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A nova trilha do enoturismo

Com investimentos de R$ 400 milhões para construção de dois resorts no Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves pavimenta o caminho para atrair novos visitantes à Serra Gaúcha.

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LUXO NA SERRA Projeto de R$ 300 milhões do Bewine Resort, em Bento Gonçalves, pode fazer R$ 1,3 bilhão em venda de títulos em cinco anos. (Crédito: Divulgação)

São 120 quilômetros de Porto Alegre a Bento Gonçalves pontuados por fábricas e propriedades agrícolas. Os 1,5 milhão de visitantes que o município serrano recebe por ano afetam pouco a sua dinâmica urbana. Além de ser movido pelos eventos corporativos, o turismo na cidade é uma extensão da zona rural, para onde seu público se dirige durante o dia. Cercada pelo Vale dos Vinhedos, primeiro território com Denominação de Origem no País, desde 2012, Bento concentra 30 vitiviniculturas, sendo algumas das maiores e mais premiadas nacionalmente. Está apenas a duas horas a oeste de Gramado, um dos principais destinos no sul do Brasil, com um fluxo de viajantes cinco vezes maior.

Só que a saturação do setor hoteleiro na vizinha, que é menor em território, voltou o interesse dos investidores para Bento Gonçalves, tornando-a a bola da vez do turismo regional. O vale atraiu R$ 400 milhões para construção de dois resorts em meio às vinícolas, à luz do que já existe no Chile e na Argentina. Nos próximos cinco anos, os projetos Castelos do Vale e Bewine somados devem gerar 3 mil empregos e entregar 606 novas acomodações, pavimentando a trilha para o enoturismo brasileiro.

Apesar de o turismo doméstico estar 22% abaixo de 2019, segundo estimativas da FecomercioSP, o enoturismo está aquecido. Além da qualificação dos rótulos nacionais, com o dólar alto e a dificuldade de importar, mais consumidores abriram espaço em suas adegas para as bebidas produzidas no Brasil. O consumo de vinhos finos nacionais dobrou na comparação com 2019, e o mercado bateu recorde de 2,7 litros per capita, segundo dados da Ideal Consulting.

O Castelos do Vale, um empreendimento de R$ 100 milhões da construtora Goiana Mundo Planalto, aproveitou esse embalo para se aliar à butique Dom Cândido, há 146 anos no setor. A associação com uma empresa tradicional da Serra Gaúcha amenizou o ceticismo com os planos e aproximou os investidores da entidade de produtores, que fiscaliza interferências no terreno de viticultura. “Este era um sonho do meu pai que conseguimos levar adiante agora”, disse Marcos Valduga, um dos donos da vinícola, sobre a motivação familiar. Seu pai, Cândido Valduga, morreu em 2015, aos 84 anos. “O turismo em Bento Gonçalves está crescendo de forma sensível, e a nossa aposta é que deve melhorar a economia da região.”

A primeira etapa do projeto entregará 68 apartamentos até novembro de 2025. As vendas funcionam no sistema de propriedade compartilhada, pelo qual cotas garantem uso do imóvel por um período determinado e mediante agendamento. O título que dá direito a uma quinzena por ano no complexo está sendo vendido por R$ 50 mil. O dono pode ainda trocar a estadia por hospedagem em outro hotel da rede intercambiadora norte-americana RCI, parte do grupo Wyndham, ou locar a diária atualmente estimada em R$ 900. Os outros 117 apartamentos e áreas comuns previstas na obra, como o Spa e a cave, serão levantados na segunda fase. José Roberto Nunes, CEO da Mundo Planalto, diz que “a perspectiva é continuar investindo em novas propriedades na região”.

A estrutura de castelo, inspirada no Vale do Loire, região vinícola da França, começará a ser erguida em março entre os hectares cultivados pela quarta geração da Dom Cândido. O terreno é como uma vitrine da marca, onde são conduzidos passeios e degustações com Cabernet Franc, Marselan, Petit Verdot, além de outras mais comuns na região, como Merlot e Riesling. Cerca de 60% das vendas da vinícola estão atreladas às visitações, especialmente pela dificuldade de escoar a produção. O frete médio custa R$ 80 e o prazo para entrega chega a 15 dias úteis para a região Sudeste.

CONCORRÊNCIA Por isso a Dom Cândido deseja atrair a demanda latente: a pandemia aumentou as visitas de outros estados, que hoje representam 44% dos turistas, enquanto a oferta está estagnada. Ao lado da vinícola, a pousada Casa Valduga, que pertence a outro galho da família de imigrantes italianos, possui apenas 24 acomodações. Já o Hotel&Spa do Vinho, administrado pela rede Marriott, não permite a entrada de crianças, embora famílias com filhos representem 48% dos viajantes na região.

A verdadeira concorrência do Castelos do Vale será o Bewine Resort, um luxuoso empreendimento de R$ 300 milhões previsto para inaugurar no mesmo período e nos mesmos moldes. Até o padrão multipropriedade com a RCI é repetido. A gaúcha Andora Construções erguerá as 421 suítes em 60 mil m2 de área construída às margens do quilômetro 16 da ERS-444. Os projetos brigam pelos superlativos e pelo público. No Bewine, os títulos variam entre R$ 60 mil e R$ 188 mil, neste caso pela cota da unidade de 154 m2 com piscina privativa e estadia de uma semana por ano. Ao cabo dos cinco anos previstos para conclusão da obra, os investidores preveem embolsar R$ 1,3 bilhão com as vendas de títulos.