Finanças

A nova cara do Bradesco

Banco da Cidade de Deus inaugura sede de luxo na esquina das avenidas Faria Lima e JK, em São Paulo, para receber clientes de alta renda e os funcionários da área de atacado

Crédito: Egberto Nogueira/Ímãfotogaleria

Padrão AAA: edifício de 17 andares, com 19 mil m2, tem heliponto e instalações hi-tech para os clientes e 1,8 mil funcionários (Crédito: Egberto Nogueira/Ímãfotogaleria)

Nos idos da década de 40, quando a economia brasileira ainda era essencialmente agrícola e a pauta de exportações se resumia ao café, os bancos só se interessavam em atender os grandes latifundiários. Em 1943, ao notar a lacuna na oferta de serviços financeiros para os menos abastados, o empresário Amador Aguiar fundou em Marília, no interior paulista, o Banco Brasileiro de Descontos. Hoje o Bradesco é o segundo maior banco privado do País, com ativos de R$ 1,4 trilhão e lucros de R$ 12,6 bilhões apenas no primeiro semestre deste ano.

Graças ao histórico e à extensa capilaridade, com 4,5 mil agências e 30 milhões de correntistas Brasil afora, o nome Bradesco remete, inevitavelmente, à imagem de banco popular. Ao inaugurar a Cidade de Deus, em Osasco, dez anos após sua fundação, o banco acabou se distanciando fisicamente de seus pares. Nos últimos tempos, ele começou a sentir a necessidade de uma presença maior na região onde a turma se reúne: a Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. Dos anos 90 para cá, a via se tornou uma Wall Street paulistana. Sem uma sede ali, o Bradesco poderia passar a impressão incorreta de estar longe do mercado de capitais e das operações com grandes empresas.

Primeira agência: o Banco Brasileiro de Descontos, Bradesco, abriu as portas em 1943, em Marília (SP). Na época, seu foco eram clientes de menor poder aquisitivo (Crédito:Divulgação)

A instituição presidida por Octavio de Lazari quer mudar isso. Sem descuidar da massa de clientes fiéis, Lazari e companhia querem reforçar a interlocução com os pares do setor financeiro e com as maiores fortunas do país. Para isso, acaba de inaugurar uma nova sede estrategicamente localizada na esquina da Faria Lima com a avenida Juscelino Kubitschek, com aproximadamente 19 mil metros quadrados e 17 andares. “Queremos estar onde os negócios acontecem”, afirma Lazari. “O início das operações desta sede do atacado e investimento nos coloca nessa perspectiva.”

MODERNIDADES O prédio, denominado International Plaza, vai abrigar as equipes de banco de investimento (BBI), corporate, internacional, private e a Bradesco Asset Management. “Esta sede do Bradesco será um ponto de referência para os clientes viabilizarem investimentos, realizar negócios ou simplesmente iniciar o planejamento do seu ciclo de crescimento”, diz Lazari. Antes de ser ocupado pelo banco, a multinacional Unilever era a inquilina do edifício.

São aproximadamente 1,8 mil funcionários no novo local desde segunda-feira 2, uma pequena fração quando comparado à base total de 100 mil empregados do banco. A matriz permanece na Cidade de Deus, com cerca de 10% do contingente total e onde se concentra a maior parte dos departamentos, inclusa a diretoria executiva e o conselho de administração.

Octavio de Lazari: “Queremos estar onde os negócios acontecem. O início das operações desta sede do atacado e investimento nos coloca nessa perspectiva” (Crédito:Claudio Gatti)

Até então, a equipe de atacado ficava dividida em dois espaços, na Avenida Paulista e na própria Avenida Faria Lima, no prédio outrora ocupado pelo HSBC. “Com toda a equipe reunida em um único lugar, teremos importantes ganhos de sinergia”, diz Marcelo Noronha, vice-presidente de atacado do Bradesco. A unidade na Avenida Paulista segue com as operações, acolhendo parte da diretoria.

O Bradesco não informou quanto gastou para alugar e reformar a nova sede. “Foi um valor substancial, mas avaliamos que o preço do metro quadrado estava convidativo”, diz Noronha, que afirmou que locar o prédio por dez anos foi mais vantajoso do que comprar o imóvel. De acordo com o executivo, o prédio foi pensado para receber e oferecer uma boa experiência tanto para os clientes como também para a própria equipe do banco. “Não investimos para ter um prédio de luxo, mas para ter um espaço funcional.”

O primeiro andar do ‘Internacional Plaza’ foi reformado para receber clientes de alta renda e parceiros do banco em uma centena de salas de reuniões. O espaço foi estruturado de forma similar aos ambientes de coworking, com estruturas flexíveis e adaptáveis. “O funcionário não precisa estar necessariamente em seu exato posto para poder trabalhar”, diz Noronha. O local tem uma cobertura para eventos, além de uma área de convivência para os funcionários. Alinhado às boas práticas, o banco realizou a reforma somente com madeiras certificadas e instalou um bicicletário para os funcionários. “Mais do que nunca, a nossa casa é a sua também”, diz Lazari, em um vídeo de dois minutos e meio para apresentar o empreendimento. “Com este prédio, estamos inaugurando um novo patamar de presença no mercado e de relacionamento com os clientes”, afirma ele.

Marcelo Noronha: “O prédio foi pensado para receber e oferecer uma boa experiência, tanto para os nosso clientes como para a própria equipe do banco” (Crédito:Egberto Nogueira)

CENÁRIO A expectativa dentro do banco é por uma intensa movimentação dos grandes detentores de capital pelos corredores do edifício nos próximos meses. Embora o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não deva ser auspicioso este ano, a expectativa do vice-presidente do Bradesco e do mercado como um todo é de uma aceleração em 2020. Ele diz que deve contribuir para isso a taxa de juros reduzida diante da capacidade ociosa da indústria, que tende a manter a inflação sob controle. “Esse cenário vai favorecer o aumento dos investimentos”, afirma Noronha. “Além disso, com o processo de privatização e venda de ativos, esperamos um ambiente positivo para os negócios”.

O ponto de atenção que não pode ser ignorado, segundo ele, vem do ambiente externo. O executivo cita a volatilidade causada por eventos geopolíticos como a guerra comercial entre as potências China e Estados Unidos e o ruidoso Brexit, além dos problemas na vizinha Argentina. “O Brasil está inserido no mundo e não tem uma blindagem contra os riscos globais”, diz ele. “Ainda assim, após a aprovação da reforma da Previdência e com outras importantes pautas em discussão no governo, vamos dar passos importantes para o desenvolvimento da economia.”