parente que “esqueceu” de pagar o que deve. A plataforma gerencia todo o processo. Quem pede o empréstimo manda uma proposta informando valor, juros e número de parcelas. O sistema do PicPay registra tudo, elabora um contrato virtual simplificado e faz o serviço desagradável de recordar ao devedor as datas de honrar o prometido, por meio de avisos no sistema. Para oferecer essa facilidade, o PicPay cobra uma tarifa. Segundo Chedid, a empresa está muito bem posicionada para isso. “Nossa base de clientes é grande, nosso sistema favorece as interações sociais e, principalmente, esse tipo de empréstimo já está regulamentado, o que garante uma base legal sólida”, disse ele.

REDE SOCIASOCIAL E PUBLICIDADEICIDADE Além da distribuição de produtos e serviços financeiros, o PicPay pretende avançar no comércio eletrônico por meio da PicPay Store. A loja virtual não pode ser chamada de lojinha. Desde seu lançamento, no ano capa passado, ela já processou 25 milhões de transações – a empresa não revela o valor total nem o tíquete médio. “Começamos com games, pois boa parte dos nossos usuários é jovem e ligado no universo gamer”, disse Chedid. No entanto, a companhia avançou além desse escopo majoritariamente virtual. Já fechou uma parceria com a empresa de eletroeletrônicos Multilaser, para a venda de aparelhos de televisão e acessórios. Até o ano que vem, o PicPay espera costurar mais parcerias para atuar nos setores de educação, viagens e transportes. Para isso, foi recrutado Fabio Plein, ex-gerente geral do Uber Eats. O argumento é o acesso à enorme base de clientes do PicPay, comparável à da concorrência. Segundo as estimativas do mercado, o Mercado Livre tem mais de 42 milhões de usuários no Brasil, a B2W serve cerca de 40 milhões e o Magazine Luíza atende 33 milhões de brasileiras e brasileiros.

Um dos pilares é o que o vice-presidente de Produtos e Tecnologia, Anderson Chamon, chama de network effect, ou efeito rede. “Ele é criado a partir da integração dos serviços financeiros às funcionalidades de rede social e nos permite gerar maior valor à medida que mais pessoas utilizam nosso app”, disse Chamon, que também é um dos fundadores do PicPay. Segundo ele, aí se insere o lançamento recente de um serviço de mensagens para concorrer com o WhatsApp. “É o passo definitivo para nos consolidarmos como uma rede social. As interações deixarão de ser transações e vão passar a ser conversas”, disse ele. Chamon avalia que as funções de rede social permitirão ao PicPay entrar no mercado de mídia, veiculando anúncios digitais.

Além dos quase dez anos de estrada e de ser controlado por um dos maiores grupos empresariais nacionais, o PicPay foi ajudado pela conjuntura. As medidas de restrição provocadas pela pandemia aceleraram muito o processo de digitalização do sistema financeiro, provocando um terremoto pouco perceptível que já começou a sacudir as finanças nacionais. Premidos pelas medidas de isolamento social e pela necessidade de receber os pagamentos do auxílio emergencial pagos pelo governo, milhões de brasileiras e brasileiros tiveram de digitalizar suas transações. Segundo o sócio responsável pela indústria de Serviços Financeiros da consultoria Deloitte, Sergio Biagini, o avanço da digitalização no sistema financeiro nacional ganhou velocidade inédita em 2020. Em 2015, uma pesquisa da Deloitte realizada em parceria com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) mostrava que, naquele ano, os brasileiros realizaram 11,2 bilhões de transações financeiras pelo celular, 20,2% do total. Em 2019, essa cifra havia crescido para 39,4 bilhões de transações, e sua participação no total mais que dobrou, atingindo 43,8%. A pesquisa referente a 2020 deverá ser divulgada em maio, e muito provavelmente mostrará que mais da metade das transações já ocorre por meio de celulares. Em linha com a estratégia desenhada pelo PicPay.

ENTREVISTA: José Antônio Batista

Claudio Gatti

CEO do PicPay, lidera o que pode ser uma das maiores startups financeiras do País. Ele falou com a DINHEIRO.

“O PicPay está pronto para dar lucro”

Com os recursos captados a partir da abertura de capital na Nasdaq e como esse movimento se insere na estratégia da empresa?
As principais empresas globais de tecnologia estão lá fora. É o caminho natural para o PicPay.

Após a captação dos recursos, quais os próximos passos?
Além de dar continuidade à ampliação da base de usuários, os próximos passos são o lançamento de novos serviços, financiamento de potenciais aquisições e atendimento a necessidades relacionadas à expansão do negócio.

A empresa teve um prejuízo operacional de R$ 325,7 milhões em 2020. Isso pode afastar os investidores?
Não. O resultado está diretamente relacionado ao ritmo acelerado da nossa estratégia de crescimento. No ano passado quase triplicamos o número de usuários cadastrados.
O PicPay está pronto para dar lucro e já opera com margens positivas. É uma questão de escolha.

Qual o percentual das ações a empresa pretende vender e quando deverá ser a abertura?
Não podemos responder nesse momento.

Além do banco Original, o PicPay está em tratativas com outras instituições financeiras e de pagamentos para ampliar seu escopo de produtos e serviços oferecidos. Quais são elas?
Somos uma plataforma aberta, capaz de se plugar a vários parceiros para oferecer produtos financeiros de forma integrada, com toda inteligência e foco em experiência.
Já estamos integrando com um novo parceiro e negociando com vários outros.