Estilo

A nova escrita da Montblanc

Sem abandonar os produtos clássicos, Michel Cheval, o novo CEO da marca alemã no Brasil, quer aproximar a empresa de uma nova geração de consumidores que buscam tecnologia

Crédito: Marco Ankosqui

Michel Cheval, diretor da Montblanc no Brasil: “Temos o desejo de mudar e dar acesso para a nova geração” (Crédito: Marco Ankosqui)

Nos seus 112 anos de história, a Montblanc ficou conhecida pela fabricação de canetas esferográficas e de pena. Embora a projeção global para esse mercado seja de expansão de 5% até 2021, de acordo com a empresa britânica Technavio, a companhia alemã que faz parte do Grupo Richemont, um conglomerado que administra outras 16 marcas e fatura € 10,7 bilhões ao ano, está de olho no crescimento das vendas de produtos com alta tecnologia para novos consumidores. “Temos o desejo de mudar e dar acesso para a nova geração”, diz o francês Michel Cheval, que assumiu o comando da empresa no Brasil em abril deste ano. Apesar do curto período no País, o executivo fez questão de fazer esta entrevista em língua portuguesa para se familiarizar com o sotaque. “é muito importante falar o idioma do país em que se está”, disse ele.

Aos 43 anos, Cheval é um dos diretores mais novos do grupo e o seu perfil está alinhado com a nova estratégia da Montblanc de abrir as portas para o público jovem. Desde o ano passado, a marca alemã adotou um conceito chamado de NEO. O objetivo é desenvolver e dar visibilidade a produtos modernos, fortemente baseados em tecnologia. Em março, a Montblanc lançou seu primeiro relógio inteligente, o Summit, feito em parceria com o Google. O produto, que custa R$ 3,95 mil, tem funcionalidades como o monitoramento cardíaco durante o exercício físico e um tradutor ativado por comando de voz.

Smartwatch: a Montblanc inovou ao lançar a coleção Summit, uma linha de relógios inteligentes para concorrer em um mercado que deve faturar US$ 32,9 bilhões em 2020 (Crédito:Cedric Schanze)

O sucesso desses smartwatches tem levado várias marcas a apostarem no setor. Empresas como Samsung, TAG Heuer, Kairos, de Grisogono e Louis Vuitton querem abocanhar uma parte desse segmento que deve movimentar US$ 32,9 bilhões em 2020, segundo estimativa da Allied Market. No ano passado, foram vendidos 75 milhões desses assessórios, mais que o dobro das 35 milhões de unidades de 2016. A Apple, que lançou seu primeiro produto em 2014, responde por mais da metade das vendas globais. “As empresas, em especial as tradicionais de luxo, estão enxergando que não podem ficar paradas no tempo”, diz Freddy Rabbat, presidente da Associação das Empresas de Luxo (Abrael) e CEO da Tag Heuer.

Apesar de a Montblanc querer ampliar o seu portfólio de produtos, as clássicas canetas seguirão sendo seu negócio principal. A nova coleção JFK, por exemplo, em homenagem ao presidente americano John Kennedy (1917-1963), estava disponível na boutique do shopping Cidade Jardim, uma das 12 que a empresa tem no País. As unidades, que têm valor unitário de R$ 4,1 mil, mal chegam a ir para a vitrine. “Elas já têm donos”, diz o CEO. Mas para cativar seu público, a marca está trazendo atributos tecnológicos ao seu produto. Em setembro do ano passado, foi lançado o Augmented Paper, um bloco de notas equipado com um sensor, que transfere o conteúdo escrito no papel para um smartphone ou tablet.

Caderno moderno: o Augmented Paper possibilita que a escrita feita no papel seja transferida, com um toque, para o smartphone ou tablet (Crédito:Michael Kaack)

A ideia é unir a escrita tradicional das canetas Montblanc à tecnologia. A nova coleção, que será lançada em agosto, terá um design mais jovial e o sistema de fechamento em zíper, lembrando uma espécie de fichário. A estratégia para que esses produtos ganhem visibilidade é a volta da loja-conceito. A marca chegou a ter uma no shopping Cidade Jardim, em 2008, mas acabou fechando. Como o grupo registrou bons resultados com a abertura de flagships da Cartier, da Van Cleef & Arpels e da Piaget na região das Américas, com aumento de 10% nas vendas, e no Japão, com incremento de 7%, o Brasil voltará a ter, em São Paulo, uma unidade. O local está em fase de negociação.

O e-commerce é outro caminho para se aproximar do novo consumidor. A plataforma online estreou há seis meses e os resultados são animadores. “Se você me perguntasse sobre isso há três anos, eu ainda não saberia dizer sobre esse canal de vendas”, diz Cheval. “Hoje, ele é imprescindível.” Cheval é visto como um executivo de bons resultados dentro do Grupo Richemont. Em 2001, quando era coordenador de produtos da Cartier no Oriente Médio, ele foi o responsável por abrir uma subsidiária do grupo em Dubai. Essa região apresenta boa performance na venda de relógios, com crescimento de 3% ao ano. Quando esteve à frente da IWC Schaffhausen para a América Latina, Caribe e México, executivo conseguiu abrir uma loja no shopping JK e triplicar as vendas da marca no mercado da América Latina. Agora, seu desafio é escrever uma história que vai do clássico ao novo.