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A nova onda da cannabis

Com o aquecimento do setor no mundo, mercado brasileiro pode atingir US$ 30 bilhões até 2030 com a exploração da planta para medicamentos e como insumos na indústria.

Crédito: Istock

A onda verde é uma referência ao avanço do mercado de cannabis, que inundou a indústria global desde a flexibilização do consumo e liberação do plantio da maconha em diferentes países. Seu uso amplo e legalizado deve impulsionar um crescimento de 28% ao ano e chegar a US$ 100 bilhões em vendas até 2030 somente nos Estados Unidos, segundo o banco de investimentos Cowen. Já a farmacêutica Tilray projeta movimentação de US$ 300 bilhões no mundo nos próximos dez anos. Por ora à margem desse movimento, o cenário no Brasil hoje é de um mar sem ondas e lotado de forasteiros, atraídos pela promessa das condições favoráveis. Desde a flexibilização da importação e do comércio de medicamentos de cannabis em março de 2020, o setor começou a se consolidar por aqui. Quase dois anos depois, com a evolução dos estudos sobre a planta, começam a se desdobrar caminhos para o futuro do mercado de cannabis, que atrai cada vez mais investidores e grandes empresas para o País.

Com dados do Euromonitor, a Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis (Abicann) estima que a indústria pode atrair até US$ 30 bilhões e gerar até 300 mil empregos dentro de dez anos.“Estamos pedindo um novo julgamento sobre a planta para poder destravar esse potencial, especialmente no agronegócio”, disse Thiago Ermano, presidente da entidade, que reforça se tratar de uma projeção em que o Brasil já teria um parque produtivo instalado e operando a toda capacidade. “A cannabis é matéria para mais de 5 mil produtos em 21 setores da economia.” Só a fibra de cânhamo, uma variante da cannabis sativa, pode ser utilizada de 50 mil formas nas indústrias têxtil, alimentícia, de combustível e da construção civil. O que pode eclodir o potencial do cultivo é a perspectiva de que projetos de pesquisa do cânhamo com a Embrapa e com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) ganhem força no segundo semestre de 2022.

FINS MEDICINAIS Pela análise da Abicann, US$ 15 bilhões do futuro da cannabis estariam concentrados na área medicinal. Eder Maffissoni, presidente da Prati-Donaduzzi, que faturou R$ 1,5 bilhão em 2020 e foi pioneira no desenvolvimento do medicamento de canabidiol no Brasil, é mais cético sobre a bolha. Para o executivo, trata-se de um mercado que, quando maduro e consolidado, chegaria a R$ 200 milhões.

A lacuna é criada entre as leituras sobre potencial e realidade. A associação prevê que 18 milhões de pacientes poderiam se beneficiar com o desenvolvimento desse mercado no Brasil, enquanto para a farmacêutica brasileira o universo estaria restrito a pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais. “Os investimentos para desenvolvimento desses produtos são da ordem de R$ 30 milhões por estudo”, afirmou Maffissoni. Ele explica que a complexidade do processo de extração do canabidiol faz com que a produção seja de alto custo, o que afugenta as gigantes da indústria farmacêutica. O medicamento da Prati-Donaduzzi é vendido a partir de R$ 230 e pode chegar a R$ 2 mil. De toda forma, sempre uma curva de longo prazo tende a fazer esses preços desabarem, como acontece com qualquer avanço tecnológico.

HORIZONTE VERDE Em 2022, Anvisa revisará regulamentação com base na experiência adquirida no mercado, e cenário da cannabis medicinal pode se ampliar no Brasil. (Crédito:Bruno Morais Batista)

O estudo de canabidiol da farmacêutica é um dos mais avançados hoje e deve apresentar seus resultados no começo de 2022. Assim, poderá se tornar o primeiro produto feito e comercializado no País e reconhecido pela Anvisa como medicamento de cannabis. O aquecimento do mercado medicinal, único que é regulamentado no Brasil, deve-se à pressão de pacientes. A Federação das Associações de Cannabis Terapêutica estima que ao menos 50 mil pessoas tenham acesso a produtos e medicamentos de cannabis via importação ou pela produção das associações, legalizadas por liminares. O médico Ronaldo Correia, parte de uma comunidade de 2 mil prescritores de cannabis, relata que a expansão da oferta no último ano está movimentando os consultórios. “Mesmo com esse avanço, estamos limitados quanto ao tipo de medicações disponíveis.”

Dos oito pedidos aprovados pela Anvisa, boa parte foi liberada recentemente e só deve chegar às farmácias em 2022. A maioria dos pedidos vem de empresas pequenas. Uma gigante interessada no setor é a Hypera Pharma, que protocolou pedido de comercialização de um fitofármaco de cannabis no começo deste mês. Para Theo Van der Loo, que foi presidente da Bayer e se tornou um empresário de cannabis com a fundação da Natuscience, as farmacêuticas nacionais devem se engajar cada vez mais nesse mercado. “Esse será um grande desafio para os pequenos no setor”, disse.CULTIVO Enquanto isso, cresce o interesse de países vizinhos no desenvolvimento do setor no Brasil, de olho na região como um pólo consumidor e para industrialização e pesquisa da planta. Em 2020, a importação de medicamentos de cannabis, que é liberada sob autorização da Anvisa, movimentou cerca de R$ 80 milhões. Neste ano, as cifras devem saltar significativamente e, em 2022, parte desse dinheiro pode ficar no mercado nacional, graças ao aumento de produtos comercializados no País.

Mas o caminho para a liberação não é tão simples. O projeto de lei 399, de 2015, que permite a plantação em todo o País, autoriza a produção e comercialização de produtos fabricados a partir do cânhamo industrial, além dos medicamentos de cannabis, segue na Câmara dos Deputados sem perspectiva de apreciação. Assim que – e se – aprovado, exigirá a atualização do aparato técnico. O Brasil é signatário do tratado internacional da ONU para combater o abuso de drogas, o que demanda fiscalização ostensiva. João Paulo Silverio, gerente da área de fitoterápicos da Anvisa, diz que o ambiente em países liberados é absolutamente controlado. “Desde a gestão de resíduos industriais até o transporte e acompanhamento dos cultivos”, afirmou.

Para encurtar a espera, entidades do setor propõem mudanças legislativas regionais que flexibilizem o cultivo. Segundo Ermano, da Abicann, há conversas avançadas com diversos estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, que avaliam como desenvolver o mercado. “O verdadeiro valor da cannabis está no processamento industrial”, disse. Assim, esses agentes podem assumir a liderança para destravar as barreiras regulatórias daqui para frente. O desenroscar traz o mercado a um ponto de inflexão, com milhares de questões e ainda poucas respostas sobre o que realmente será da onda verde no Brasil. Mas uma oportunidade está na mesa.

ENTREVISTA: Theo Van der Loo foi presidente da Bayer no Brasil até 2018 e se tornou empresário do segmento de cannabis com a fundação da Natuscience.

Nilton Fukuda

Qual é o desafio desse mercado no Brasil?
É em relação ao negócio. Sem medidas regulatórias que garantam o cultivo para fins de pesquisa, temos muita informalidade. Não há empresas do setor que estejam ganhando muito dinheiro com esses produtos hoje, e isso faz com que tenhamos mais cautela. Não quero convidar investidores a fazer aportes e depois não entregar aquilo que estou prometendo. É aguardar para ver o que vai acontecer. Este é um momento que não vale a pena ser pioneiro, porque a vantagem está em observar e aprender com a experiência do mercado.

Há risco de a cannabis não vingar?
O mercado de cannabis medicinal vai acontecer, como já estamos vendo em outros países, mas não será um processo fácil. Lá fora, a maior fatia desse mercado é movimentada pelo cânhamo industrial, que pode ser usado na indústria e para uso recreativo, que concentra uma boa fatia do setor.

Por que não será fácil?
A cannabis está em uma área cinzenta, porque não existe patente e há muitos benefícios sobre ela que nem sequer conhecemos ainda. A única forma de conseguir alguma proteção intelectual hoje, o que justificaria o investimento na pesquisa, é desenvolver a própria planta e ter uma genética exclusiva.

Qual é a perspectiva para o cenário nacional?
A médio e longo prazo, podemos ter produtos mais acessíveis. A questão é que ainda há muitas barreiras no Brasil, apesar de um movimento mundial de avanço. Primeiro, o mercado está atraindo muitos aventureiros, investidores que não conhecem o setor farmacêutico e entram apenas atrás do dinheiro. Já o cenário regulatório deve avançar, só não sei se na velocidade que gostaríamos. Os políticos precisam se dar conta da importância de desmistificar o mercado. Estamos falando de um tema científico e de saúde, não de venda de drogas. O Brasil tem um potencial enorme até mesmo como exportador e como ambiente de pesquisa.

E quanto a outras frentes do mercado?
A agenda de plantação no Brasil para fins de pesquisa precisa andar em paralelo. O cânhamo industrial pode ser uma oportunidade para o País, mas começar pelo canabidiol já é um avanço.