Investidores

A nova estratégia das gestoras

A regra é buscar ações que estão subvalorizadas. O foco, porém, deve estar nas empresas com menor alavancagem e previsão maior de receitas. Negociar na bolsa americana também é opção.

Crédito:  Istock

No fim de 2019, as expectativas para o Brasil eram quase unânimes: haveria expansão da economia este ano. O cenário incluía uma bolsa de valores pujante. O Ibovespa havia fechado 2019 em 115 mil pontos, com a perspectiva de atingir 140 mil até dezembro. Mas a pandemia do novo coronavírus mudou completamente as projeções. Até o dia 20 de abril, o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo acumulava queda de 31,71%, mesmo depois de ter começado uma reação que possibilitou variação positiva de 8,15% no mês. Esse ambiente econômico completamente alterado contaminou todos os setores e obrigou os gestores de fundos a mudarem as suas estratégias. A aposta agora está na busca de ações que ficaram baratas, sem perder o foco em empresas de maior qualidade e de baixo endividamento.

Segundo o sócio-fundador da Forpus Capital, Luiz Nunes, antes da crise, os preços estavam altos. Assim, quando o Ibovespa atingiu 72 mil pontos, a interpretação era de que os preços haviam chegado ao fundo do poço. A opção foi vender suas proteções para recomprar ações com preços menores. O problema é que houve uma nova rodada de queda. A gestora então montou posições focadas em setores com liquidez, principalmente fornecedoras de commodities e bancos, papéis que têm mais peso na Bolsa. “Escolhemos commodities porque observamos que os investidores estão buscando ativos reais, ou seja, empresas que produzem coisas de fato e são sólidas”, afirma, citando Gerdau, JBS, Klabin, Marfrig, Suzano, além dos cinco grandes bancos brasileiros.

Nunes também afirma que está vendido em títulos da dívida americana por acreditar que acontecerá um movimento inflacionário gerado pela injeção de liquidez. “Quando existe a expectativa de inflação, a curva de juros sobe e o preço dos títulos cai”, diz. A queda nos preços desses bonds tem outra consequência, que é a repatriação de dólares, já que o papel ficará menos atrativo para os investidores. Se a previsão se confirmar, essa repatriação deverá enfraquecer a moeda americana em relação ao real.

Neste momento, segundo analistas, também é importante abandonar ações que eram prioritárias até recentemente. Luis Felipe Amaral, sócio-gestor da Equitas, uma das gestoras de melhor desempenho dos últimos anos, diz que uma decisão importante foi se desfazer de posição na Petrobras, até então entre as principais empresas de seu portfólio. O motivo foi a crença, agora confirmada, de que o preço do petróleo ficaria em baixa por um período relativamente longo. “Reposicionamos para os setores de saúde e de utilities, como energia elétrica e saneamento, que têm previsibilidade de receita maior”, diz Amaral. Outro ponto a favor dessas ações é o preço. Praticamente todas as empresas nacionais estão baratas. A exceção, segundo o sócio-gestor da Equitas, é o setor de commodities, que caiu menos do que os demais e continuaria com valor alto. Entre as ações vistas por Amaral como as mais atrativas (e que trariam a possibilidade de bons retornos em médio e longo prazos) estão Equatorial, Localiza, Magazine Luiza, NotreDame Intermédica e Lojas Renner. Para o gestor da Equitas, a recuperação econômica pode levar até dois anos. Ele desaconselha o investidor a se desfazer de ações em real para comprar papéis nos Estados Unidos, embora a recuperação lá seja mais rápida do que aqui. Para quem não tem caixa para fazer o movimento de aporte nos EUA, um risco se impõe. “Meu dilema é vender minhas posições desvalorizadas em real e comprar posição valorizada em dólar”, afirma. “A diferença é brutal.”

“Os setores de saúde, energia elétrica e saneamento têm previsibilidade de receita maior” Luis Felipe Amaral sócio-gestor da Equitas. (Crédito:Marcia Beltrao Berger)

ABANDONO DAS PRIORITÁRIAS Sócio-fundador da Verde Asset Management, Luis Stuhlberger recomenda a compra de ações nos EUA por acreditar na rápida recuperação da economia americana. Reconhecido por sua capacidade de fazer previsões complexas, Stuhlberger ganhou notoriedade ao conseguir bons retornos na crise asiática de 1997 e nos choques de câmbio de 1999 e 2002. Em live promovida pela XP Investimentos, no sábado 18, ele declarou que um estudo de sua gestora aponta que os estímulos dados pelo governo dos EUA devem contribuir para que as empresas de lá se recuperem rapidamente. Além disso, o lockdown deverá acelerar a busca por inovação e produtividade, o que beneficiará empresas de tecnologia. Vale ressaltar que, mesmo antes da crise, a maior parte das posições da Verde já estava em ações negociadas em bolsas americanas. Ainda assim, Stuhlberger se mostra preocupado com a injeção sem precedentes de liquidez na economia, o que pode fazer com que a moeda americana perca valor. Os EUA anunciaram a injeção de cerca de US$ 1,4 trilhão para enfrentar a pandemia. Parte do valor será na compra de títulos corporativos pelo Federal Reserve. Outra, em auxílio a desempregados.

Construir um portfólio com ações de empresas de alta qualidade e maior resiliência do que a média do mercado é outra recomendação de Stuhlberger. A Verde optou, no Brasil, por ações que estão com preços muito atraentes devido à crise e que se encaixam nesse perfil: BR Distribuidora, Equatorial, Hapvida, Localiza, Magazine Luiza, Mercado Livre, NotreDame Intermédica e Sul América constam na carteira do fundo. “Diria que continuo otimista, porque, se não estivesse, teria menos posições na bolsa local do que tenho”, diz Stuhlberger. A experiência de quem já passou por diversas crises costuma ser valiosa.

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